Impressão de selos postais palestinianos, 1920. Fonte: Palestine Photo Project
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Esta reflexão nasceu de uma conversa recente com alguém intelectualmente estimulante, dessas conversas em que o tema de Israel e Palestina surge quase inevitavelmente, não como disputa de café mas como troca de ideias séria, e em que percebi algo essencial: falta-nos muitas vezes pôr de lado o ego quando falamos de assuntos densos, porque não se trata de ganhar uma narrativa contra a outra, trata-se de compreender o que realmente aconteceu, e isso raramente cabe no espaço de um debate televisivo, onde tudo se resume a extremos, a lados, a gritos. É nessa pressa de simplificar que se instala a confusão, como a de reduzir o sionismo à caricatura da extrema-direita, quando a realidade é que o governo de extrema-direita liderado por Netanyahu, deve ser responsabilizado por crimes de guerra óbvios e evidentes, pelo dizimar de uma população civil, e é até injusto que essa violência seja confundida com o sionismo que nasceu como projeto de sobrevivência, e que em algumas das suas vertentes foi profundamente romântico, como o sionismo cultural de Ahad Ha’am, que sonhava com Jerusalém como centro espiritual e não apenas político, e como o sionismo trabalhista, utópico e socialista, ou até que Ben-Gurion encarnou nos kibbutzim e que, no início, ainda acreditava numa coexistência possível com os vizinhos árabes. Ao mesmo tempo, há a tendência ocidental de desumanizar as vidas palestinianas, relativizar ou mesmo descartar a dor palestiniana com chavões tão confortáveis quanto vazios, como quando se repete que “os palestinianos não respeitam as mulheres” ou que “não compreendem a democracia”, como se a legitimidade de uma luta dependesse de reproduzir os padrões de uma sociedade liberal europeia, como se o direito a não ser bombardeado tivesse de ser precedido por manifestações feministas na praça pública ou por eleições em tempos de cerco, como se a opressão de fora se tornasse aceitável porque há opressões internas - esquecendo que nenhuma sociedade está isenta de falhas, mas poucas são obrigadas a demonstrar civilidade enquanto sangram. Esta falta de clareza a que se assiste não é apenas erro intelectual: é combustível para movimentos antissemitas e islamofóbicos, que encontram no ruído e na ignorância o terreno fértil para transformar uma tragédia histórica numa arma contra povos inteiros. Foi a partir dessa conversa que comecei a escrever estas linhas.
Palestinianos a manifestarem-se contra o exército britânico de ocupação na Porta de Jafa, 1933. Fonte: Palestine Photo Project
Israel não nasceu do nada, nasceu do ventre escuro da Europa que primeiro alimentou e depois rejeitou os judeus, nasceu do silêncio cúmplice dos impérios e dos vizinhos que os toleravam apenas como intrusos toleráveis, nasceu do pogrom que incendiava aldeias russas, do caso Dreyfus que dividiu França, da sujidade moral que perseguia famílias inteiras como se fossem culpadas por existir, nasceu do Holocausto, essa indústria da morte onde seis milhões de vidas se apagaram em fumo e pó, e do desespero dos sobreviventes que descobriram não haver porto seguro no continente que os tinha perseguido até ao aniquilamento. O sionismo, na sua génese, não foi apenas um projeto de conquista, mas um grito de sobrevivência, a tentativa de um povo de encontrar um lugar onde pudesse viver sem se ver expulso de todos os lugares. Herzl, ao escrever Der Judenstaat, não ofereceu uma visão romântica, mas um plano político, quase burocrático, que podia ter assentado em qualquer território que as potências coloniais aceitassem ceder. Mas se Herzl tinha esse pragmatismo colonial, a base cultural e espiritual do sionismo empurrou sempre para a Palestina, porque era a única geografia com legitimidade narrativa, a única capaz de mobilizar um povo inteiro através da memória, do mito e da promessa. O romantismo no sionismo estava noutros ramos: no sionismo cultural de Ahad Ha’am, que via Jerusalém como centro espiritual mais do que político, e no sionismo trabalhista, utópico e socialista, que acreditava que o regresso à terra e o trabalho comunitário poderiam abrir espaço a uma coexistência possível.
