Dora Maar with Green Fingernails - Pablo Picasso
Circula uma ideia confortável, quase moralista, que insiste em reaparecer sempre que se tenta explicar o estado anémico do pensamento contemporâneo, a de que as pessoas já não pensam porque não querem, porque se tornaram preguiçosas, distraídas, moralmente falhadas, vítimas de uma decadência cultural abstrata, como se o pensamento fosse um músculo que se atrofia apenas por negligência individual, e não uma capacidade que depende de condições materiais muito concretas para existir, respirar e insistir. Uma leitura assim não falha por ingenuidade, mas por conveniência: ao reduzir o problema a uma falha individual, absolve-se o sistema que lucra com essa atrofia, deslocando a culpa para o indivíduo, típico bode expiatório moderno que tudo suporta e nada decide.
O que se passa não é uma falência ética da vontade, mas uma reconfiguração estrutural da consciência sob o capitalismo tardio. Pensar tornou-se disfuncional. Pensar demora, exige fricção, pausa, contradição, conflito interno, e tudo isso interrompe o fluxo perfeito daquilo que verdadeiramente importa: a circulação de capital, de dados, de estímulos, de consumo. Num sistema onde a atenção é mercadoria, o pensamento profundo não é apenas inútil, é um obstáculo.
Vivemos rodeados por dispositivos que prometem libertar-nos do esforço, da espera, da dúvida, e que, na realidade, operam como próteses cognitivas de um corpo social exausto. O telefone que carregamos no bolso apresenta-se como extensão da mente, quando na verdade funciona como um intermediário cuidadosamente desenhado para capturar tempo, emoções, impulsos, micro-reações. Não pensa por nós; pensa sobre nós, recolhe padrões, ajusta estímulos, vende previsibilidade. A delegação do pensamento não é um efeito colateral, é o produto.
Este processo não ocorre apenas no domínio do entretenimento, esse território onde a crítica costuma ficar preguiçosamente estacionada. O problema não é ver séries, jogar videojogos ou consumir imagens em excesso; o problema é que o consumo se tornou a forma dominante de relação com o mundo. Consumimos notícias como quem consome trailers, política como quem consome narrativas episódicas, causas como quem consome marcas. Tudo é rápido, fragmentado, emocionalmente carregado, mas estruturalmente vazio. A excitação substitui a compreensão, a indignação substitui a análise, e o envolvimento reduz-se a reacções condicionadas que se dissipam com a mesma rapidez com que surgem.
A política, neste contexto, transforma-se inevitavelmente em espectáculo. Não porque as pessoas sejam incapazes de pensar politicamente, mas porque o sistema recompensa aquilo que não exige pensamento. O “centrismo esclarecido”, uma postura que se apresenta como maturidade intelectual e equilíbrio moral, é talvez o exemplo mais acabado desta falência. “Ambos os lados são maus”, diz-se, encerrando uma conversa sem nunca a ter começado. Não há aqui nuance, há recusa. Recusa de aprender história, de compreender relações de poder, de distinguir violência estrutural de resistência, opressão de resposta. A falsa equivalência torna-se virtude, a ignorância torna-se sinal de elevação e o não-pensamento disfarça-se de sabedoria.
Este anti-intelectualismo não é acidental. É cultivado. Um sujeito que pensa demasiado começa a ligar pontos perigosos: começa a perceber que a precariedade não é azar, que a exaustão não é falha pessoal, que a desigualdade não é um erro do sistema, mas o seu modo normal de funcionamento. Pensar gera perguntas, e perguntas geram possibilidades. E possibilidades são sempre ameaçadoras para uma ordem que se quer inevitável.
É neste terreno que a tecnologia, e mais recentemente a inteligência artificial, surge não como ruptura, mas como culminação lógica. A promessa é sedutora: eficiência, optimização, alívio do esforço mental. Mas escrever, estudar, argumentar, errar, não são tarefas meramente instrumentais; são os próprios processos através dos quais o pensamento se forma. Quando se ensina uma geração inteira a contornar esses processos em nome da rapidez e do resultado, não se está a libertar tempo, está-se a amputar capacidades. A mente aprende aquilo que pratica, e uma mente treinada para evitar o esforço intelectual torna-se perfeitamente adaptada a um mundo que não quer ser interrogado.
A idolatria tecnológica, um entusiasmo perante algoritmos, plataformas e promessas de solução total é profundamente anti-política. Transforma problemas sociais em bugs técnicos, desigualdade em falha de dados, colapso ambiental em desafio de engenharia. Retira responsabilidade aos sistemas de poder e entrega-a a máquinas desenhadas, treinadas e possuídas pelas mesmas entidades que lucram com a manutenção desses problemas. Não se trata de negar o potencial da tecnologia, mas de recusar a fantasia de que ela possa substituir o pensamento colectivo, o conflito democrático e a transformação estrutural.
No fundo, o que está em jogo não é apenas a capacidade de pensar, mas a própria possibilidade de imaginar alternativas. Um sistema que ocupa todos os espaços - trabalho, lazer, afecto, linguagem - não precisa de repressão explícita; basta-lhe o cansaço. Um sujeito exausto não se revolta, não organiza, não sonha. Contentar-se-á com estímulos, com distrações, com pequenas doses de prazer que anestesiam sem nunca saciar. Como dizia Aldous Huxley - não somos dominados pela dor, mas pela ausência de desconforto suficiente para nos obrigar a acordar.
Não há aqui soluções fáceis, nem gestos individuais redentores. Pensar não se recupera com dicas de produtividade ou detox digitais de fim-de-semana. Recupera-se, se for possível, através da reconstrução das condições materiais que tornem o pensamento viável: tempo, segurança, comunidade, silêncio, conflito real. Insistir no valor do pensamento, hoje, é - creio eu - um acto profundamente político, não porque ofereça respostas imediatas, mas porque recusa a lógica que transforma seres humanos em consumidores dóceis de realidades pré-fabricadas.
Uma sociedade que abdica de pensar abdica também da capacidade de se transformar e é possível que seja isso que a torna tão funcional para quem prefere que tudo fique exactamente como está.
D.



Gostei, muito bom, continua,