Sou feita de água,
não de nascente nem de rio manso
sou matéria anfíbia,
interstício entre caos e dilúvio,
morfologia líquida que se molda ao erro.
Sou maré de Saturno,
orbito em torno de sombras,
submersa na gramática do ímpeto
onde cada sílaba é húmida
e cada silêncio é um vórtice.
Sou feita de água,
mas a água não tem nome,
não se fixa, não se dobra,
não se oferece à contenção.
Atravessa paredes, desliza sobre promessas,
evapora na iminência da captura.
Sou feita de água,
e por isso transbordo,
desafino na métrica do estável,
desenho mapas em névoa
para nunca ter de regressar.
Flutuo no próprio veneno,
antídoto e abismo na mesma pulsação.
A água não morre,
afoga-se nela própria.
D.




Tão lindo 😍