Natália Correia / © Todos os direitos reservados ao autor
Há uma nova sensibilidade a espalhar-se como bolor húmido nas paredes de uma escrita cansada: a ideia de que o humor é perigoso, que a sátira “ajuda a extrema-direita”, que rir de Moedas é promover Moedas, que ironizar é alienar o povo, e que o povo - coitadinho - não entende, não gosta, não perdoa. A tese é simples e paternalista: o público português é literalmente incapaz de perceber figuras de estilo e, por isso, a sátira é contraproducente. Não gozem, não façam troça, não escrevam com segunda intenção - porque se o eleitor não rir, o autarca ganha.
Há por aí um texto a circular (com boas intenções, convém dizê-lo) sobre o cronista que gozou com Moedas num vídeo, que parece querer advertir os jornalistas, cronistas e humoristas do país: cuidado, que rir do poder o torna mais poderoso. Uma tese que, de tão simplista, chega a ser cómica - e que, ironicamente, merecia um bom sketch. Porque a premissa de que a sátira legitima o fascismo é tão falaciosa como dizer que um espelho sujo torna o rosto mais feio. A sátira mostra, não provoca. Expõe. Distorce para revelar. E é precisamente isso que incomoda.
A culpa da ascensão da extrema-direita não está no cronista que goza com Moedas, está no país que deixou de investir em pensamento crítico, em escolas onde não se ensina a ler para além da superfície, onde ironia é um insulto e sarcasmo é sinónimo de má educação. Está nos algoritmos que premiam o grito e punem a nuance. Está nos directores de informação que confundem imparcialidade com covardia editorial. Está nos partidos da esquerda que se perderam na semântica inclusiva e esqueceram que há quem não coma se não houver pão. E está, acima de tudo, num eleitorado que foi abandonado à sua sorte, à sua literalidade, ao seu ressentimento com cheiro a missa e slogans de ginásio.
Mas culpar o humor? Isso é como proibir a buzina porque o carro bateu. É querer que o palhaço deixe de usar nariz vermelho para não distrair o déspota. É abdicar da única linguagem que o poder não consegue controlar - porque não a entende. A sátira não precisa que o oprimido a compreenda para surtir efeito, precisa que o opressor se sinta ridículo. E nisso, Moedas, Ventura e companhia estão cada vez mais nus. É vê-los reagir às piadas como quem se afoga numa piscina vazia - com indignação performativa e olhos de peixe fora de água.
O que a autora parece sugerir, com aquele tom de desencanto cívico que tão bem conhecemos, é que há uma falha de recepção, que o público “se sente gozado” porque não distingue comentário de escárnio. E talvez até tenha razão - mas a conclusão devia ser outra: não parar de gozar, mas ensinar a rir. Não calar o humorista, mas exigir mais literacia. Porque se deixamos de usar o sarcasmo com medo que ele seja mal interpretado, abrimos caminho à ditadura do literalismo, a prima incestuosa da ignorância institucionalizada.
Se há coisa que a história nos mostra - e o teatro romano, e o Commedia dell’arte, e Dario Fo, e Orwell, e o RAP com gás hélio - é que o riso é mais subversivo do que qualquer editorial sério. Porque quando o povo ri do rei, o rei treme. E quando o povo deixa de rir com medo de parecer elitista, o trono solidifica-se.
Itália, anos 60, Pier Paolo Pasolini escrevia que o poder moderno já não precisa de censura: basta-lhe a indiferença. Mas antes da indiferença, vinha o escárnio. Pasolini satirizava o fascismo não com slogans, mas com corpos, escândalo e poesia: ridicularizava o moralismo cristão mostrando-o em bacanais grotescos, caricaturava o poder burguês com travestis e profanações. E incomodava, precisamente porque usava ironia. Não era literal - era sagrado e pornográfico ao mesmo tempo.
Dario Fo, Nobel da Literatura, encenava palhaços que imitavam políticos. “Morte Acidental de um Anarquista”, uma sátira policial sobre brutalidade policial e manipulação mediática, foi proibida, insultada, atacada - e aclamada por quem ainda tinha o cérebro intacto. O humor, ali, era tudo menos inofensivo. Não fez o fascismo crescer - fez o público reconhecer que ele ainda estava lá, disfarçado de normalidade.
