Newton’s Cenotaph (1784), Étienne-Louis Boullée’s
Desde cedo que me fascina a intersecção entre a arquitectura e a literatura; talvez por influência dos livros que povoaram a minha infância, onde cada descrição detalhada de palácios encantados, labirintos impossíveis ou bibliotecas infinitas se transformava imediatamente numa construção mental, perfeita e exacta, habitável apenas pela imaginação. Quando lemos sobre uma casa, aliás, será possível não lhe desenharmos mentalmente toda a arquitectura, não imaginarmos cada corredor, cada sala, cada escada ou janela por onde entra a luz que a história nos descreve? Cresci a acreditar que todas as grandes narrativas literárias possuíam uma arquitectura secreta e que todos os edifícios memoráveis encerravam uma narrativa oculta, à espera de ser decifrada. Não é por acaso, portanto, que tenha descoberto nesta cumplicidade entre palavras e pedra, entre o construído e o imaginado, o mais fértil território das minhas inquietações intelectuais e filosóficas.
E que a arquitectura seja uma literatura feita de matéria sólida e a literatura uma arquitectura edificada de palavras parece-me evidente, já que ambas, na essência do seu propósito mais elevado, reclamam para si a mesma substância imaterial dos sonhos, das utopias e, frequentemente, dos mais solenes fracassos. E é a leitura do percurso intelectual e artístico de Étienne -Louis Boullée e Claude-Nicolas Ledoux, arquitectos insurgentes contra os excessos ornamentais e frívolos do Barroco tardio e do Rococó decadente, no ocaso do Antigo Regime francês, que me convoca irresistivelmente para esta aproximação simbólica. Estes dois arquitectos, simultaneamente revolucionários e reaccionários, elevaram a imaginação ao estatuto mais nobre da criação humana, construindo no papel um universo arquitectónico constituído não por mármores ou granitos, mas por ideias puras, platónicas, delineadas em formas geométricas absolutas: esferas, pirâmides, cubos - arquitecturas sublimes porque irrealizáveis, sublimes porque transcendem o possível e tocam a infinitude filosófica do absoluto.
Boullée, o mais ousado idealista deste par geométrico, concebeu um cenotáfio monumental destinado a homenagear Newton, um edifício-esfera de proporções celestes, vazio de tudo excepto da luz artificial e metafísica que atravessaria as suas paredes, perfuradas com a precisão das constelações. Uma esfera cuja grandeza não estava na sua materialização (que não aconteceu), mas na sua irrealização deliberada, na sua condição eterna de sonho arquitectónico. Aqui fazemos facilmente o paralelismo com Jorge Luis Borges e a sua infinita Biblioteca de Babel, construída de salas hexagonais intermináveis, ou Kafka, cujo Castelo se mantém sempre no horizonte inacessível da existência absurda; reconhecemos ainda Platão, cuja caverna permanece como símbolo permanente da nossa condição metafísica, da nossa dificuldade infinita em alcançar a luz da verdade absoluta. Boullée ergueu no papel não apenas uma homenagem a Newton, mas um tributo filosófico ao vazio existencial e epistemológico que acompanha o ser humano no seu diálogo perpétuo com o infinito.
Cemetery at Chaux - France (1804), Claude-Nicolas Ledoux
Ledoux, num impulso menos metafísico e mais funcional, ainda que igualmente utópico, projectou cidades inteiras, comunidades modelares onde cada edifício proclamava uma função social explícita, uma moralidade arquitectónica transparente. Sonhou salinas em forma de círculos perfeitos, casas de guardas esféricas, até edifícios cuja estrutura proclamava com clareza desconcertante as virtudes da ordem, da disciplina, da harmonia social. Arquitectura parlante, diziam os críticos, com desprezo disfarçado de admiração - uma arquitectura que falava, que educava pela sua simples existência, embora estivesse condenada, desde o princípio, à incompreensão popular, à rejeição aristocrática e, portanto, à condição de eterno projecto inacabado.
No entanto, o que une profundamente estes dois homens não é apenas o gosto pela geometria absoluta ou a antipatia pelo ornamento supérfluo; é a noção eminentemente intelectual e filosófica de que a verdadeira revolução, arquitectónica ou literária, política ou filosófica, reside precisamente na utopia. A revolução perfeita, aquela que não pode ser corrompida pelo desencanto do tempo ou pelas fraquezas humanas, é necessariamente irrealizável. Só na condição impossível é que estas ideias sublimes se preservam intactas, imunes à degradação inevitável da concretização física. O idealismo geométrico de Boullée e Ledoux é revolucionário exactamente por isso: porque desafia o dogma utilitarista que determina o valor de uma ideia pela sua concretização material, propondo, pelo contrário, que o valor supremo da arquitectura reside precisamente na sua existência como sonho puro e absoluto.
É neste ponto exacto que a literatura encontra a arquitectura, pois também a literatura se define frequentemente pela sua capacidade de erguer utopias em palavras, de criar universos tão perfeitos que jamais poderão existir fora das páginas que os contêm. Boullée e Ledoux, mais do que arquitectos no sentido convencional, são escritores de utopias edificadas sobre o abismo sublime do impossível. A sua matéria-prima é a mais densa, complexa e paradoxal substância imaginável: o desejo humano de absoluto conjugado com a certeza inevitável da impossibilidade do absoluto. Um paradoxo filosófico que reconhecemos em Kafka, em Borges, mas também em Platão, em Voltaire e, por que não dizê-lo, no desalento irónico de Saramago.
Porque a transcendência é isso mesmo: uma experiência simultaneamente grandiosa e aterradora, o reconhecimento da pequenez humana diante da imensidade inatingível das suas próprias aspirações. A arquitectura de Boullée e Ledoux, por isso mesmo, não pode - nem deve - sair do papel, pois é justamente nessa imobilidade utópica que reside a sua força filosófica e poética, o seu desafio intelectual permanente, o seu convite eterno a reflectir sobre o que significa sonhar.
Estas arquitecturas do impossível, feitas de linhas perfeitas, proporções exactas e vazio absoluto, recordam-nos, enfim, aquilo que os grandes escritores e filósofos sempre souberam: que a verdadeira grandeza das ideias humanas não se revela nos seus sucessos materiais, mas sim nos fracassos sublimes que nunca cessaram de inspirar-nos a tentar, uma e outra vez, alcançar aquilo que sabemos ser eternamente inalcançável.
D.