Só que a Palestina não era uma terra vazia, não era uma página em branco à espera de ser escrita pelo sonho de outros, era uma casa habitada por árabes muçulmanos, cristãos e também judeus locais, uma terra que respirava comércio e agricultura, aldeias antigas e cidades vivas, um território onde as diferenças religiosas e culturais coexistiam entre tensões mas também entre rotinas de mercado e de vizinhança. Quando a Grã-Bretanha, no auge da sua arrogância colonial, prometeu em 1917 uma “casa nacional” aos judeus através da Declaração Balfour, já antes tinha assegurado aos árabes, na Correspondência Hussein–McMahon de 1915–16, a promessa de independência em vastas regiões do Médio Oriente como recompensa pelo apoio contra os otomanos, e foi nesse gesto de duplicidade que a ferida se abriu, porque não se pode prometer a dois povos o mesmo pedaço de terra, colonizado e repartido, sem condenar ambos à tragédia.
As ondas de imigração judaica intensificaram-se entre guerras, empurradas pelo antissemitismo europeu, e para os palestinianos cada chegada foi sentida como invasão, cada nova colónia como ameaça, e as revoltas de 1920, 1929 e 1936 foram esmagadas pelo punho britânico que defendia uma promessa contra a outra, alimentando a convicção de que a terra lhes estava a ser retirada. Depois veio o Holocausto, e a Europa que tinha alimentado o ódio recusou-se a acolher os sobreviventes, os Estados Unidos fecharam as portas, e a solução mais cómoda foi empurrar para o Médio Oriente a culpa acumulada, como quem varre a vergonha para debaixo do tapete, criando na Palestina um Estado que seria redenção para uns e exílio para outros.
Em 1947, a ONU decidiu partilhar o território, um pedaço para os judeus, outro para os árabes, Jerusalém internacionalizada, e se os primeiros aceitaram porque era a única oportunidade de existir, os segundos recusaram porque não concebiam entregar mais da metade da sua terra histórica a uma minoria que era ainda recém-chegada. Israel declarou a independência em 1948, os exércitos árabes invadiram, Israel sobreviveu, e setecentos mil palestinianos foram expulsos ou fugiram, a Nakba, a catástrofe que até hoje define a sua identidade coletiva, porque perderam não apenas casas e campos mas a ideia de pertença, e desde então cada geração palestiniana nasce sob o signo da perda.
Se 1948 inaugurou o Estado, 1967 consolidou a ocupação, Israel venceu a Guerra dos Seis Dias e conquistou a Cisjordânia, Gaza, Jerusalém Oriental e os Montes Golã, e desde então a geografia palestiniana foi sendo transformada num arquipélago de enclaves, colonatos a crescerem como erva daninha, checkpoints a fragmentarem a vida quotidiana, muros a desenharem fronteiras de humilhação. O processo de Oslo, nos anos noventa, prometeu paz e dois Estados, mas enquanto os discursos falavam de reconciliação, no terreno continuavam as expropriações e as expansões, até que a esperança morreu e no seu lugar nasceram extremismos, de um lado e do outro, porque quando o desespero se prolonga, a violência torna-se linguagem comum.
O Ocidente, esse, nunca quis resolver o conflito, quis apenas libertar-se da culpa, e os Estados Unidos transformaram Israel em pilar da sua política geoestratégica, bastião durante a Guerra Fria e aliado contra o mundo árabe-islâmico, enquanto a Europa fingia acreditar que bastava proclamar direitos humanos universais para se redimir, ao mesmo tempo que financiava políticas que perpetuavam a ocupação, sempre com a hipocrisia de quem defende a democracia no discurso mas fecha os olhos quando os seus interesses estão em causa.
Escrevo isto como ateia, mas defensora intransigente da liberdade religiosa enquanto prática espiritual, enquanto direito íntimo de cada um acreditar ou não acreditar, porque não é a fé em si que me incomoda, mas a forma como a fé é usada como espada, como instrumento de domínio, como justificação para massacres. Foi assim com os cristãos nas cruzadas, em nome de uma cruz que se confundiu com o ferro da espada, foi assim com as fações extremistas do Islão que ergueram o Estado Islâmico como caricatura da fé, e é assim agora com os judeus governados por um criminoso como Netanyahu, que transforma a sobrevivência de um povo em álibi para crimes de guerra. A espiritualidade pode ser refúgio e sentido, mas quando se transforma em bandeira de guerra não é religião, é política travestida de fé, e nada é mais perigoso do que um deus posto ao serviço da barbárie.
