Em 1915, na exposição 0,10, em Petrogrado, Kazimir Malevich colocou um quadrado negro sobre fundo branco no canto superior de uma sala, no lugar que, nas casas ortodoxas russas, se reservava aos ícones. A escolha carregava a austeridade da tela de uma tensão quase sacrílega: onde o olhar aprendeu a procurar um rosto e, através dele, a promessa de uma presença, encontrava agora uma superfície que lhe devolvia a sua própria expectativa. Sem paisagem onde entrar, sem figura a reconhecer, o espectador ficava diante de uma pintura que lhe retirava um dos seus hábitos mais confortáveis: reconhecer qualquer coisa e julgar que, por isso, a tinha compreendido.
Malevich atribuía ao suprematismo a primazia da sensação pura, liberta da obrigação de representar os objectos do mundo; o seu quadrado continha, por isso, uma ambição de começo, uma proposta para aquilo que a pintura ainda poderia ser. Reduzi-lo a uma declaração de que nada tem sentido seria fechar demasiado depressa a abertura que o gesto produziu. Interessa-me essa abertura, esse instante em que uma linguagem interrompe os seus próprios costumes e nos deixa perante qualquer coisa para a qual ainda não dispomos de uma explicação satisfatória. O vazio, se quisermos chamar-lhe assim, começa por ser o nome que damos ao que deixou de responder às nossas expectativas.
Diante de uma superfície destas, a pergunta chega quase automaticamente: o que significa? A pergunta é legítima, mas traz consigo uma impaciência que reconheço para lá dos museus, a necessidade de converter depressa uma experiência numa explicação, de encontrar a frase que a encerra e nos permite seguir em frente. Queremos saber o que o artista quis dizer, como quem procura o mecanismo de um objecto para deixar de se sentir à mercê dele. E, no entanto, compreender exige por vezes uma demora que a explicação abreviada impede; exige ficar diante daquilo que resiste, suportar que o olhar ainda não saiba, admitir que o sentido possa acontecer sem se deixar possuir.
É nesse intervalo que o quadro começa a aproximar-se da vida. Também a nós nos pedem uma forma reconhecível, uma continuidade que permita ligar a criança à adulta, o desejo à decisão, a perda à lição que supostamente deveríamos ter aprendido. Uma biografia deve apresentar-se arrumada, com as suas causas e consequências, os seus erros devidamente convertidos em maturidade, as suas contradições resolvidas antes da fotografia. Até o sofrimento parece obrigado a produzir alguma coisa: discernimento, força, um testemunho com utilidade pública. Uma dor que apenas dói, que demora, que se repete sem nos tornar melhores, começa a parecer um investimento mal gerido.
Aprendemos, assim, a fazer de nós uma narrativa onde quase tudo tem de justificar a sua presença. Escolhemos o que pode aparecer, corrigimos a luz, retiramos da composição aquilo que perturba o retrato, e acabamos por confundir a intimidade com os bastidores de uma imagem pública, como se o que se passa dentro de nós só adquirisse existência plena quando estivesse pronto a ser mostrado. Mesmo a fragilidade tem os seus protocolos: pode revelar-se, desde que venha acompanhada de alguma lucidez, de uma frase bela, de um sinal de superação. O desamparo sem elaboração continua a ser uma companhia pouco apresentável.
Mas o eu que cabe nesse retrato foi sujeito a cortes. Ficaram de fora a ternura que sobrevive à decisão de partir, o alívio que acompanha uma perda, a vontade de ser vista e o cansaço de ter de aparecer, tudo aquilo que vive simultaneamente em nós sem aceitar a ordem pela qual gostaríamos de nos contar. A coerência pode ajudar-nos a compreender uma vida; exigida a cada instante, acaba por mutilá-la. Obriga-nos a escolher uma versão e a tratar as restantes como erros de carácter, quando uma pessoa também existe naquilo que ainda não conseguiu conciliar.
Penso no quadrado negro a partir dessa dificuldade: como uma imagem possível do direito a permanecer, em parte, opaca. Reservar alguma coisa de nós, deixar um sentimento sem nome durante o tempo de que precisa, suportar uma página por escrever sem a transformar imediatamente numa prova de esterilidade. O que parece vazio a quem olha de fora pode estar ocupado por um trabalho que ainda não encontrou forma, por uma mudança sem vocabulário, por um desejo que mal ousámos escutar. Preencher depressa também pode ser uma maneira de interromper; podemos ocupar uma vida inteira com respostas dadas antes de percebermos o que nos estava a ser perguntado.
Essa reserva não elimina a necessidade do outro. Continuamos a precisar de palavras, de escuta, de alguém que se aproxime; o próprio quadro foi exposto, colocado diante de olhos alheios, entregue ao encontro e ao conflito. Interessa-me a possibilidade de uma relação que suporte o que ainda não entende, que dispense a tradução integral de uma pessoa como condição para ficar perto dela. Ser conhecida por alguém pode incluir isto: que essa pessoa reconheça os limites do que sabe de mim, que a proximidade conserve espaço para a descoberta, que eu possa mudar sem que toda a mudança seja recebida como uma falsificação do retrato anterior.
A recusa também tem, contudo, as suas vaidades. O silêncio pode tornar-se pose, a austeridade um sinal de distinção, o quadrado negro mais uma imagem irrepreensível com que apresentamos ao mundo a nossa alegada independência. Seria demasiado cómodo acreditar que basta abdicar da figura para escapar às convenções, como se a negação não pudesse adquirir os seus próprios uniformes. Uma liberdade que precisa de parecer livre a toda a hora continua a organizar-se em função do olhar que a avalia; até a rebeldia se torna exaustiva quando exige provas diárias de autenticidade.
O próprio negro de Malevich envelheceu: a superfície está atravessada por fissuras. Gosto de pensar nessa matéria que o tempo tornou mais visível, nessa pintura cuja aparência elementar nunca a dispensou de ser uma coisa feita, vulnerável, sujeita à deterioração. A imagem que poderia servir de emblema a uma pureza impossível devolve-nos, assim, à espessura das coisas. Também aquilo que recusamos continua a fazer parte da nossa história; uma decisão pode alterar o caminho sem apagar os passos que nos trouxeram até ela.
Volto, por isso, àquele canto da sala, ao lugar do ícone, ao olhar que sobe à procura de uma resposta e encontra uma interrupção. Interessa-me poder olhar assim para a minha vida, conceder-lhe tempo antes de lhe exigir uma forma definitiva, deixar que alguma coisa permaneça por resolver sem fazer dessa demora uma acusação. Diante do quadrado, penso no esforço de tornar tudo inteligível, até o que ainda está a acontecer dentro de nós, e no que perdemos durante esse esforço. A certa altura, de tanto corrigirmos o retrato, começamos a desaparecer dele. Queria guardar um lugar onde isso ainda não tivesse acontecido.
D.



