As Três Idades Da Mulher de Gustav Klimt (1905)
Antes de vos largar os textos densos que andam a marinar há semanas na pasta de drafts do Substack - tão densos que nem sei se eu, futura, terei paciência para os ler até ao fim novamente - ontem apareceu‑me um reel no instagram e escreveu‑me este texto pelas mãos. Saiu em dois fôlegos, durante a madrugada e hoje de manhã, o que não é hábito - gosto de deixar a escrita marinar uns tempos. Esta é um bocadinho mais leve (mas não demasiado) do que as próximas publicações, como se fosse preciso abrir primeiro esta janela antes de começar a fechar portas mais pesadas.
Vi uma mulher de noventa e dois anos aprisionada num rectângulo luminoso de seis polegadas a dizer, com uma espécie de serenidade triste: “the person that I am today is not the person that I would like to be” enquanto era entrevistada por um jovem. Não falava das rugas, nem do pequeno colapso diário das articulações; falava de outra erosão mais funda, a das oportunidades não acolhidas, dos convites deixados sem resposta, dos riscos adiados até se tornarem impossíveis, dessas versões de si que permaneceram intactas por nunca terem sido vividas, e por isso mesmo morreram sem sequer nascer.
Existe uma certa tristeza em ouvir o arrependimento já na boca da velhice, quando o tempo deixou de ser uma avenida larga e se contraiu num corredor estreito com uma única porta ao fundo. Não se trata do melodrama juvenil do “podia ter ido, podia ter tentado”, mas de um inventário final, quase notarial: “já não tenho corpo nem calendário para corrigir isto”. Uma coisa é falhar e poder recomeçar. Outra, muito distinta, é descobrir que já não existe um recomeço possível, que o mundo ainda se move, mas o teu corpo foi discretamente dispensado do movimento. O tempo, aquele que antes se estendia como estrada, encolhe-se em passagem, e a única saída é a saída.
E é nesse estreitamento que a frase dela me cai em cima como uma carta atrasada entregue por engano na minha porta temporal de trinta e sete anos.
“The person that I am today is not the person that I would like to be” é, na delicadeza inglesa, uma acusação: não à velhice, que já só cumpre sentença, mas às sucessivas versões anteriores dela que, podendo, não se atreveram.
Sob a gramática educada, ouve-se qualquer coisa como “vocês, que vieram antes de mim, não fizeram o trabalho”. E eu, que ainda vou a meio do caminho, digo eu, recebo isto como quem abre um envelope vindo do futuro com uma nota a vermelho: responder enquanto é tempo.
Andamos, suspeito, a fazer tudo ao contrário.
Passamos meia vida a descer escadas interiores para ir buscar uma criança que deixámos num canto da casa, ao frio, quando talvez já fosse tempo de subir degraus para ir entregar qualquer coisa à velha que nos espera, com uma paciência irritada, no último andar. Transformámos a criança interior num pequeno ídolo doméstico: falamos com ela em voz baixa, pedimos desculpa pelos abandonos inaugurais, prometemos não a exaurir, não a sobrecarregar, não a ferir outra vez; oferecemos-lhe terapia, workshops, cartas escritas ao passado, encenamos de novo as cenas antigas como se fosse possível reescrever o guião com a tinta do presente. A salvação, dizem-nos, está no passado reabilitado: se conseguirmos curar a origem, o resto limpar-se-á como por milagre. Vivemos, assim, ajoelhados perante um altar de reparação, numa religião onde o paraíso é um ontem que nunca existiu, mas que insistimos em reconstruir na imaginação.
A vida, porém, é teimosa na sua direcção e não consente regressos verdadeiros. Pode olhar para trás, interpretar, perdoar se houver generosidade bastante, mas o eixo permanece inclinado para diante, sempre para diante. Chega um momento em que a velha pergunta “o que é que me fizeram?” encolhe de importância ao lado de outra, mais severa: “o que é que eu estou a fazer com o que me fizeram?”. Entre a criança que fomos, tão inocentemente vítima, e a velha que seremos, tão inevitavelmente resultado, abre-se um intervalo onde deixamos de ser só consequência e passamos, gostemos ou não, a ser causa.