Líderes palestinianos reúnem-se para discutir a revolta de 1929 contra a ocupação britânica. Fonte: Palestine Photo Project
E assim, hoje, dois povos continuam a viver dentro da mesma ferida, porque para os judeus Israel é o escudo último contra o medo da extinção, a única garantia de que não haverá outro Auschwitz, e para os palestinianos Israel é a materialização da desapropriação, a prova quotidiana de que a sua existência pode ser apagada. O sionismo não era mau na sua origem, era a busca de sobrevivência, mas ao colidir com a Palestina tornou-se também um projeto de exclusão, e a Palestina não era vítima no início, mas ao ser transformada no palco da expiação europeia tornou-se mártir. Ambos carregam dores legítimas, mas o mundo escolheu sempre esconder-se atrás de discursos e alianças, alimentando a espiral de violência e massacre que hoje parece infinita.
E se a culpa é nossa, herdeiros de um Ocidente que sempre preferiu lavar as mãos no sangue alheio, resta-nos perguntar o que fazer com essa responsabilidade que não escolhemos mas carregamos. Não é propor soluções de gabinete nem impor modelos de democracia ocidental como se fossem remédio universal, porque isso seria repetir a mesma arrogância que nos trouxe até aqui, mas talvez aprender a escutar sem reduzir, a nomear os crimes sem hesitar, a recusar o silêncio que legitima massacres. E não é, também, a solução fácil, hipócrita e idiota das sanções, essa invenção que serve mais para sossegar consciências do que para mudar regimes, porque raramente atingem o poder que pretendem castigar e quase sempre esmagam os mesmos de sempre: as populações civis, os pobres, os vulneráveis, que veem comida faltar, remédios desaparecer e fronteiras fechar, enquanto os líderes extremistas erguem ainda mais os muros da propaganda e se alimentam do isolamento. Não é, definitivamente, o papel do Ocidente salvar - até porque não conseguimos sequer salvar-nos a nós próprios da hipocrisia em que nos afundamos, essa dissonância entre o que pregamos e o que praticamos, entre os discursos sobre direitos humanos e a economia que se alimenta da guerra, entre a compaixão encenada das cimeiras e os contratos de armas assinados nas mesmas mesas. O mínimo que nos resta é parar de fingir neutralidade, parar de financiar a opressão em nome de interesses estratégicos, parar de chamar paz ao que é apenas gestão de violência. Não se trata de colonizar com soluções, mas de descolonizar o olhar: admitir que não há futuro digno para uns se o outro povo viver condenado à invisibilidade.
Israel vive no medo de desaparecer, a Palestina vive na experiência de estar a desaparecer, e nós, permanecemos herdeiros de um Ocidente que nunca assumiu as suas responsabilidades, olhamos como se a loucura fosse apenas deles, quando na verdade é nossa, porque fomos nós que cultivámos a contradição entre os princípios que proclamamos e os interesses que servimos. E no entanto, continuamos a assistir e a perpetuar o espetáculo de narrativas que se digladiam - quem tem mais razão, quem tem mais legitimidade em tudo isto - enquanto a única arma que nunca se dispara é aquela que deveria apontar para nós próprios, para um Ocidente que se protege com discursos enquanto descarta a responsabilidade do incêndio que ele mesmo ateou.
D.
P.S. E no meio de tanta ruína, pergunto-me se não será afinal o amor, a arte, a música, aquilo que ainda pode unir o que a política insiste em separar - como fazem os Orphaned Land, banda israelita que há décadas funde o metal com sonoridades orientais e que ousa cantar a convivência entre judeus e árabes, recordando-nos que, apesar de tudo, all is one. E há uma ironia tragicamente perfeita nisto: que seja o metal - o tal de herético, blasfemo, moralmente degenerado - a oferecer mais verdade e mais esperança do que a retórica dos governos e das cimeiras.





