Egon Schiele (1890–1918) — Self-Portrait with Physalis (1912)
Se algum dia tivesse de escolher um tema para um doutoramento, seria o Ego. Não por acaso, mas por insistência: o Ego volta sempre, mesmo quando fingimos que o superámos, mesmo quando as filosofias contemporâneas o dissolvem em redes, fluxos e máscaras. O Ego é um tema obsessivo porque é também a nossa prisão mais íntima: não há pensamento que não passe por ele, não há gesto que não se enrede na sua sombra. Porquê o Ego? Porque nele convergem duas tensões que atravessam a minha própria forma de pensar: a do determinismo, que me relembra que não há livre-arbítrio, que somos efeito antes de sermos causa, e a do epicurismo, que me sussurra que, apesar de tudo, é possível cultivar um jardim de prazer, de amizade e de paz. Determinismo e epicurismo parecem opostos: um reduz o Ego a engrenagem, o outro devolve-lhe o sabor do instante. Mas é justamente nesse conflito que encontro a beleza deste tema: desconstruir o Ego é desconstruir a promessa da soberania absoluta, sem ceder ao niilismo paralisante, é olhar para esta ficção útil, esta máscara insistente, e perguntar - como a usamos, como nos usa, e se podemos viver com ela sem sermos devorados pela sua fome. Gosto particularmente de desconstruir temas, e nenhum tema me parece mais urgente de desconstruir do que aquele que nos habita por inteiro.
O Ego cartesiano nasce como fortaleza, uma ilha de certeza no meio do oceano da dúvida, e foi talvez o mais sofisticado acto de soberania jamais proferido por uma mente humana, um gesto de isolamento que pretendia ser fundação, como quem ergue muros de mármore à volta da consciência para a salvar da dissolução, mas nesse mesmo gesto instaurou-se também a clausura, a solidão de um Eu que se reconhece apenas porque se separa de tudo o que não é ele. Albrecht Dürer, no seu célebre Autorretrato (1500), pintou-se como Cristo, erguendo o artista como sujeito soberano, criador quase divino - talvez a imagem mais pura dessa fortaleza cartesiana. Mas basta avançar até Van Gogh, com o seu olhar estilhaçado, ou Egon Schiele, com o corpo em convulsão, para ver a ruína dessa certeza: o Eu já não como templo, mas como fissura, fragmento, carne inquieta.
No entanto, se a filosofia transcendental acreditou que esse Ego podia ser o centro puro da experiência, a modernidade tardia ensinou-nos que esse centro não é senão uma miragem, um ponto de fuga que só se sustenta porque existem os outros, porque há linguagem que nos antecede, rostos que nos devolvem a nossa própria imagem, redes de dependência invisíveis que nos fazem existir. O Ego nunca foi ilha, sempre foi arquipélago. Assim, pensar o Ego hoje exige deslocá-lo: não como substância indivisível, mas como nó numa rede de relações, como um eco em permanente reverberação no espaço da alteridade.
Edmund Husserl ainda quis salvaguardar uma esfera do Eu transcendental, mas Emmanuel Levinas mostrou que o rosto do Outro precede o meu, que o chamado ético rasga qualquer pretensão de autossuficiência. E em Jacques Derrida, o Eu dissolve-se na différance, nunca dono de si, sempre já habitado por ausências. O Ego, pensado filosoficamente, não é então o guardião da certeza, mas o campo de batalha onde se inscrevem vozes, memórias, espectros. Literariamente, é máscara e palco: encenamo-lo para acreditar na unidade de um Eu que é, na verdade, fragmento, fenda, relação. O Ego isolado é uma ficção útil, talvez necessária para sobreviver, mas é na tensão com a alteridade - seja o Outro humano, seja a matéria, seja o cosmos - que ele se revela em toda a sua precariedade e, paradoxalmente, em toda a sua potência. O que nos resta, pois, é uma ontologia relacional, em que o Ego já não se afirma como fundamento, mas como dobra, como intersecção de forças, como superfície de inscrição onde o mundo e os outros deixam marcas. E é nesse abandono da fortaleza cartesiana que o Ego pode finalmente respirar, não como senhor absoluto, mas como criatura exposta, atravessada, vulnerável, capaz de ser mais do que si mesma.
