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Já toda a gente escreveu tudo. No dia seguinte às eleições, o país transformou-se num coro afinado de análises certeiras, indignações rápidas e diagnósticos prontos a servir. É sempre assim: sabemos tudo no minuto a seguir. Tornámo-nos especialistas na digestão instantânea dos desastres.
Pessoalmente, gosto de assentar ideias. Há qualquer coisa de pedante, talvez até presunçoso, nessa urgência de opinião. Como se pausar fosse um luxo reservado aos fracos. Como se respirar antes de falar fosse um acto de hesitação e não de lucidez. No pós-eleições, não escrevi. Passei o dia numa espécie de luto profundo. Não tanto por mim - sou privilegiada, tenho chão - mas pelo país que nunca chegámos a construir, por um país de silêncios acumulados e promessas adiadas e que agora se fragmenta com um sorriso de censura subtil e um voto de castigo.
A extrema-direita não ascendeu - foi erguida. Erguida a custo de silêncios, omissões, desesperos e ressentimentos. Não caiu do céu como castigo bíblico, foi cultivada por décadas de promessas podres e palavras que nunca chegaram a tornar-se políticas. A liberdade, esse conceito que usamos como broche de lapela para eventos comemorativos, ficou pelo caminho.
E o povo, cansado de esperar por um milagre que nunca chegou, virou-se para quem promete castigar alguém. Mesmo que esse alguém não tenha culpa de nada.
Portugal, terra de cravos, tem agora espinhos bem afiados. O Chega não foi um desvio. Foi uma consequência. Foi a versão empacotada da raiva que o Estado fingiu que não existia.
A democracia portuguesa, nascida em abril, envelheceu mal. Habituou-se a ver a liberdade como um dado adquirido, como um sistema operativo que se actualiza sozinho enquanto dormimos. Mas a liberdade é um músculo, e se não a exercitamos, atrofia. Tornou-se espetáculo, slogan, retórica institucional - deixou de ser vivida. E no lugar da liberdade veio o medo, disfarçado de opinião. A raiva, disfarçada de discurso. A ignorância, disfarçada de alternativa.
E não é só ignorância. É abandono. É a sensação de que se está sozinho.
De que o Estado é um holograma que só aparece de quatro em quatro anos com promessas de emprego, habitação e “proximidade” - palavras que, como sabemos, valem tanto como as etiquetas de “orgânico” nos supermercados.
A extrema-direita cresce onde a dignidade escasseia, no húmus da miséria. Onde o salário não chega, onde o hospital está longe, onde o desespero é mais rápido que o correio. E quando tudo falha, aparece alguém a apontar o dedo, e isso basta. Discursos simples para vidas partidas. Solucões instantâneas com sabor a castigo. Porque castigar dá mais votos do que cuidar. Com culpados claros - os imigrantes, os ciganos, as feministas, os professores, os jornalistas, a esquerda toda.
E confesso: há uma irritação que me custa engolir. Irrita-me profundamente a crença de que este é o partido que vai resolver os problemas. Como se um incendiário viesse apagar fogos. Como se alguém que só aprendeu a gritar fosse agora capaz de ouvir e construir. Mas estamos num ciclo - e os ciclos, por mais modernos que pareçam, repetem-se com as mesmas coreografias trágicas. Também Hitler foi eleito. Também o povo alemão acreditou que ele era a solução num tempo de miséria, inflação, desordem. O autoritarismo não se impõe, é desejado. Chega, pun intended, sempre com o disfarce da ordem, com a máscara da justiça, com o verniz da legitimidade e quando finalmente se percebe o custo, já não se pode pagar com votos, só com história.
E, olhando para apenas uma parte da demografia do voto, há uma pergunta que raramente se faz: como se explica a liberdade a alguém que nunca se apercebeu que não a tinha?
