Photo credit: AP/G.Nehmeh/UNRWA Photo Archives (1968)
-
Chamam-lhe, com aquele tom de certezas que só a repetição das mentiras permite, a única democracia do Médio Oriente, como quem escreve o slogan numa parede já rachada, como quem oferece um certificado de pureza enquanto tapa com a outra mão o cheiro a pólvora e a humilhação, como quem acredita que uma democracia pode coexistir com muros, que uma eleição legitima um exército, que uma câmara municipal e um drone podem, juntos, garantir o progresso e a ordem, porque sim, dizem, há partidos, há startups, há cafés com código QR e centros de inovação financiados por Silicon Valley, há inclusive séries na Netflix, o que deve bastar para calar qualquer palestiniano que ainda insista em existir.
Mas, enquanto os discursos circulam e as cimeiras diplomáticas se sucedem, há dois sistemas legais a funcionar na mesma estrada, há um juiz que aplica o código civil a um colono e um comandante que aplica o código militar a um camponês, há o direito a ser julgado e o direito a ser detido sem julgamento, há um bairro com árvores e outro com escombros, e ambos têm electricidade - mas só um tem direito a acender a luz quando quer.
E o casamento, esse gesto que deveria ser íntimo, livre, improvável como um poema, aqui precisa de chancela religiosa, de pureza genealógica, de uma estrutura rabínica que decide quem é judeu o suficiente, quem é mulher o bastante para obedecer, quem é cidadão de papel ou só de tolerância provisória, e se fores queer, ou laico, ou muçulmano casado com cristã, então arranja as malas, vai até Chipre, casa-te clandestinamente na legalidade de fora, regressa com o papel escondido na bagagem como se fosse pornografia sentimental, porque em Israel o amor também precisa de checkpoint.
E se quiseres divorciar-te, e fores mulher, e o teu marido disser não, então esperas, sentada, calada, a ver os anos passarem com o corpo amarrado ao contrato que já não existe, porque o tribunal religioso não te ouve, só te administra, e a tua liberdade é uma questão de submissão.
Mas falemos agora da terra, da geografia transformada em sentença, da ocupação com verniz democrático, do território que se diz temporariamente administrado há mais de meio século, do léxico que transforma o exílio em “disputa”, a demolição em “necessidade de segurança”, o muro em “barreira de protecção”, a cisão em “conflito”, como se a assimetria entre um tanque e uma pedra fosse equação e não massacre, como se houvesse dois lados quando só um tem Estado, só um tem exército, só um tem código postal reconhecido pelas Nações Unidas.
E Gaza. Onde a democracia se esqueceu de nascer, Gaza que dizem ter sido desocupada, como se tirar os soldados fosse o mesmo que devolver a dignidade, como se deixar um povo cercado por mar, ar e terra, controlado até à última caloria, fosse acto de boa-fé, Gaza onde se morre por explosão ou por ausência, por escassez de morfina ou excesso de fósforo branco, Gaza onde a infância é um acidente estatístico e os hospitais funcionam entre geradores e promessas, Gaza onde o silêncio do mundo tem o volume de uma bomba atómica.
E no meio de tudo isto, a Europa, essa senhora velha de cabelo arranjado e mãos lavadas, essa mãe de tratados e orçamentos, essa amante da liberdade quando é conveniente, essa retórica ambulante que impôs sanções à Rússia com velocidade teológica, que congelou activos, suspendeu acordos, bloqueou bancos, condenou em voz alta, com dignidade, com firmeza, com moral, mas que diante de Israel suspira, contorce-se, redige parágrafos com verbos no condicional, apela à contenção, evita palavras como genocídio ou apartheid, diz que está a avaliar, continua a avaliar, avaliará até que tudo arda, até que não haja mais nada para salvar.
Outro dia, partilhei que países árabes estavam dispostos a garantir a segurança de Israel, a viver em paz, se terminassem a ocupação de territórios palestinianos de acordo com as fronteiras de 1967, e alguém respondeu que era impensável, que sendo mulher eu não podia defender países árabes, como se a minha anatomia me obrigasse a militar apenas nas lutas autorizadas, como se criticar a ocupação fosse defender ditaduras, como se a coerência feminista exigisse o aplauso à bomba sempre que a bomba se diz ocidental, como se não fosse possível compreender que sim, há regimes árabes que oprimem mulheres, e sim, isso é inaceitável, mas que essa é outra luta, não menos importante, apenas simultânea, não menos urgente, apenas esmagada por outra urgência ainda maior, a da sobrevivência.
Porque é difícil organizar uma marcha LGBTQI+ quando a tua escola foi bombardeada de madrugada, quando a tua casa já não tem tecto, quando a tua avó morreu porque não havia combustível para alimentar o ventilador, quando o teu filho tem três meses e mais hipóteses de morrer antes de aprender a dizer o teu nome do que de alguma vez votar, porque as lutas pelas mulheres, pelos corpos, pelas palavras, por tudo aquilo que queremos, só florescem quando há chão, quando há ar, quando há paz, e exigir emancipação plena debaixo de ocupação é o mesmo que pedir poesia no meio de um massacre.
Mas o Ocidente prefere a sua moral limpa, embalada, exportável, com manual de instruções e cronologia imperial, quer que a libertação siga o protocolo da civilização, primeiro o Estado, depois a igualdade, primeiro a democracia, depois o desejo - nunca o contrário.
E se alguém disser que este texto é político, pois que seja, porque tudo é político, o beijo na rua é político, o direito a não sair de casa também o é, a água potável, o silêncio da imprensa, a arquitetura de um checkpoint, o direito a não saber o nome do ministro da defesa, a possibilidade de amar sem morrer - tudo isso é político, e o luxo de dizer “não quero saber de política” é, ironicamente, o mais político de todos os privilégios.
Esta, então, é a tal democracia - com muros, com tanques, com Deus, com branding, com teologia aplicada ao urbanismo, com alianças que valem mais que direitos, com checkpoints que filtram o humano, uma democracia com nome bonito, mas vísceras coloniais - uma democracia com discursos, mas sem liberdade, com armamento inteligente, mas sem vergonha.
D.