Se mudamos de sala e entramos no teatro social, Erving Goffman espera-nos entre bastidores, espelhando-nos que o Eu é encenação, não no sentido frívolo da mentira, mas como coreografia de papéis, expectativas, front-stages e back-stages, e que a sinceridade é também uma máscara, a mais difícil delas, porque é preciso ensaiá-la todos os dias. Cindy Sherman, ao multiplicar-se em dezenas de personas fotográficas, mostra que o Eu como palco encenado, um corpo que se traveste de papéis até que a própria ideia de essência se desfaça em repetição. Judith Butler empurra a ideia mais longe quando diz que o género, esse eixo central de tantas biografias, não é essência, mas repetição performativa, citação de normas que o corpo aprende a dizer até parecer natural. Freud, antes, e Lacan, depois, lembram-nos que o Ego é mediador, que nasce ferido, dividido entre pulsões e lei, entre o desejo e a linguagem, e que o espelho onde o Eu se reconhece é também o lugar onde se estranha. A literatura, cúmplice antiga destas ciências da suspeita, trata o Eu como personagem narrável, máscara que não esconde, antes revela por excesso, mostrando que a unidade que o Ego nos promete é, muitas vezes, apenas a boa montagem de fragmentos em tensão, e o romance moderno, da autoficção ao diário encenado, é o laboratório desta identidade sem garantia.
Mas a verdadeira inflexão vem de mais longe, quando a antropologia nos obriga a suspender o que tomávamos por universal, e Marcel Mauss, no seu pequeno e decisivo ensaio sobre a pessoa, recorda que a categoria de “pessoa” é invenção histórica, que a máscara teatral romana, a persona, é caminho para o indivíduo ocidental, e Louis Dumont mostra como a modernidade elevou o indivíduo como valor supremo, enquanto noutras cosmologias o vínculo precede o Eu. Marilyn Strathern, trabalhando com a Melanésia, propõe a figura do dividual, essa pessoa feita de partes relacionais, trocas, dádivas, um Eu que é a soma das suas circulações mais do que a propriedade dos seus limites. Onde o Ocidente vê fronteira, ali se vê fluxo; onde nós erguemos muralhas, eles praticam porosidade. O dividual é, por isso, uma pessoa tecida de outros, costurada por relações, atravessada pelo mundo. E, do lado de cá, Mead e Cooley, na sociologia, dão-nos o self como espelho social, o generalized other como condição de qualquer interioridade, e Pierre Bourdieu, menos complacente, lembra que o habitus grava no corpo as estruturas do mundo, que os nossos gostos, gestos, disposições, aquilo a que chamamos “eu”, são regularidades incorporadas, historial sedimentado a operar sob a forma de evidência. Foucault, paciente arqueólogo das formas de sujeição, mostra que o sujeito é efeito de práticas, que há uma política de si inscrita nos dispositivos, e que a nossa maneira de nos dizer “eu” é sempre uma vitória provisória numa economia de forças.
Espinosa, do seu século, nomeia conatus a persistência de cada coisa em existir, e talvez seja útil trazer este músculo ontológico para a conversa, porque o Ego, antes de ser narração, é insistência de vida, potência que busca expandir-se, ainda que mal o saiba. David Hume, desconfiado, reduz o Eu a feixe, um punhado de percepções em processo, sem núcleo duro. Nietzsche desfere o golpe, multiplicando o Eu em vontades de poder que se combatem por dentro. E o presente, afeito a diagramas, diz-nos que o cérebro é uma máquina de previsão, um dispositivo de hipóteses que fabrica um self-model para manter o corpo a salvo, um Eu como interface útil, ficção operativa e, no entanto, eficaz. Quando passamos do córtex ao código, percebemos que os algoritmos nos devolvem uma caricatura perversa do Ego, uma versão gamificada do conatus que quer persistir sob a forma de atenção, de envolvimento, de métricas que prometem existência quantificada. A ficção torna-se captura, porque a máscara deixa de ser nosso instrumento e converte-se em nosso senhor.