Winnicott escreveu sobre a necessidade de um “ambiente suficientemente bom” para que o bebé possa existir sem se desfazer em angústia. Talvez tenhamos lido isto como sentença e não como diagnóstico, e condenado a nossa vida adulta a um trabalho infinito de arquitectura retroactiva: refazer, com obsessão, o berço, a casa, o colo que poderá não ter havido, como se ainda pudéssemos instalá-los atrás de nós e de repente tudo se recomporia. Assim, permanecemos eternamente em obras, com fita de isolamento à volta do coração, sempre a adiar a inauguração oficial da nossa própria vida com o argumento elegante de que “ainda estou a curar-me”. A criança interior tornou-se um álibi: um pretexto emocionalmente inatacável para não decidir. E, no entanto, algures, sentada numa cadeira que ainda não existe mas que já começou a tomar forma na imaginação, a minha versão de noventa e dois anos, observa-me.
Essa Diana velha, não está interessada em relatórios exaustivos sobre a minha infância. Não fará uma auditoria às minhas feridas originais, não me perguntará se completei com zelo o circuito terapêutico da época, se li todos os livros certos, se identifiquei com precisão cirúrgica cada carência e cada trauma. Ela quer saber outra coisa, muito mais simples e mais difícil: se eu vivi. Se arrisquei o suficiente para poder sentar-me ao lado dela, um dia, sem ter de baixar os olhos por vergonha.
A voz da Diana de noventa e dois não é meiguinha nem pedagógica; é uma voz fatigada de quem já viu demasiadas despedidas, demasiadas camas vazias, demasiados objectos sem dono. Ela sabe o que é perder, sabe o que é encolher-se fisicamente, sabe o momento exacto em que o calendário deixou de ser promessa para se tornar contagem decrescente. Quando fala, não desperdiça sílabas: “não é suposto que a vida deixe de doer; é suposto que, ainda assim, continues”. O que lhe interessa não é se me protegi com mestria, mas se me expus com decência suficiente para que a vida me estragasse um bocadinho, que é a única forma honesta de dizer que estive lá.
Quando eu, trinta e sete anos, lhe falo com orgulho da minha relação diligente com a criança interior, ela ouve com uma certa ternura, mas não abdica da pergunta essencial: “e a velha interior, quem é que a está a fabricar?”. É uma pergunta simples como um copo de água, e contudo devasta.
Porque obriga a deslocar o eixo da preocupação: já não se trata apenas de “como é que se repara o que aconteceu?”, mas de “que espécie de pessoa é que eu estou a preparar para te entregar, um dia, quando já não houver tempo para remendos?”. A ética deixa de ser apenas cuidar da ferida antiga e passa a ser não humilhar a velhice que vem aí com uma biografia miseravelmente tímida.
Não quero ser a mulher sentada numa cadeira a fazer o inventário piedoso do que não fez. A mulher que eu tenho de ser agora é uma espécie de guarda-costas da velha que serei: existe lá à frente, num ponto ainda abstracto do calendário, e eu estou aqui para garantir que, se lá chegar, não esteja a recalcular perdas, mas a decidir se a próxima viagem é heli ski ou mergulho num mar obscenamente azul.
A criança interior pede segurança, mantas, contratos que garantam que não volta a doer. A mulher de noventa e tal pede agenda. A criança quer que a vida não magoe; a velha quer ter histórias suficientes para aguentar a dor que vier, porque a dor, nessa altura, é cláusula obrigatória, não nota de rodapé.
E eu, aos trinta e sete, sou a única que pode assinar estes contratos pelas duas.
Quando penso na Diana de noventa e dois, não a imagino como estátua triste diante da janela, mas como um corpo ainda intrigado com o que pode fazer em seguida, mesmo que com menos fôlego, mesmo que com mais cautela.
Ela não precisa que eu lhe ofereça uma velhice higienizada, sem riscos, sem sustos, sem cansaços; precisa que eu lhe garanta, hoje, uma reserva de momentos insensatos, escolhas imprudentes e coragens discretas suficientes para que, quando o mundo encolher, ela ainda tenha material para se lembrar com um sorriso indecente, potencialmente desdentado se eu não for ao dentista em breve.