No mundo rural, no interior profundo de Portugal, o 25 de Abril chegou atrasado. Ou nem chegou. As rádios anunciavam a revolução, mas em muitas aldeias, a ditadura era só a vida - um patrão, uma missa, uma terra difícil, um silêncio imposto que se confundia com respeito. Havia obediência, mas não se lhe chamava opressão. Havia censura, mas quem lia? Havia medo, mas tinha outro nome.
A liberdade, quando apareceu, parecia abstrata. E os filhos dessa liberdade cresceram com promessas que nunca se concretizaram - as escolas fecharam, os postos médicos também. A juventude saiu, e o país deixou ficar os velhos com as vacas, os votos e as televisões.
E é por essas televisões, muitas vezes o único ecrã aceso no interior, que o Chega entrou, com o seu discurso simplificado, monocórdico, repetido até à exaustão como se fosse verdade só por insistência. Enquanto outros partidos falavam às elites digitais, o Chega ocupou o horário nobre, porque onde não chega o debate plural, chega o Ventura em direto. A política tornou-se um espetáculo de gritos e indignações agendadas, e onde há palco, quem grita mais leva aplauso.
O mediatismo substituiu o pensamento; a presença mediática tornou-se sinónimo de verdade. E numa sociedade cansada de ser ignorada, não importa quem fala, importa quem aparece.
Como é que se convence alguém das maravilhas da democracia, se a democracia nunca lhes trouxe um médico de família? Como se fala de progresso, quando a terra continua sem transportes e o futuro sai sempre pela estação mais próxima?
E não, não é só contra a extrema-direita que a irritação se acende. Há uma frustração crónica com uma certa esquerda que se esqueceu de falar para o povo porque está demasiado ocupada a falar sobre o povo. Uma esquerda que se sente moralmente confortável, mas politicamente irrelevante. Que vive de causas justas mas de comunicação ineficaz, como quem recita poesia num comício de gente esfomeada. Que muitas vezes confunde convicção com vaidade e acaba por criar distância onde devia haver empatia. Que trata a ignorância não com paciência pedagógica, mas com escárnio académico. Uma esquerda que desaprendeu a escutar, e quando tenta escutar, fá-lo com o tom de quem já sabe todas as respostas. Quando, na pressa de corrigir o mundo, perdemos a paciência para escutá-lo primeiro. A esquerda tem a responsabilidade imensa de imaginar o futuro, mas essa imaginação precisa de chão, de corpo, de presença. Não basta estar certo, é preciso estar perto.
E a questão não é só “como chegámos aqui”, mas: o que fizemos enquanto eles chegavam? O que fizemos com os ideais de abril? Transformámo-los em efemérides, em discursos decorados nas escolas, em feriados com pouca memória. A democracia institucionalizou-se tanto que se esqueceu de respirar. Ficou à espera que o fascismo voltasse com botas, e não com likes.
Cravos e cicatrizes. Ficámos com as flores, esquecemos o sangue. Homenageámos a liberdade, mas não a defendemos. Deixámo-la desnutrida, à mercê de quem fala mais alto. E agora o futuro não é apenas incerto, é inquietante.
Mas ainda há tempo. Para sujar as mãos, regar os cravos e ver neles uma urgência. Para lembrar que liberdade não é um estado, é uma prática. Que se perde quando se deixa à porta. E que só vive se a soubermos sujar com perguntas difíceis, com acção colectiva, com contradição, com coragem.
A cicatriz avisa: fomos feridos. Mas não estamos mortos. Ainda não.
D.




Belíssimo texto e análise a um país que custa em fazer cumprir Abril. Também falei do mesmo tema, ainda que não com a mesma eloquência, no meu projeto "Palácio das Ideias", fica a partilha:
https://palaciodasideias.substack.com/p/encontrei-o-antidoto-para-os-tempos?utm_source=share&utm_medium=android&r=21c2kb
Magnífica análise a este país, repleta de substância, de sintomas, sinais e uma pequena esperança no final. Foi a melhor leitura deste dia. Obrigado