Rooms by the Sea, 1951 by Edward Hopper
Hoje terminou o Mundial. Uma final. Uma metáfora quase óbvia para o meu estado emocional dos últimos dias e para esta véspera do fim das férias. É o calendário a insistir no tema dos finais. Com metade do país a sair lentamente do transe colectivo, a outra metade a fingir que nunca se importou assim tanto e o meu ciclo circadiano completamente vandalizado por excesso de trabalho pré-férias, trabalho em férias, colapsos emocionais, insónias reincidentes e uma antiga incapacidade de distinguir repouso de queda civilizacional, preciso de falar sobre isto da pertença, de onde moramos, de promessas que podem ser casa ou um beco sem saída.
Isto tudo, antes de iniciar uma pausa sem data de regresso ao Instagram, e por aqui também. Preciso de diminuir o ruído: o visual, o literário, o ruído em geral, que nem sempre vem com som, mas ainda assim ocupa, dispersa e cansa, sobretudo quando há estados emocionais mais difíceis, dos que nos devolvem à posição fetal e reduzem o mundo à necessidade elementar de abrigo. Às quatro pessoas que pagaram para me ler: compensar-vos-ei por isso, e a todos vocês que esperam por palavras minhas, voltarei, possivelmente, antes do fim do ano, nem que seja para vos desejar um 2027 incrível, dizer-vos o quão espectacular a vida é e repetir todas essas coisas boas em que, apesar de tudo, acreditarei sempre. Porque a vida, na verdade, é simples. Nós, humanos, é que temos feito quase tudo errado.
Pátria. Começo por aí, porque é uma das primeiras palavras que habitamos, ainda antes de sabermos pronunciá-la. Mas a pátria começa, na verdade, muito antes de qualquer bandeira: começa numa mesa, numa voz, num colo. É lá que ouvimos as primeiras frases, muito antes de sabermos o que uma frase pode fazer a alguém. Uma mãe que repete algo até se tornar seguro. Um pai que diz “vamos em frente” sem precisar de dizer mais nada. Um silêncio que se aprende a interpretar antes de se aprender a falar. É a primeira morada abstracta que nos oferecem: não é um território, mas é um conjunto de frases ditas por pessoas concretas, que decidem, sem sabermos, o que vamos achar que é seguro, o que vamos achar que é amor, o que vamos passar a vida a tentar encontrar ou a fugir.
Não escolhi nascer mulher, nem no século XX, nem numa família específica, nem nesta estranha combinação de energia mental, ironia e insónia. Tudo isso me aconteceu antes de eu poder dizer a primeira palavra. A biografia começa sempre antes da vontade, e quando finalmente chegamos a nós, já há uma língua instalada na boca, uma família à mesa, uma classe social a desenhar possibilidades, uma história colectiva a sussurrar fantasmas.
Lembro-me de uma frase dita por um professor de quem nunca gostei. Foi o meu primeiro orientador de tese de mestrado e não nos conseguimos entender, o que, pensando bem, talvez diga mais sobre a minha incompatibilidade precoce com certas formas de autoridade do que sobre a qualidade pedagógica do homem; mas disse-me uma frase que ficou: “Não escolhes onde nasces, mas podes escolher onde vives.”
Durante anos achei a frase simplista. Ainda acho e continuo a saber que não é inteiramente verdadeira. Há quem nunca tenha os recursos, a liberdade, o passaporte, o dinheiro, a saúde, a segurança ou as circunstâncias para escolher onde viver. A geografia também é um privilégio. A mobilidade, vendida como prova de liberdade individual, é frequentemente apenas o nome elegante que damos à desigualdade quando esta usa mala de cabine.
Ainda assim, interpreto hoje isto de forma diferente. Há um momento da vida em que deixamos de ser apenas habitantes do acaso. Não porque passemos a controlar inteiramente o destino, mas porque começamos, dentro dos limites que nos foram dados, a escolher algumas das nossas moradas. Escolhemos os livros que permanecem na estante, as pessoas que permanecem à mesa, as conversas às quais regressamos, as ideias que deixamos de servir, as frases que já não aceitamos como casa.
E, sem nos apercebermos, começamos lentamente a mudar de país. Não no sentido administrativo, em que é preciso preencher formulários, arranjar documentos, provar existência a um balcão. Mudamos de país de forma mais silenciosa. Não me parece que a verdadeira emigração aconteça quando atravessamos uma fronteira, acontece quando deixamos de habitar determinadas ideias e passamos a viver dentro de outras. Acontece quando uma frase antiga deixa de nos servir, quando uma culpa herdada perde autoridade, quando uma palavra que durante anos nos diminuiu se revela finalmente ilegítima, quando percebemos que há lugares onde nascemos e lugares onde, muito mais tarde, conseguimos existir.
