© Arquivo pessoal, 2025
(Livro: Comunidade: Floresta - vozes comunicantes para o futuro de um território - edição Colectivo à escuta)
Foi assim que começou, com um deslize da visão, uma leitura apressada num livro folheado ao acaso - que acabei por comprar - onde alguém escrevera “(in)sustentabilidade das aldeias” e, por uma razão ou outra, o meu cérebro trocou aldeias por ideias, e essa pequena deslocação - quase um erro tipográfico do pensamento - ficou a marinar durante dias, como se uma palavra mal lida pudesse abrir uma fissura nova no mundo, e eu, que acredito que as melhores ideias são sempre filhas da distração, deixei que essa confusão semântica me perseguisse pela semana inteira, até perceber que era ali, nesse equívoco aparentemente trivial, que se escondia a arquitectura inteira deste ensaio, porque foi ao ler insustentabilidade das ideias, em vez de aldeias, que me ocorreu, pela primeira vez, que as ideias também ruem, também envelhecem, também ficam vazias, e que talvez devêssemos tratá-las com a mesma atenção com que tratamos casas antigas que herdámos sem escolher.
Há muito que vivemos cercados por ideias que não aguentam o próprio peso, mas continuamos a carregá-las como quem insiste em transportar móveis herdados só porque são herdados, mesmo que já não caibam na casa, nem na vida, nem no corpo cansado que os arrasta, e é curioso como nunca nos detemos para perguntar se estas ideias - políticas, morais, económicas, espirituais, afectivas - ainda servem para alguma coisa, ou se já são apenas ruínas polidas pela repetição, ruínas que herdámos com a reverência automática de quem não ousa questionar o valor de catedrais que ninguém visita, porque há uma crença infantil de que tudo o que dura muito tempo deve ter razão, quando na verdade apenas teve quem o sustentasse, nem sempre pelas melhores razões, e assim caminhamos por um mundo feito de pilares frágeis, fachadas insinceras e conceitos que, tocados com um dedo, tremeriam como um andaime esquecido ao vento.
Vivemos num tempo estranho em que as ideias se multiplicam mais depressa do que se compreendem, e a sua leveza - leveza que muitos confundem com liberdade - é apenas o outro nome para uma insustentabilidade discreta, quase elegante, que faz com que qualquer opinião se proclame verdade, qualquer palpite se disfarce de princípio, qualquer intuição ganhe o tom pomposo de doutrina, e eu pergunto-me muitas vezes como é que chegámos aqui, a esta arquitectura desajeitada do pensamento que ergue muros com a mesma rapidez com que desaba, e que, ainda assim, insiste em parecer sólida, porque nada é mais teimoso do que uma ideia que já não tem quem a pense, mas continua a ter quem a repita.
Penso valer a pena deter-nos um instante nesta palavra que carregamos com tanta pressa: ideia. Uma palavra que herdámos dos gregos, idéa, nascida de ideîn, o acto de ver, e é uma ironia antiga que aquilo que hoje tratamos como construção abstracta tenha começado por significar apenas uma visão, uma imagem lançada na mente como um clarão, como se pensar fosse, antes de tudo, ver - ver o que ainda não existe, ver o que talvez nunca venha a existir, ver um futuro possível ou um engano luminoso, e perceber que as ideias, antes de serem pensamento, são aparições, pequenas epifanias privadas que se acreditam universais apenas porque nos visitam com essa intimidade violenta que nos faz proclamar “tive uma ideia” como quem anuncia uma revelação. Mas o que fazer com ela quando chega? Guardá-la? Expô-la? Desconfiar dela? Muitas ideias não passam de projectos prematuros, abortos conceptuais que mal se formam, enquanto outras, por capricho ou pertinácia, sobrevivem décadas depois de se tornarem inúteis, como velhas fotografias que ninguém tem coragem de deitar fora. Talvez seja por isso que tratamos as ideias como tratamos memórias: algumas esquecemos, outras forçamos, outras ainda insistem em regressar mesmo quando já não lhes reconhecemos o rosto, e se há algo verdadeiramente inquietante nas ideias é esta ambição de durarem mais do que nós, de se replicarem, de se transplantarem para outros corpos, outros tempos, outras narrativas, como se fossem organismos autónomos, habitantes clandestinos da nossa consciência.
Há uma ironia na forma como tratamos as ideias herdadas, como se fossem monólitos sagrados quando, na verdade, são casas com infiltrações, mapas desactualizados, tectos baixos onde batemos com a cabeça, e no entanto lá vamos nós, devotos e distraídos, a restaurá-las com vernizes conceptuais, a remendá-las com palavras caras, a justificar a sua existência apenas porque sempre existiram, e não existe maior preguiça intelectual do que a veneração do passado sem a coragem de o rasgar, de o examinar, de o reescrever, porque reescrever não é destruir, é permitir que o mundo volte a respirar.
E é por isso que este ensaio, ou manifesto, ou rabugice filosófica, chamem-lhe o que quiserem, porque as palavras são também casas frágeis, nasce aqui, neste ponto onde desconfio de tudo, até de mim, porque pensar não é decorar teorias, nem repetir fórmulas, nem procurar o conforto de respostas prontas, pensar é pôr tudo em causa até que a poeira assente, e perceber, com alguma vergonha, que grande parte daquilo que defendíamos com unhas e dentes não passava de uma estrutura mal construída, de uma ruína disfarçada de edifício, de uma ideia que não tinha alicerces, apenas hábito.
