Henri Matisse a pintar “A Dança” (1931)
Não traces objectivos para chegar a algum lado. Traça-os para não te perderes. A ideia de chegada é uma ilusão confortável, um repouso prometido, uma linha de meta inventada, mas a perda acontece em surdina, quando baixas o volume do que és, quando tornas simpático o que é denso, quando aceitas viver em modo de tradução permanente, como se tudo tivesse de caber, como se tudo tivesse de ser entendido à primeira escuta.
Come fora, sempre que puderes, mas não como quem consome, não como quem cumpre agenda. Come como quem observa o ritmo. Escolhe o restaurante pequeno, o que não tem discurso nem estratégia, onde o molho demora porque alguém está a fazê-lo de facto, com erro, com repetição, com tempo. Pede sem excesso de prudência. A prudência em excesso é apenas medo bem educado. Come devagar, não por saúde, mas por respeito ao tempo. Come com o corpo inteiro. Prova ostras mesmo com desconfiança. Há experiências que não pedem gosto imediato, pedem permanência. O paladar também pensa. Também lembra. Também decide.
Bebe um copo de vinho tinto ao fim da tarde, quando o dia começa a desafinar nos detalhes e a verdade se torna mais audível. Um Douro sem concessões. Bebe-o num bar quase vazio, quando ninguém decidiu ainda quem vai ser essa noite. Observa as mãos. Observa os silêncios. Observa as pausas entre um gesto e outro. A vida raramente acontece no refrão; acontece nos intervalos.
Escuta música como quem se deixa conduzir. Não para ilustrar o dia, mas para o atravessar. Dança sozinho em casa, sem plateia, sem espelhos, sem testemunhas. Dança mal. Dança tarde. Dança como se o corpo estivesse a lembrar-se de algo antigo, anterior à linguagem, anterior à vergonha. Canta em alto e bom som no carro, mesmo desafinado, mesmo exagerado. Abre o vidro. Põe a mão de fora. Deixa o vento passar entre os dedos. Esse gesto simples, quase infantil, ainda prova que estás aqui. Há verdades que só se dizem em volume alto e com o corpo em movimento.
E quando fizeres amor, fá-lo com entrega inteira. Sem contabilidade. Sem catálogo de defeitos. Sem pedir desculpa ao corpo. Principalmente tu, mulher: não entres no amor como quem pede autorização. Não leves para a cama o olhar disciplinador que te ensinaram a carregar. O corpo não precisa de ser corrigido para ser desejável, nem afinado para ser digno. Faz amor com peso, com respiração, com demora. Com o corpo tal como ele é naquele dia, naquela hora, com as marcas visíveis e as invisíveis, com a carne cansada ou faminta, lúcida ou trémula. O prazer não é uma prova de desempenho. Não é narrativa. Não é mérito. É escuta profunda. É atenção radical.
Vai a lugares onde a tua linguagem não serve, onde o teu vocabulário falha, onde não sabes como te sentar nem como justificar quem és. Perde-te. Só quem se perde percebe o mapa. Escuta alguém que não pensa como tu, que organiza o mundo por outra gramática moral, política ou emocional. Não para concordar. Não para vencer. Para compreender o ritmo do desacordo, essa arte quase extinta num mundo que confunde opinião com identidade.
Não procures encontrar a tua voz. Ela nunca esteve perdida. Aprende a habitá-la. Sustenta o tom. Não a diluas. Não a tornes simpática. Escreve - se escreveres - não para seres lido com facilidade, mas para seres atravessado. Não escrevas para curar. Escreve para nomear. Nomear dói. Nomear expõe. Nomear não resolve, mas torna audível. A escrita não é um bálsamo; é um instrumento de afinação fina.
Mexe-te. Liberta-te. Não tentes dominar o corpo nem educá-lo à obediência. Escuta-o como quem escuta um instrumento antigo, cheio de marcas. O corpo não é um erro a corrigir nem um projecto de optimização, é um território onde a história deixou sinais, um arquivo vivo, político, sensível. Procura força sem moral. Prazer sem culpa. Descanso sem vergonha. Exige que o pensamento tenha carne e recusa tratar a carne como ruído de fundo.
Bebe mais um copo de vinho se fizer sentido. Aprende a diferença entre prazer e anestesia. Aprende quando ficar. Aprende quando sair. A maturidade não está em aguentar mais tempo, está em saber mudar de andamento.
Cria obra - seja ela escrita, gesto, decisão - que sobreviva à tua própria dúvida. Textos que não precisem de defesa. Livros que não peçam contexto. Fragmentos que permaneçam mesmo quando tu próprio hesitares. Não te interessa agradar. Interessa-te afinar. Que quem chega, chegue porque reconheceu o tom, não porque foi convencido.
Cuida de quem trabalha. Agradece sem condescendência. Lembra-te de que o mundo não é sustentado por ideias, mas por corpos, mãos, horários impossíveis, cansaços que não aparecem nas narrativas. Qualquer pensamento que ignore isto soa oco.
Escolhe menos ruído e mais intenção. Menos urgências inventadas. Menos performances sociais. Menos vida em modo de resposta automática. Escolhe silêncio deliberado. Tempo inútil. Dias que não produzem nada além de presença. A vida não pode ser apenas um fundo sonoro do trabalho ou da validação alheia sem perder o compasso.
Constrói uma relação honesta com o dinheiro: suficiente para não dependeres, insuficiente para mandar em ti. O dinheiro como infra-estrutura da liberdade, nunca como critério de valor. Cria sem romantizar a precariedade, mas também sem ajoelhar perante o mercado como se fosse um deus neutro e inevitável.
Escolhe relações que não te diminuam cognitivamente. Não pessoas perfeitas, mas pessoas despertas. Gente que saiba ouvir silêncio. Que não tema a tua intensidade, a tua inteligência, a tua forma de estar no mundo. Relações onde não seja preciso amputar partes de ti para caber nem baixar o volume para não incomodar.
Aceita o fim como estrutura, não como ameaça. Tudo acaba - projectos, amores, versões tuas. Não como tragédia, mas como condição de beleza. Aprende a largar antes de apodrecer. Fecha ciclos sem dramatização. Compreende que a finitude não é falha. É desenho. É cadência.
Não procures legado. Procura rasto. Que alguém, um dia, encontre o que fizeste e perceba que alguém esteve ali, inteiro, lúcido, sem mentir. Que reste o gesto afinado, não a mitologia da autoria.
Não vivas para cumprir estes objectivos. Vive para habitar esta direcção. 2026 não pede redenção. Pede atenção. Pede escuta. E coragem suficiente para não desafinar.
Bom ano,
D.