Há umas duas ou três semanas ouvi uma frase na rádio, pela voz da Marisa Liz. A frase não era dela. Alguém lha tinha oferecido antes: “O não saber é também um caminho.”
Tenho quase a certeza que quando a disse, que não fazia ideia de que alguém, algures, precisava exactamente daquela sequência de palavras para respirar um pouco melhor naquele momento. E é uma das coisas que mais me fascinam na linguagem: raramente sabemos quem está do outro lado. Dizemos frases como quem atira pequenas pedras para um lago, sem nunca assistir aos círculos que continuam a formar-se muito depois de nos termos ido embora. A frase não termina quando acaba. Abandona-nos e continua. Entra no corpo de outra pessoa, muda de temperatura, ganha outra biografia. É possível que reapareça anos depois, já irreconhecível, mas ainda capaz de salvar qualquer coisa.
Vivemos convencidos de que mudamos a vida das pessoas através dos grandes gestos, dos discursos memoráveis, das decisões monumentais, das cenas em plano aberto com música ao fundo e luz suficientemente boa para justificar uma vida inteira de melodrama. Mas a maioria das mudanças acontece por acidente. Uma frase. Uma pausa.
Houve também uma outra frase, dita noutro tempo, que na altura me custou ouvir. Tinha a ver com promessas. Não era uma frase cruel, era uma frase honesta, e é possível que a honestidade, quando chega sem abrigo, nos pareça sempre uma forma menor de violência. Ainda assim, ficou. Ficou porque há frases que não nos ferem pelo que dizem, mas pelo lugar onde nos deixam. Não poder prometer algo não é apenas recusar uma garantia. É suspender uma morada. É alguém dizer-nos, com maior ou menor delicadeza, que aquele futuro onde talvez já tivéssemos colocado uma cadeira, uma janela, um copo sobre a mesa, afinal não tinha licença de construção.
Uma promessa é, talvez, a palavra ou frase mais habitável e mais perigosa de todas. Habitável porque nos oferece uma espécie de arquitectura provisória contra a desordem do mundo. Perigosa porque, no instante em que acreditamos nela, começamos a viver dentro daquilo que ainda não existe. Há uma certa perturbação com as promessas, porque uma promessa nunca é apenas uma frase projectada para a frente. Não é uma garantia sobre o futuro, porque ninguém possui o futuro. É uma tentativa humana, precária, quase absurda, de dar alguma forma ao tempo. Prometer é dizer ao futuro, espera aí, não te mexas tanto, há aqui qualquer coisa que eu gostaria de preservar.
Quando uma promessa não se cumpre, não é só uma pessoa que “falha”. É a casa que cai. É a frase onde tínhamos começado a morar que desaba sem aviso, deixando-nos no meio dos escombros a perguntar se fomos ingénuos por termos confundido palavras com chão. Claro que ninguém pode prometer o sentimento como se promete comparecer a uma reunião às nove da manhã, e mesmo isso, convenhamos, falha demasiadas vezes. O sentimento muda, o corpo muda, a linguagem muda, aquilo que uma palavra carregava ontem pode já não caber nela amanhã. Um amigo disse-me há uns meses, durante uma viagem, qualquer coisa como: “Diana, o sentimento pode mudar, as palavras também deixam de carregar esse sentimento.” E eu percebo. Percebo mesmo. Há palavras que um dia disseram amor e, passado algum tempo, dizem apenas arqueologia, mas talvez uma promessa não seja a arrogância de garantir que nada mudará. Talvez seja antes a coragem, ou a teimosia, de dizer: mesmo sabendo que tudo muda, tentarei não transformar a mudança em traição. Não prometo sentir sempre da mesma maneira, mas prometo, talvez, não usar a fragilidade do sentimento como desculpa para a irresponsabilidade dos gestos. Prometo tentar ser digna da frase que disse enquanto ela ainda era verdadeira.
É por isso que me custa esta facilidade contemporânea com que se desvaloriza uma palavra que soa a promessa em nome da fluidez, da liberdade, da autenticidade, essas palavras tão limpas e luminosas que tantas vezes servem para deixar alguém às escuras. Não vejo uma promessa como prisão, nem como contrato assinado contra a vida - não sei como vou estar amanhã, muito menos daqui a 20 anos, se ainda cá estiver. Mas também não consigo aceitar que a única forma adulta de existir seja entrar nas coisas já com a saída de emergência decorada. Há qualquer coisa de profundamente humano, e talvez profundamente romântico e inocente, no sentido mais nobre e menos adolescente da palavra, em querer que certas frases resistam um pouco ao desgaste geral do mundo.