Charlie Chaplin ridicularizou Hitler antes que o mundo inteiro compreendesse o horror. O Grande Ditador foi considerado perigoso não por aquilo que dizia, mas por aquilo que sugeria: que o tirano, afinal, era só um actor de farda mal costurada e bigode idiota. O problema nunca foi a sátira - foi o mundo não a levar suficientemente a sério.
E em Portugal? Natália Correia, que escrevia poesia como quem atira garrafas incendiárias à pasmaceira nacional, que enfrentava deputados com sonetos, que dizia que o maior inimigo da liberdade era o tédio. Censurada pelo Estado Novo, vigiada, insultada, temida - não por dizer verdades, mas por dizê-las com beleza e veneno ao mesmo tempo. Chamava “carneiros bem-pensantes” aos que confundem moral com medo, e fazia do sarcasmo um acto político. A sua ironia não era ornamento, era resistência. Vamos continuar o seu legado - ou preferimos ser carneiros bem-pensantes com medo de uma gargalhada? Vamos fazer-lhe o funeral com flores de papel e moral de centro?
Basta ver como os próprios fascistas reagem à ironia: censuram-na, proíbem-na, queimam livros, cancelam peças, invadem exposições. Porque não sabem dançar com a dúvida. Precisam de frases curtas, ideias simples e um inimigo visível. A sátira desconcerta porque diz e não diz, aponta e foge, desmonta sem tocar.
Portugal é um país onde a ironia e a sátira morreram à nascença e foram enterradas com uma lágrima de Fátima. Quem escreve com metáforas é chamado de pretensioso, quem ri do poder é acusado de falta de respeito, e quem diz que o rei vai nu é censurado por obscenidade. Pior ainda: confundem crítica com escárnio pessoal, confundem sarcasmo com agressividade, confundem provocação com desrespeito.
É verdade que a maioria do eleitorado não percebe sátira? É. E então? Suspendemos a inteligência até que todos passem o teste de leitura inferencial? Abdicamos do riso porque o algoritmo favorece quem grita em vez de quem insinua?
Não. Continuamos a rir. Porque o fascismo resiste ao confronto, mas não sobrevive ao ridículo.
A sátira não é um privilégio urbano de quem conhece o nome dos ministros, é um acto de insurgência linguística. E se os que nos ouvem não percebem, não é motivo para baixar o volume - é razão para afinar o instrumento.
Culpar o cronista que desmontou Moedas, é como culpar o termómetro pela febre. Não é o humor que legitima o poder - é o poder que se revela, quando forçado a dançar ao som da paródia. Se as pessoas não percebem a crónica, o problema não é da crónica. É da educação que nunca aconteceu. Da leitura que nunca foi incentivada. Da televisão que trocou o “Zip Zip” ou o “Contra-informação”, este último que ensinou uma geração inteira a desconfiar do teleponto e das promessas com prazo de validade, pelos reality shows de grunhidos emocionais.
O jornalismo opinativo não é o problema - e neste caso até era uma crónica. O problema é a opinião sem risco, o comentário que lambe em vez de morder. Preferimos mil vezes um cronista a imitar Moedas com banda sonora da Buraca do que vinte paineleiros pagos para dizer que “é preciso ouvir os dois lados”. O jornalismo que incomoda, seja sério ou humorado, é o último resquício de sanidade num país onde o centro político é um pântano e a esquerda está demasiado ocupada a fazer conferências sobre empatia.
Portanto, sim, continuem a gozar com Moedas, com Ventura, com a extrema-direita e com todos os seus avatares domesticados - e com a esquerda também, a sátira é transversal a todo o espectro. Não porque isso os destrua - mas porque os expõe. E às vezes, mostrar o ridículo é mais eficaz do que mil argumentos sérios. Porque o fascismo pode resistir ao confronto, mas nunca resiste ao riso.
D.