Penso em Ítaca, de Kaváfis, e na velha que chega ao porto, carregada não de certezas mas de histórias. Ítaca não é um destino, é uma desculpa para atravessar o mundo. Do mesmo modo, a Diana de noventa e dois não é um ideal de serenidade, é o corpo e a mente que vai carregar a factura de tudo o que eu fiz e deixei por fazer. Quando e se eu chegar a ela, o que vai pesar não são as vezes em que falhei a tentar, mas as vezes em que nem sequer tentei para não falhar.
Não estamos, então, a fazer tudo ao contrário? A usar a dor antiga como motivo para não escolher, o trauma como carta branca para não nos comprometermos com nada que nos exija presença. “Não vou, porque não estou pronta.”, “Não amo, porque ainda me dói.”, “Não mudo, porque ainda não me encontrei.” Mas ninguém se encontra parado. O que somos vai-se compondo na fricção com aquilo que fazemos, nas decisões que tomamos antes de nos sentirmos preparados, na vida que ousamos viver enquanto ainda estamos “a meio”. Não é depois da cura que começa a vida adulta; é precisamente no meio das fissuras que a vida adulta se decide.
Os estudos sobre arrependimento dizem que o que mais pesa, perto do fim, não são os erros, são as oportunidades abandonadas, as viagens nunca marcadas, os amores cuidadosamente evitados, as versões de si mesmas que as pessoas deixaram por estrear. Mas também mostram que pensar no próprio futuro de forma vívida, concreta, quase como se fosse outra pessoa que amamos, muda a forma como decidimos hoje: quem sente continuidade com o seu eu de daqui a décadas está mais disposto a fazer agora o que vai beneficiar essa pessoa distante. Talvez seja isso que me cabe: tratar a Diana de noventa e tal como trataria uma amiga muito amada que ainda não conheço, e a quem quero evitar a humilhação de olhar para trás e ver sobretudo omissões.
Por isso, quando hesito - vou, não vou, digo, não digo, salto, não salto – a pergunta deixa de ser “vai magoar a minha criança interior?” e passa a ser outra, mais agressiva: “isto ajuda ou não ajuda a que a mulher de noventa e tal esteja a pensar na próxima viagem, e não na história que não viveu?”. Se a resposta for não, então o perigo não está no risco que corro agora, está na velhota que vou empurrando, desde já, para a cadeira do arrependimento.
A mulher de noventa e dois anos que vi no ecrã não teve essa sorte, ou acha que não teve. Disse que a pessoa que é não coincide com a pessoa que desejava ser, e nessa frase cabe uma biografia inteira a desfazer-se num suspiro em que ela ainda diz “It’s sad, isn’t it?”. Eu não posso devolver-lhe os anos, nem emendar as encruzilhadas que ela deixou passar; o tempo não aceita anexos retroactivos. Mas posso, aos trinta e sete, ouvir a voz dela como quem recebe uma instrução severa: não chegues aqui assim.
E, ao mesmo tempo, sei que “noventa e dois”, “oitenta e cinco”, “sessenta” são apenas números que uso para desenhar um horizonte que não controlo. Não sei se chego aos noventa, aos oitenta, aos sessenta, a amanhã, à próxima terça-feira; a tal “Diana de noventa e dois” é, no fundo, uma metáfora conveniente para a última versão possível de mim, a versão de agora. Quando falo dela, estou sempre a falar disso: da derradeira forma em que a minha vida ficar, da última consciência que ocupar este corpo antes de se apagar, seja aos vinte e nove ou aos cento e três. O que eu faço hoje é para essa última de agora.
A questão não é bem se a Diana de noventa e dois vai estar a pensar na próxima viagem de heli ski ou no mergulho nas Bahamas - embora eu gostasse, sinceramente, de na altura estar a discutir com o médico se ainda posso mergulhar em água gelada, se o coração aguenta o choque térmico.
No fim, o que importa é isto: que a minha última versão não tenha vontade de me despedir por justa causa e a minha responsabilidade é com essa última testemunha que sou de mim, porque a última versão não é a de noventa e dois, é sempre a que está viva agora: viver de tal maneira que esta Diana de hoje se possa deitar em paz, certa de que, se um dia houver outra, muito velha, ela só terá de agradecer a audácia com que eu vivi por ambas.
D.




Muito bom. Mas se andamos a fazer tudo ao Contrário? Porque não mudamos. E se mudamos, não ficará novamente tudo ao contrário? È vida.