“O retorno do filho pródigo” de Rembrandt
Começa com o artigo do The Economist, que chegou às TV’s nacionais com a autoridade tranquila porque sabe que será ouvido, a anunciar que Portugal é agora a “economia do ano”, crescemos no PIB, crescemos na bolsa, crescemos na atracção do capital, crescemos porque, algures lá fora, alguém voltou a olhar para nós com desejo, e quando um país volta a sentir-se desejado endireita imediatamente as costas, limpa a montra, ajeita a retórica, e diz, com uma modéstia cuidadosamente ensaiada, afinal sempre esteve pronto para este momento.
Pouco depois, quase como nota de rodapé perfeita deste enamoramento colectivo, o presidente da AEP afirma que “o PIB per capita é um indicador importante para medir a qualidade de vida”, e é aqui que o desconforto em mim deixa de ser subtil e passa a ser técnico, a frase é, no sentido rigoroso do termo, falsa. O PIB per capita é um agregado estatístico que ignora distribuição, ignora acesso, ignora precariedade, ignora mobilidade social, ignora habitação, ignora segurança material, ignora tudo aquilo que constitui a textura real de uma vida, como Amartya Sen demonstrou há décadas ao distinguir crescimento de desenvolvimento, como Stiglitz repetiu até à exaustão ao desmontar a confusão entre produção de riqueza e bem-estar, como até o paradoxo de Easterlin tornou evidente ao mostrar que mais rendimento não implica mais felicidade. Tratar o PIB per capita como indicador de qualidade de vida não é apenas um erro conceptual, é uma forma elegante de substituir pessoas por médias.
E o próprio artigo do The Economist lá o diz, quase como quem aponta a causa de um encantamento sem querer ferir susceptibilidades: uma parte decisiva deste crescimento vem do turismo e da entrada contínua de investidores estrangeiros, como se o país tivesse finalmente encontrado a sua vocação natural - ser desejável, ser cenário, ser activo apetecível, ser destino. Nada contra o turismo sustentável, ele paga contas, cria trabalho e acende luzes, mas há qualquer coisa de cruelmente assimétrica na forma como celebramos esta dinâmica enquanto ignoramos com notável disciplina as micro, pequenas e médias empresas que sobreviveram à troika, à pandemia, à inflação, às rendas impossíveis e à burocracia kafkiana, e que são, silenciosamente, responsáveis por inovações reais, por trabalho qualificado, por território vivo, por futuro. A essas, o aplauso é curto, o apoio é magro, o discurso é lento. Ao capital que vem de fora, pelo contrário, abrimos alas, limpamos impostos, perdoamos dívidas, simplificamos processos, sorrimos com todos os dentes. Não porque sejamos estrategicamente lúcidos, mas porque somos, no fundo, afectivamente vaidosos. Gostamos de palmadinhas nas costas vindas de fora. Confirmam-nos a existência.
Este padrão não é novo; apenas se reapresenta com novos adereços. Herdámos do sebastianismo a arte da espera - essa convicção subterrânea de que alguém há-de vir, há-de reconhecer-nos, há-de salvar-nos sem exigência de transformação profunda. Trocámos o rei perdido pelo investidor, a neblina pelo relatório, o mito pelos rankings, mas a coreografia permanece: primeiro o olhar do outro, depois, se houver tempo, a reorganização interna. País periférico, tardio, com memória de império e corpo de pequeno, habituámo-nos a existir sobretudo quando somos vistos. O amor dos outros tornou-se, entre nós, uma forma discreta de governo. E é um tipo de amor que é profundamente narcísico, mas socialmente legitimado, o amor que não se dirige propriamente ao outro, mas ao reflexo que o outro nos devolve, ao entusiasmo que projecta sobre nós, à imagem melhorada que nos oferece.
Portugal vive hoje, e desde sempre, este romance consigo próprio, apaixonado pelo amor que os estrangeiros dizem sentir por nós, pelo capital que entra, pelas casas que compram, pelos pastéis de nata, pelas ruas que ocupam, pelas cidades que reconfiguram, pelos relatórios que nos colocam no pódio, como se o desejo externo fosse, por si só, prova suficiente de solidez interna.
Crescemos, é certo, cresce o PIB, crescem os índices bolsistas, cresce a confiança dos investidores, e nada faz crescer mais rapidamente uma nação do que a sensação súbita de ser escolhida. Robert Solow lembrava que crescimento é, em grande parte, um efeito de acumulação e recomposição técnica, não um juízo moral sobre a qualidade da vida, mas insistimos em lê-lo como se fosse uma certificação existencial. Crescemos também porque ainda éramos pequenos, porque a base era baixa, porque quando se parte de baixo qualquer subida parece prodígio, e quando se esteve demasiado tempo dobrado qualquer passo em frente parece uma corrida.
O norte da Europa cresce menos, dizem os relatórios, talvez porque já cresceu antes, talvez porque vive agora no trabalho lento de gerir riqueza em vez de na excitação de fingir que a cria. Hayek diria que mercados maduros tendem à estabilidade, Friedman lembraria que crescimento não é um direito natural mas uma contingência histórica, mas a narrativa instala-se como moralidade simplista, o sul cresce porque “se esforça”, o norte abranda porque “adormeceu”, como se décadas de acumulação, estruturas produtivas, cadeias de valor e divisão internacional do trabalho não existissem.
E assim aprendemos a amar o amor que os outros têm por nós, a viver da validação externa como se fosse virtude intrínseca, como quem diz “a qualidade de vida está a subir”, enquanto a classe média se contrai, enquanto a habitação se torna um exercício de ficção científica, enquanto os salários permanecem estruturalmente pequenos num país que se acredita agora grande, enquanto a juventude continua a fazer da emigração uma pedagogia silenciosa do futuro. Como Stiglitz dizia, os mercados são excelentes a produzir riqueza e estruturalmente incompetentes a distribuí-la, mas continuamos a fingir surpresa quando o crescimento não pinga para baixo.
Há algo de profundamente irónico neste romance económico, porque o crescimento é real, mas a sua apropriação é assimétrica, e o desejo que nos eleva não é pelo que somos enquanto comunidade política, mas pelo que representamos enquanto activo no mercado europeu do exotismo funcional, sol barato, trabalho barato, vida relativamente barata, cenário bonito para investimento rápido e fotografias com boa luz para o Instagram. Piketty mostrou com dados o que já era estruturalmente evidente, sem correcções profundas, o capital concentra-se, autonomiza-se e afasta-se da vida comum, mas ainda assim celebramos como se o palco fosse de todos.
Talvez seja este o verdadeiro retrato do sucesso contemporâneo dos países do sul, não tanto uma nova solidez estrutural, mas uma nova forma de dependência mais refinada, mais elegante, mais instagramável, mais contabilizável em PIB per capita, mas ainda assim, dependência. Keynes escreveu que, a longo prazo, estaremos todos mortos - talvez seja esta tranquilidade do longo prazo que nos permita continuar a confundir desejo com virtude, investimento com pertença, crescimento com vida.
E assim seguimos, amando sobretudo o amor que os outros têm por nós, enquanto os gráficos sobem, enquanto as médias se compõem, enquanto a vida concreta continua, teimosamente, fora das estatísticas.
D.




Como é que nenhum jornal ainda te descobriu?!
Está crónica merecia ser lida por todos!