É provável que isso faça de mim uma romântica incurável, mas não me parece uma falha de inteligência e, talvez seja, pelo contrário, uma forma de resistência. Num mundo onde tudo parece reversível, provisório, substituível, descartável, acreditar que a palavra ainda deve pesar é quase um acto político. A ingenuidade não está em querer que as promessas signifiquem alguma coisa. A ingenuidade talvez esteja em acreditar que se pode viver sem prometer nada a ninguém e, ainda assim, não deixar ruínas.
Há pouco tempo, um amigo do Brasil escreveu-me apenas: “Te aguardo no teu tempo.” Não tentou resolver nada. Não perguntou quando. Não exigiu explicações. Não transformou a espera numa dívida emocional. Limitou-se a construir uma frase onde a minha lentidão, a minha indisponibilidade para responder a mensagens como gosto, o meu cansaço e a minha forma muitas vezes defeituosa de permanecer junto dos outros deixavam de ser imediatamente uma culpa. A frase não me desculpou, fez coisa mais rara: não me acusou.
Dias depois, noutro contexto, disse a outro amigo que determinada situação seria longa, um processo que demoraria o seu tempo. Respondeu-me imediatamente: “Não mereces que seja.” Passei dias a pensar naquela resposta. À primeira vista, as duas frases parecem caminhar em direcções opostas. Uma abraça a paciência. A outra recusa a demora. Uma ensina a esperar. A outra lembra que nem toda a espera é digna do nosso tempo. Não vejo contradição. Há pessoas que nos oferecem tempo. Outras devolvem-nos dignidade. Ambas nos orientam. E fazem-no quase sempre sem saber. É isto que me interessa nas frases: a sua capacidade de fundar lugar.
Uma frase pode ser uma cela, uma sentença, uma infância inteira. Há pessoas que passam a vida a tentar sair de uma frase que lhes disseram aos sete anos. Outras sobrevivem porque alguém, num momento qualquer, lhes ofereceu meia dúzia de palavras suficientemente largas para continuarem. Somos feitos destas pequenas heranças invisíveis. Não apenas da educação que recebemos, dos livros que lemos, das cidades onde crescemos, mas das frases que alguém deixou cair no caminho e que decidiram permanecer connosco.
Uma professora que disse “tu consegues”. Um amigo que escreveu “te aguardo no teu tempo”. Um professor de quem nem gostávamos. Uma cantora que repetiu uma frase que nem sequer era sua. Um desconhecido no supermercado que nos ofereceu, sem saber, uma chave. Nunca sabemos. As palavras continuam a viver dentro de outras pessoas, transformadas, reinterpretadas, amadurecidas pelo tempo. Às vezes regressam vinte anos depois, quando quem as pronunciou já nem se lembra de o ter feito.
E dentro das palavras, há também aquelas que se transformam em abrigo. Um amigo que diz, depois de um momento complicado, sem aparato nem heroísmo: “Estou a caminho de tua casa.” Cinco palavras apenas. Cinco palavras capazes de fazer aquilo que nenhuma teoria sobre a dor consegue: entrar pelos escombros emocionais adentro e começar, pedra a pedra, o trabalho silencioso do resgate. Há acidentes de viação e há acidentes da alma. Para estes últimos, por vezes, basta saber que alguém já está a caminho.
É o inexplicável milagre da amizade. Estamos partidos, convencidos de que uma parte de nós ficou soterrada debaixo do peso dos últimos dias, e, sem percebermos bem como, damos por nós a falar de remodelações de interiores e sanitas japonesas. Rimo-nos. Respiramos. O peito, que há minutos parecia uma casa sem janelas, deixa entrar uma nesga de ar. Um fôlego. Uma brisa. É extraordinário como as pessoas que nos amam conseguem devolver-nos à vida sem sequer falarem da morte que carregávamos. Talvez seja isso a amizade: a arte de interromper funerais interiores sem anunciar que o está a fazer.
Diz-se muitas vezes que os amigos são a família que escolhemos. Nunca gostei muito da frase, mas há dias em que ela recupera todo o seu peso. Nunca fui pessoa de grandes multidões. Sempre preferi uma mão cheia de pessoas às dezenas de presenças ocasionais. E tenho essa sorte rara: poucos amigos, mas daqueles que aparecem antes mesmo de lhes pedirmos. Daqueles que, quando dizem “estou a caminho”, já começaram, sem o saber, a reconstruir a casa inteira.
Foi então que voltei a Heidegger com uma frase que sempre achei bonita “A linguagem é a casa do Ser.” Acho que é mais do que bonita, é quase literal. Não habitamos apenas casas, ruas ou cidades. Habitamos linguagem. E não apenas a linguagem enquanto idioma, um sistema comum que nos permite pedir café, discutir política, declarar amor ou insultar alguém no trânsito. Habitamos palavras concretas, frases concretas e modos de nomear o mundo que nos foram dados por pessoas concretas. Há quem nos tenha construído uma casa inteira com meia dúzia de palavras, e há quem nos tenha deixado a viver em ruínas com elas.
