© Diana V. Carriço, Private Archives
Partilhamos a lua e o sol, ao contrário, como dois corpos astrológicos a orbitar em ritmos distintos, mas unidos por uma gravidade invisível, inscrita no sangue, uma herança invisível que pulsa para além do tempo e do espaço. Eu desperto com a serenidade das madrugadas, ele deixa-se enredar pela luminosidade inquieta das manhãs. Mas há sempre um instante de interseção, um breve crepúsculo onde nos reconhecemos, como pai e filha, como duas consciências em espelho.
Partilhamos essa natureza mental indómita, uma inquietação ontológica que recusa o repouso, uma lucidez febril que interroga o mundo com obstinada paixão. Ambos habitamos o território das ideias em combustão, onde a racionalidade é convocada para escavar o real, e o silêncio se faz espaço de elaboração interna. É esse labor do pensamento que nos aproxima - não pela conclusão das respostas, mas pela reverência às perguntas.
É certo: discordamos. Por vezes profundamente - em juízos, em métodos, em interpretações do mundo. Culpo-o por essa divergência, por me ensinar a divergir, a questionar, a não aceitar o mundo como estrutura dada, mas como matéria em aberto. Foi ele quem, sem intenção, me legou o germe da inquietação, o impulso da dissidência pensante. E é nessa fricção que se prova a solidez do vínculo: é no entendimento que transcende o acordo, na escuta que resiste ao atrito, na consciência afectiva do lugar que o outro ocupa, que nos reencontramos sempre - na compreensão mútua, no respeito intacto, no amor que antecede todas as diferenças.
Muito antes de o compreender em palavras, reconheci-o em gestos. No blazer bordeaux que usava quase todos os dias, nas tardes que se prolongavam em noites em que eu ficava na empresa, a ocupar corredores e escritórios, a subir para empilhadores industriais como se fossem skates, a atazanar os trabalhadores e a responder, sem hesitar, às perguntas sobre o que queria ser no futuro: “quero ser como o meu pai” e a adormecer debaixo da secretária dele com uma mantinha enquanto o relógio se alongava para lá do horário comum. Ali, sem o saber, aprendia que o amor também se diz na persistência do trabalho, na obsessão pela segurança financeira, nesse corpo que se oferece como abrigo e garante que nada falte. Quando não me deixou comprar uns All Star em formato bota, não por capricho, mas porque os atacadores demoravam demasiado tempo a apertar. O tempo, para ele, era matéria sagrada, precioso para quem sentia que tinha chegado tarde à vida e já não podia desperdiçar minutos em nós desnecessários. Nesse “não” prático, quase prosaico, reconheço hoje que havia uma ternura estrutural: a pressa não era impaciência, era medo de perder tempo para dar a quem amava. O amor que ele me mostra é, em parte, o amor que recebeu e reconheceu do pai: devoção à obra, à responsabilidade, a esse mundo que é preciso sustentar para que os nossos possam existir com alguma leveza, quando tudo nele foi pesado.
A minha primeira memória do medo nasce também dele, ou melhor, da possibilidade de o perder. Tinha três anos quando o ia buscar à hemodiálise à noite com a minha mãe. Não compreendia o que via, mas o corpo reconheceu antes da linguagem: a luz crua, o silêncio interrompido por máquinas, a estranheza de o ver ligado ao que eu não sabia nomear. A porta basculante abria e fechava num ritmo mecânico, e a cama dele alinhava-se com esse intervalo - via-o aos fragmentos, intermitente, como se a sua presença dependesse daquele movimento. Espreitava, curiosa como sempre fui, tentando recompor um todo a partir de aparições breves. Nesse jogo involuntário de revelação e ausência, o mundo perdia eixo. Pela primeira vez, intuí que o meu pai não era imune ao desaparecimento.
Durante muito tempo, desconfiei dessa memória, parecia-me demasiado nítida para ser real, demasiado inteira para caber numa infância tão precoce. Mas foi confirmada, devolvida por outros como verdade. E assim aprendi que há memórias que não se inventam: inscrevem-se no corpo antes da linguagem, persistem antes da compreensão. Mas foram nesses mesmos dias que também aprendi, a superação. Porque no fim, ele voltava sempre comigo e, mais do que voltar, pegava-me ao colo. Cansado, atravessado pelo esforço de um corpo em resistência, mas ainda assim firme, como quem carrega o seu mundo às costas e, ainda assim, encontrava forças para me sustentar. Nesse gesto, simples e absoluto, reordenou o mundo. Dissolveu-me o medo, sem o negar. Percebo hoje que o amor não elimina o abismo: torna-o habitável.
O meu pai, companheiro silencioso da minha complexidade, não se furtou nunca ao exercício da palavra e foi através dela, da sua tessitura analítica e luminosa, que decifrou recantos da minha psique antes mesmo de eu os nomear. E foi, sobretudo, nos meus gestos impensados, nos ímpetos adolescentes onde tudo em mim era excesso, ruptura e desassossego, que a sua presença se tornou mais nítida - não como censura, mas como abrigo. Quando tudo em mim gritava contra o mundo, era ele quem, com espantosa serenidade, me trazia de volta ao centro. Nunca me julgou pelo erro, antes reconheceu nele o sinal da inquietação que partilhamos. Orientou sem impor, desculpou sem condescender, motivou sem exigência. Foi, nesses momentos de desordem interior, o ponto fixo onde sempre pude regressar sem medo - e é possível que seja essa a forma mais rara de amor: aquela que nos permite falhar sem nos fazer sentir perdidos. Terminava cada conversa, sobretudo as mais densas, aquelas onde o mundo parecia momentaneamente desalinhado, com um simples “Vamos em frente”. E havia, nessa frase, mais do que um hábito: uma ética. Depois da correção, depois do confronto, depois de me obrigar a ver com clareza o que eu ainda recusava, devolvia-me sempre ao movimento. Como se dissesse, sem dizer: pensa, erra, desmorona-te se for preciso, mas não pares.
E há por isso nele uma ética que me funda, um código de integridade que permanece mesmo quando a vida desafia todos os alicerces. É um arquétipo indiscreto - força estrépita, entendimento que não se exibe, amor que não precisa de prova e se evidencia na preocupação.
Hoje, ao nomear a sua figura, não o faço com sentimentalismo pueril, mas com o reconhecimento profundo de que poucos vínculos resistem ao tempo como aquele que se constrói na densidade da partilha e no silêncio cúmplice do pensamento.
O meu pai, o melhor amigo de uma vida, quem me (re)conhece como ninguém, um abrigo sem discurso, uma força sem alarde, uma ternura que só se entende com o tempo. Nunca serão os gestos grandiosos, mas os pequenos - o modo como me ensinou a pensar, a resistir, a ser. Se hoje avanço, é porque um dia ele me disse: vamos em frente - e ficou ao meu lado.
D.



