©Diana V. Carriço, private archives, 2025 / “O rio”, Local: Mira
A sede tinha a espessura das eras, um apelo mineral que ressoava no âmago da língua como um segredo ancestral, escavado nas entranhas do tempo. Caminhava há horas, os ombros rasgados sob um sol suspenso, lâmina imóvel no zénite. A terra estalava sob os pés, cúmplice da aridez que me roía os ossos.
Animal antigo, ventre de água espraiado entre margens corroídas - o rio. Murmurava baixo, como quem ainda arrasta na boca os ecos de tudo o que viu morrer. Aproximei-me. O corpo já sem pertença, apenas carne aderida ao chão, raiz latejante.
Fiquei ao seu lado, sentindo a respiração da corrente. Dizem que a água do rio guarda fantasmas, que nela boiam resquícios de todas as mortes que viu passar, que o fluxo arrasta consigo o peso imemorial de tudo o que nele morreu. Que há nela a febre das pedras, a promessa de venenos que não se deixam ver, palavras ditas no fim, o hálito das últimas fomes. Mas eu já não pertencia ao reino das precauções; naquele instante, era só matéria aberta ao destino, parte da terra como qualquer raiz sedenta. Não havia margem entre mim e o mundo.
Ajoelhei-me, com a terra colada à pele. Mergulhei as mãos - e o frio mordeu-me. Não era apenas temperatura: era um golpe, uma ferida espiritual. Um frio primordial anterior à palavra “frio”, anterior à língua. Vibração arcaica, memória líquida.
Deixei os dedos beberem o silêncio da água. Inclinei o rosto, sem rito nem hesitação, e bebi. A corrente desceu-me pela garganta como um augúrio. Trazia vozes, musgo, os gritos secos de outros corpos. Atravessou-me como um presságio, espalhou-se, dissolveu as fronteiras. Havia nela uma verdade que nenhuma fonte tratada poderia conter - um sabor de pedra, de folha, de tudo o que a civilização tenta apagar do paladar humano; essa verdade que morde, que fere o paladar civilizado, que restitui o corpo ao que ele esqueceu. Era baptismo, era veneno, era terra.
Talvez adoecesse depois, pensei, erguendo-me devagar, sentindo o peso do instante a infiltrar-se-me nos ossos. Talvez viesse a febre. Talvez a doença. Talvez o delírio. Mas naquele instante havia redenção na entrega. Um silêncio que redimia. Fui só mais um corpo, encurvado na sede, tocado pela boca da terra, alinhada com o ritmo secreto das coisas.
Se morrer de sede é martírio, morrer daquela água seria rito. Um retorno ao osso do mundo. Um regresso.
D.



