erros em fotolitos
Entrei no céu do possível como se se tratasse de uma loja de penhores, levei comigo apenas aquilo que não podia fingir, o riso solto, a mania de dobrar os guardanapos duas vezes, as frases que me servem quando acordo com a boca seca - e percebi, já na montra, que não há etiqueta que resuma quem somos quando nos despimos diante do outro; há, isso sim, pequenas facturas, assinaturas ocultas, impostos de silêncio que pagamos em segredo. Amar - se é que isto é amor - é aceitar ser frágil como uma talha em promoção, é saber que a peça pode partir amanhã, e mesmo assim pagar por ela, com o bolso da alma a esvaziar-se lentamente, porque o contrário, a inteira economia da cautela, é uma ruína sem gestos, uma casa cheia de móveis que ninguém usa. Aceito, portanto, a dor como parte do inventário, e escrevo ao lado: se for breve, que seja belo; se for falso, que me invente; se partires, que leves as minhas torres vazias, mas deixa-me as janelas abertas, o sítio onde se sentava o medo, e um copo com vinho suficiente para uma promessa. Fico com a herança mínima: a convicção de ter amado, um relato curto, exacto, que serve como tectónica: houve, houve, houve.
D.




Gostava de escrever assim. Que bonito. Vou ficar a pensar nisto a noite inteira.