O mundo não colapsa por falta de certezas, colapsa por excesso delas, e é por isso que precisamos, agora mais do que nunca, de aceitar que a insustentabilidade das ideias não é um fracasso, mas uma oportunidade, uma espécie de engenharia inversa do espírito onde desmontamos as peças, sacudimos o pó, recusamos dogmas, renegociamos crenças, e só depois, se ainda fizer sentido, reconstruímos uma outra arquitectura possível, mais humana, mais lúcida, mais resistente à arrogância das verdades absolutas que sempre acabam por estalar, mais cedo ou mais tarde, sob o peso da própria vaidade.
E antes de avançarmos para conclusões apressadas, talvez devêssemos admitir uma verdade desconfortável: grande parte do que pensamos não nasceu connosco, foi-nos passado como se passa uma casa antiga cujo valor ninguém avalia, apenas se aceita, e estas ruínas herdadas com que convivemos diariamente não são só os dogmas que repetimos por reflexo, mas também as pequenas convicções domésticas, os receios herdados por osmose, os modos de amar que nunca questionámos, as aversões que nem sabemos explicar, como se a nossa consciência fosse uma cidade construída sobre camadas e camadas de arquitectos anónimos, alguns talentosos, outros incompetentes, muitos apressados. E é isso que me espanta: vivemos dentro de ideias como quem vive dentro de edifícios sem perguntar quem os desenhou, onde cederam, onde racham, onde enganam.
A arquitectura do pensamento é talvez o maior milagre e o maior perigo da condição humana, porque construímos teorias como quem ergue casas em terrenos movediços, confiando no cimento da emoção, na madeira da tradição, nos tijolos do hábito, e raramente nos lembramos de que uma ideia não se torna verdadeira por ter paredes, tal como uma casa não se torna segura por ter telhado, e no entanto movemo-nos por dentro delas como se fossem fortalezas inabaláveis, ignorando que basta uma migalha de lucidez, um golpe de vento filosófico, uma dúvida bem colocada, e toda a estrutura abana, range, ameaça cair, e é nesse momento, instante breve onde percebemos que o pensamento não é casa mas estaleiro, que começamos verdadeiramente a pensar.
E para onde vão as ideias que morrem? As ideias que abandonámos, por falha, por vergonha, por maturidade, por saturação? Evaporam-se? Ficam em suspensão na poeira da memória à espera de um gesto que as ressuscite? Regressam ao ponto de origem como pássaros migratórios que perderam a estação? Ou transformam-se noutra coisa, deformadas, fantasmáticas, irreconhecíveis, como lembranças de infância que já não sabemos se vivemos ou inventámos?
Gosto de imaginar que há um lugar secreto - uma espécie de ossário conceptual - onde repousam as ideias que deixámos morrer, não como fracasso, mas como parte do ciclo natural do pensamento, porque pensar é também enterrar, desenterrar, reciclar, reconstituir, e acredito que o maior erro da humanidade tenha sido tratar as ideias como entidades imortais, quando deveriam ser tratadas como organismos vivos: nascem, crescem, adoecem, apodrecem, deixam restos, contaminam o solo. Há ideias que morrem cedo demais, antes de mostrarem a que vinham, e há outras que deviam ter morrido séculos antes e continuam por aí, espectrais, a conduzir civilizações inteiras como marionetas.
E se há uma verdade que este texto me obrigou a reconhecer - e eu, que desconfio de verdades, digo isto com cuidado - é que a insustentabilidade das ideias não é uma ameaça, é um convite. Um convite à arqueologia íntima, ao levantamento topográfico das nossas crenças, à cartografia das ruínas que herdámos sem inventário, à reavaliação estrutural da arquitectura que nos habita, como se cada pensamento fosse um edifício onde entramos para ver onde está o mofo, onde a madeira apodreceu, onde o chão ameaça ceder, onde a luz ainda entra, e só depois, quando conhecemos o esqueleto da casa, é que podemos decidir o que fica, o que cai, o que renasce, o que se transforma, e o que, finalmente, podemos deixar morrer.
E creio que seja isto o que diferencia o pensamento vivo do pensamento morto: a capacidade de deixar ruir aquilo que já não serve, com a mesma dignidade com que acolhemos aquilo que chega, como se cada ideia fosse uma hóspede provisória, nunca proprietária, nunca dona do lugar, porque o lugar - esse, sim - é a nossa lucidez, e a lucidez não tolera inquilinos eternos, nem casas apodrecidas, nem ruínas que fingem ser templos. E sorrio, quase em segredo, ao pensar que tudo isto começou com um título mal lido, uma (in)sustentabilidade das aldeias que os meus olhos, distraídos e talvez guiados por alguma entidade menor do acaso, transformaram em insustentabilidade das ideias, como se aldeias e ideias compartilhassem a mesma fragilidade estrutural, o mesmo risco de abandono, a mesma urgência de cuidado. Talvez seja essa, também, a revelação última deste texto-ideia: que tanto as aldeias como as ideias só sobrevivem se alguém as habitar com consciência, com gesto, com o trabalho lento da manutenção interior.
E escreverei sobre as aldeias, em breve, com a beleza que merecem, não apenas por rigor filosófico, mas porque me dizem muito: todos os meus antecessores vieram de aldeias, e toda a minha vida foi dividida entre a cidade que me afia e a aldeia que me devolve ao osso, como se eu própria fosse feita dessa tensão - um corpo que pensa no asfalto mas respira melhor no silêncio da terra. Há, por isso, lugares que precisam de ser cuidados como se cuida uma ideia rara - antes que se tornem mais uma ruína no mapa das coisas que deixámos morrer por descuido.
D.




Cruzei-me com este texto uma primeira vez, não me saiu da cabeça e corri o substack todo até o encontrar novamente. Só para saberes o quão lindíssimo está, o quanto me disse e que o vou mencionar numa das minhas publicacções. Um Abraço, Patrícia*