Parque Industrial Olaio. Lisboa, Portugal - Instalações fabris da Olaio em Bobadela, Loures. Fotógrafo: Horácio Novais (1910-1988)
Quando alguém decide abrir uma empresa, em que pensa? Pensa, porventura, que precisa de um meio de subsistência, que é urgente criar trabalho, que há uma ideia que não pode ficar por desenhar, um espaço que não pode ficar vazio, um risco que é preciso correr. Mas não deveria pensar também no impacto, no modo como esse gesto incidirá sobre o mundo, sobre a localidade, sobre as pessoas? Não deveria lembrar-se de que o dinheiro que se investe não é matéria neutra, mas energia que se inscreve no tecido comum, que pode ferir ou alimentar, destruir ou construir? Quem tem capital para investir, tem também, inevitavelmente, uma responsabilidade: a de servir não um “bem maior” - palavra pesada, quase insuportável pelo abuso - mas sim um bem comum, sempre plural, sempre humano, que só se cumpre com pessoas e nunca contra elas.
Há preconceitos que se entranham tão fundo no discurso político que já não percebemos a sua fragilidade, e um dos mais persistentes é o que afirma, quase como dogma de fé, que o empresário não pode ser de esquerda, que a simples fundação de uma empresa constitui acto de rendição ao capital, como se empreender fosse sinónimo de exploração e nunca de responsabilidade, como se a geração de trabalho e de riqueza fosse incompatível com a redistribuição e a justiça social, esquecendo-se que não há redistribuição sem produção, não há igualdade sem organização dos meios que a sustentam.
Como deixámos que aqui chegássemos, a esta clivagem simplista que reduz o empresário a caricatura de explorador e a esquerda a espectadora impotente do palco económico? Talvez porque confundimos empresa com capital acumulado, lucro com avareza, iniciativa com rapina, esquecendo que empresa significa, na sua raiz, empreender, começar, arriscar, e que a empresa é, na sua forma jurídica e simbólica, uma entidade colectiva, um corpo vivo composto por muitos corpos, uma respiração feita de múltiplas respirações. E entretanto fomos deixando que a figura do empresário fosse substituída pela do acionista invisível, esse espectro que nunca entrou numa fábrica, nunca viu uma linha de montagem, nunca apertou a mão a quem produz, mas que aguarda, pontualmente, os seus dividendos como quem espera as estações do ano, indiferente ao que morre ou ao que nasce no processo. Talvez por essa caricatura termos aceitado que todo o acto de empreender era necessariamente cúmplice da exploração, e assim fomos cedendo o terreno até acreditar que não havia outra possibilidade.
E todavia permitimos que nos roubassem esta linguagem, que o discurso dominante colonizasse a imaginação, ao ponto de ser quase obsceno afirmar que a empresa pode ser organismo vivo e não máquina de extração, comunidade e não jaula, espaço de invenção e não apenas engrenagem do lucro. E enquanto isso, a esquerda, tantas vezes prisioneira da nostalgia industrial, continuou a falar para o passado e não para o presente, esquecendo que os trabalhadores de hoje não são apenas os da Lisnave dos anos setenta, mas milhões de homens e mulheres em micro, pequenas e médias empresas, e que até as grandes corporações podem ser repensadas como territórios de experimentação democrática, ecológica e social, se a política tiver a coragem de os interpelar como tais.
Urge, portanto, repensar a empresa não como inimiga estrutural, mas como espaço de disputa e de transformação, um organismo vivo capaz de incorporar novas formas de trabalho, novas arquitecturas de partilha, novas economias de solidariedade. É necessário que a política, e a esquerda em particular, fale para os empresários, que os convoque como agentes da transição ecológica e da dignidade laboral, que crie instrumentos para que empreender não seja sinónimo de acumulação desenfreada, mas de corresponsabilidade colectiva.
E exemplos não faltam para provar que o impossível já foi tentado e continua a pulsar: as cooperativas agrícolas que nasceram em Portugal no pós-Revolução, reinventando a posse da terra; as novas experiências de energia renovável partilhada, como a Coopérnico, que traduzem em prática a ideia de transição justa; e, em escala maior, Mondragón, no País Basco, a demonstração de que uma multinacional pode ser organizada em torno da democracia económica sem abdicar da inovação e da competitividade.
Por isso, que não haja equívoco: não só é possível ser empresário e de esquerda, como é urgente que a esquerda nos reconheça, nos escute, nos convoque. Porque se a política abdicar de falar connosco, deixa o campo económico entregue a quem não tem qualquer interesse em transformá-lo, e aí sim, perde-se a batalha antes de ser travada. É tempo de assumir que a empresa é também espaço da esquerda, e que sem essa reivindicação, a própria ideia de transformação social fica amputada.
E quando me dizem que isto é utópico, que é ingénuo ou irrealizável, pergunto: como é que se modifica uma sociedade sem utopia, como é que a esquerda pode repensar o mundo com os valores que proclama sem falar com empresários, sem disputar a economia, sem habitar o território onde a vida concreta acontece? A utopia não é um adorno, é a condição mínima da transformação. Sem ela, ficamos apenas a gerir ruínas com discursos prudentes. Com ela, ainda existe a possibilidade de construir, de viver.
D.