Chegados aqui, é preciso dar nome à complexidade do Ego, porque o egocentrismo não é apenas um defeito de carácter, é uma política íntima com consequências públicas, uma hibridação de psicologia e economia que o neoliberalismo aperfeiçoou ao vender-nos a fantasia do empreendedor de si, esse sujeito que deve optimizar-se, gerir-se, performar-se, transformar cada relação em oportunidade e cada fracasso em culpa. E então as amizades tornam-se redes, o amor vira investimento de alto risco, a conversa converte-se em pitch, e o cuidado, que deveria ser o coração silencioso da vida partilhada, transforma-se em serviço. Os outros, que eram condição do nosso aparecer, ficam reduzidos a espelhos que confirmam a nossa imagem, likes que alimentam a fome do dia. A cidade, que poderia ser um pacto de hospitalidade, torna-se mercado de visibilidade, com os custos psíquicos que já conhecemos demasiado bem: ansiedade, comparação infinita, ressentimento curado a filtros. O Ego, em vez de nó numa rede viva, passa a nó de uma métrica, preso a uma gramática de escassez que não admite gratuidade. Yayoi Kusama, com as suas salas infinitas de espelhos, mostra o que isso significa: o Eu multiplicado até à exaustão, dissolvido em reflexos que parecem infinitos mas são apenas repetição. Ou presença nua diante do Outro, como a Marina Abramović, quando o artista se entrega ao olhar do outro até quase desaparecer. A arte, aqui, não representa o Ego: ela mostra o que acontece quando deixamos que ele seja atravessado, lembra-nos que no silêncio de um olhar partilhado, o Ego se cumpre não no espelho, mas no rosto do outro.
Se a ontologia é relacional, a ética também o deve ser, e tudo se joga na arte de deslocar o centro, não para o apagar - porque o Eu é necessário, é ferramenta, é casa - mas para o aprender a porosificar, a abrir janelas onde só havia espelhos. E então o amor deixa de ser propriedade e volta a ser cuidado, a amizade abandona a contabilidade e regressa ao dom, o trabalho reaprende o comum e desaprende a idolatria do desempenho, e a política, lugar cansado de promessas, talvez reencontre alguma dignidade ao entender que a liberdade não é ausência de vínculos, mas qualidade deles. Um Eu fortalecido não é o que mais se isola, é o que melhor suporta ser atravessado, o que sabe agradecer a dependência sem a converter em submissão, o que reconhece no rosto do outro a sua própria possibilidade de não se bastar. É aí que a alteridade deixa de ser ameaça para se tornar condição de florescimento, e o egocentrismo, que é uma forma de medo, cede lugar a uma coragem discreta: a de não ser o centro, a de ser, finalmente, relação.
O que penso do Ego? Penso que ele é ao mesmo tempo prisão e ferramenta, máscara e janela, um erro necessário e uma ficção insubstituível. Não acredito num Eu soberano, fechado em si - nisso sigo os que vieram antes de mim - mas também não creio que possamos simplesmente dissolvê-lo em redes, fluxos, algoritmos. O Ego é um teatro precário, mas é o palco de onde podemos falar, amar, agir. Como determinista, sei que ele não é livre, que é antes um efeito - heranças, hábitos, estruturas, genes, contextos, tudo emaranhado na sua voz. Mas como epicurista, recuso a ideia de que, por ser efeito, é inútil: o Ego pode ser jardim, se aprendermos a cultivá-lo sem acreditar demasiado na sua soberania. O que me fascina é justamente esta contradição: o Ego engana-nos, promete centro, mas é quando aceitamos que ele é apenas dobra, costura, relação, que podemos habitar a sua ficção sem sermos devorados por ela. Não quero abolir o Ego: quero aprender a rir-me dele, desconstruí-lo até o tornar poroso, transformá-lo em instrumento de leveza. Talvez seja esse o ponto: o Ego não é para ser vencido, mas para ser domesticado, dessacralizado, usado e depois posto de lado, como quem larga uma máscara no fim da peça e vai beber vinho com os amigos.
E escrever sobre o Ego talvez peça esta humildade estrutural: a de saber que o texto não é o lugar onde me fecho, mas a casa onde convido os que me fizeram, filósofos e anónimos, mestres e contradições, e que cada frase é uma negociação entre a minha vontade de dizer e as vozes que me atravessam. E se o Substack tem servido de praça para esta conversa contínua, é porque ali, na proximidade de quem lê, o Eu escreve-se como correspondência de si, consigo e com os outros. O que se publica não é um monumento, é um gesto, e os gestos sabem que não foram feitos sozinhos. Daí que, se me pedem uma ética provisória para os dias, eu responda: fortaleça-se o Eu para se poder abrir, exercite-se o músculo do conatus para usá-lo a favor do comum, suspeite-se das máscaras que já não se tiram, desconfie-se da fortaleza que promete segurança à custa da vida. Porque o Ego que vale a pena não é o que vence, é o que vincula, não é o que possui, é o que hospeda, e, com isso, conhece uma estranha forma de soberania: a de não precisar de ser o centro para, afinal, poder existir inteiro.
D.




Fantástico. Sinto-me profundamente ignorante!