A primeira forma de hospitalidade não creio que seja abrir a porta de casa, mas sim escolher as palavras com que recebemos alguém. Palavras que acolhem, palavras que expulsam, palavras que estreitam o mundo até quase não conseguirmos respirar, e há outras que abrem janelas. Quando alguém nos diz “confio em ti”, oferece-nos um lugar onde a coragem consegue existir. Quando alguém diz “te aguardo no teu tempo”, constrói uma divisão onde a pressa deixa de mandar. Quando alguém nos diz “não mereces que seja”, devolve-nos a possibilidade de recusar a demora que se disfarça de destino. É possível que amar seja isto, não prometer eternidades, nem fazer declarações cinematográficas, mas escolher cuidadosamente as palavras onde o outro irá morar depois de nós.
Não me parece que a pertença mais profunda nasça da origem, mas do reconhecimento. Não pertencemos ao lugar onde nascemos, começámos, pertencemos aos lugares, às pessoas, e às palavras, onde deixamos de ser estrangeiros de nós próprios. A geografia diz-nos onde começámos, a linguagem diz-nos onde permanecemos. O meu lugar nunca foi um pedaço de terra, foi uma conversa. Um conjunto de pessoas que, sem saberem, me foram oferecendo frases suficientemente amplas para que eu pudesse continuar a viver dentro delas.
Hoje continuo sem saber exactamente qual é o caminho. E, pela primeira vez em muito tempo, isso talvez não me pareça um fracasso, porque alguém, um dia, decidiu dizer que “o não saber” também podia ser um caminho. A frase caiu sobre mim e não mudou o mundo mas alterou o lugar a partir do qual eu o observava. As pertenças mais profundas não são necessariamente fundadas por fronteiras, são nas palavras que nos dão um lugar onde continuar.
A geografia coube-me por acaso, a linguagem fui escolhendo-a. E, se ainda tenho uma pátria, não a procuro num mapa. Procuro-a nas frases onde consigo respirar.
Obrigada por lerem, por estarem aí, e um até logo.
D.
Notas e coisas para uma ausência prolongada:
Um vinho: Fleuve Tranquille, de Yvan Bernard e Audrey Baldassin, produtores de Les Chemins de l’Arkose. Desde o primeiro gole, sabe literalmente a tranquilidade. É, muito provavelmente, o meu vinho preferido desta primeira metade do ano e foi também o vinho que acompanhou a escrita deste texto. Normalmente, compro os vinhos nos Goliardos ou na Uma Mosca na Sopa. Não ganho absolutamente nada com esta recomendação, partilho apenas por amor a projectos bonitos, que merecem continuar a existir.
Um livro: ¿Por qué son tan lindos los caballos?, de Julieta Correa, publicado pelas Ediciones Comisura. É o livro de uma filha, Julieta, que tenta acompanhar a demência da mãe, Sari, compreendê-la e resgatá-la enquanto ainda é possível fazê-lo através das palavras. Um livro sobre memória, ternura e cuidado, sobre aquilo que permanece quando quase tudo começa a desaparecer. Uma espécie de diário, desabafo sobre a linguagem, sobre as palavras como lugares habitáveis, e um dos livros que mais me emocionou nos últimos tempos.
Um artigo: Há artigos muito melhores, mas deixo o meu, por ter sido uma coisa bonita que aconteceu nesta primeira metade do ano: Portugal não existe, acontece
Uma música: This Must Be the Place (Naive Melody), Talking Heads.
Outras moradas: Inventário / Das vidas que se perdem no ímpeto de existir




"Te aguardo no teu tempo." Quando copiei esta frase para a bloco de notas ainda não sabia que me iria apetecer copiar quase todo o teu texto, que acabei por guardar. Encontrei aqui, em mais uma insónia às 4h da madrugada, muitas "frases onde vou morar". E eu que só ia pegar no 'just kids' para ocupar este vazio, salvo-o com esta lucidez que me é entregue de forma tão generosa. Obrigada. Porquê hoje? Porquê agora? "Não saber também é um caminho".
Que belo texto. "O peito, que há minutos parecia uma casa sem janelas, deixa entrar uma nesga de ar." Gostei desta imagem. Não sei se é exatamente o que estou a pensar. Penso naquela dor física angustiante que tenho quando estou muito ansioso e normalmente tenho alguma dificuldade em descrevê-la com o rigor necessário. Mas aqui talvez esteja a falar de um estado de sobressalto, algo torrencial.