Scene of The great dictator (1940)
-
Nos últimos dias, reacendeu-se a discussão sobre a suposta necessidade de decisões “neutras” e despidas de ideologia. O pretexto imediato foi o acórdão do Tribunal Constitucional que declarou inconstitucionais cinco normas da lei de estrangeiros; o vice-presidente do TC e um dos juízes, criticaram essa decisão, considerando as medidas “perfeitamente razoáveis” e sugerindo que a declaração de inconstitucionalidade teria sido informada por “convicções pessoais” mais do que por uma fundamentação jurídica objetiva. Como se a sua própria leitura - a de que eram “perfeitamente razoáveis” - não fosse também atravessada por convicções, enquadramentos, valores e pressupostos ideológicos. Como se a ideologia pudesse ser extraída, como se não fosse condição estrutural da própria interpretação jurídica, como se a própria nomeação dos juízes, por via partidária, não fosse já uma inscrição ideológica na génese do seu mandato.
Esta crença pueril na possibilidade de neutralidade, repetida com a gravidade de quem recita um axioma moral, é, no fundo, um sintoma da recusa obstinada em reconhecer que não existe pensamento fora de um quadro de referências, que toda leitura é já interpretação, e que até o silêncio é já linguagem. A não ser, claro, que se seja ameba - e mesmo as amebas, suspeito, carregam as suas predilecções microscópicas.
A questão já nem é se uma decisão de tribunal pode ser isenta de ideologia - é se a própria interpretação de qualquer coisa, por mais banal ou técnica que pareça, pode alguma vez ser isenta. Julgar não é um acto mecânico de encaixe entre norma e facto; é um processo de leitura do mundo, e ler implica escolher ângulos, hierarquizar relevâncias, decidir o que se sublinha e o que se apaga. A neutralidade, aqui, não é apenas improvável - é logicamente impossível. E é deste equívoco fundacional que nasce o fascínio contemporâneo pela palavra da moda “isenção”.
No vocabulário contemporâneo, poucas palavras gozam de tanta estima pública e, ao mesmo tempo, de tamanha falência epistemológica como “isenção”. Esta constante noção de que o sujeito pode, por vontade ou método, distanciar-se do mundo, das ideologias, das paixões, das estruturas de poder que o moldam, e observar a realidade com olhos virgens, é talvez um dos últimos mitos modernos com verniz de virtude.
A isenção, enquanto ideia, pressupõe que há um lugar fora do campo de forças. Que é possível uma suspensão ontológica, um vácuo ético, uma observação neutra. No entanto, não existe neutralidade ontológica no humano. Todo o corpo é corpo situado. Todo olhar é um olhar atravessado.
Simone Weil escrevia que “prestar atenção já é uma forma de amor” - e podemos inferir, com igual justeza, que não prestar atenção é uma forma de recusa, um tipo de violência branda. A neutralidade, neste sentido, não é ausência de escolha: é escolha negativa. O isento não é o que se abstém, mas o que renuncia à responsabilidade sobre a sua inserção no mundo.
Michel Foucault desconstruiu a ideia de “ponto de vista neutro” no campo do saber, ao demonstrar que todo discurso é condicionado por dispositivos de poder e de saber. A linguagem, a ciência, o direito - instituições tradicionalmente associadas à imparcialidade - operam, de facto, como extensões de sistemas ideológicos. A ideia de que a técnica é neutra, ou que os dados “falam por si”, é um fetiche contemporâneo, perigoso precisamente porque se disfarça de rigor.
Dizer-se isento, hoje, é muitas vezes um gesto de auto‑preservação. Uma estratégia de invisibilidade conveniente. Ao reivindicar isenção, o sujeito protege-se da crítica e, simultaneamente, protege o status quo. Trata-se de um acto de abdicação mascarado de moderação. Mas a realidade não é neutra. O preço do pão não é neutro. O acesso à habitação não é neutro. A gramática do corpo, o sotaque, o tom de pele, a roupa que se veste ou o bairro em que se vive, são todos factos políticos, por mais íntimos ou banais que pareçam. A política não é um departamento do governo: é a estrutura que permeia o gesto mais privado, a decisão mais pessoal.
A Skin dos Skunk Anansie costuma repetir “Everything is fucking political”, e por mais crua que soe a formulação, condensa numa linha aquilo que a filosofia vem reiterando há séculos, ainda que por caminhos menos eléctricos e berrantes. Hannah Arendt, em Responsabilidade e Julgamento, recorda que “a recusa em julgar é, em si mesma, uma forma de julgamento” - e aqui a suposta neutralidade revela-se, inevitavelmente, como uma tomada de posição, não pelo que afirma, mas precisamente pelo que abdica de afirmar; e Nietzsche terá ido mais longe, com o célebre “não há factos, apenas interpretações” - uma frase tantas vezes mal lida como convite ao relativismo, quando na verdade aponta para outra coisa: a impossibilidade de separar o sujeito do que observa, que a consciência não é uma janela transparente, mas uma lente que amplifica ou distorce, de acordo com aquilo que se é, se deseja ou se teme.
E é neste ponto que se impõe falar da comunicação, do jornalismo e da ficção confortável da “neutralidade informativa” - e da influência, subtil ou explícita, que inevitavelmente a acompanha.
A obsessão contemporânea com a ideia de objetividade, sobretudo na imprensa, tornou-se ela própria um exercício de distração colectiva. Não debatemos os conteúdos, debatemos se o tom foi neutro, se o jornalista devia ou não ter adjetivado, se o título foi tendencioso. Passamos mais tempo a tentar descobrir quem é o narrador do que a ouvir a história, como se isso resolvesse o enredo.
A tragédia não é a (im)parcialidade dos media. É a nossa incapacidade de ler com inteligência essa mesma (im)parcialidade. O verdadeiro problema não é sermos expostos a discursos com viés, mas sim termos perdido as ferramentas para identificar, desmontar e contextualizar esse viés.
Discutimos a neutralidade como se fosse um valor em si, quando deveríamos discutir a qualidade da análise, a riqueza do argumento, a densidade da interpretação. Cancelamos humoristas e sátiras por falta de compreensão semântica. Indignamo-nos com títulos, não com conteúdos. Confundimos tom com tese. Lemos palavras como se fossem perigosas em si mesmas, ignorando o contexto onde ganham ou perdem o seu veneno. E a história está repleta de momentos em que a alegada neutralidade - institucional, jornalística, científica, diplomática - serviu não como ponte de entendimento, mas como cobertura para a perpetuação de sistemas de dominação.
Como exemplo, a “neutralidade” da imprensa norte-americana durante os anos iniciais da ascensão nazi. Em 1933, quando Hitler chegou ao poder, muitos jornais ocidentais, incluindo o New York Times, adoptaram um tom “neutro” - factual, descritivo, sem condenação explícita das políticas de segregação e violência emergentes. Essa suposta imparcialidade ajudou a normalizar o regime aos olhos do público estrangeiro. A razão? O jornalismo acreditava que tomar posição poderia ser visto como “activismo”, ameaçando a sua “credibilidade”. Anos depois, esse silêncio tornou-se cumplicidade passiva.
Outro exemplo paradigmático é a BBC durante o Império Britânico: vendida ao público como um modelo de imparcialidade jornalística, omitiu, descontextualizou ou suavizou sistematicamente os abusos coloniais - desde a repressão violenta no Quénia (Revolta dos Mau-Mau) até aos massacres na Índia (Massacre de Amritsar). A “neutralidade” jornalística funcionava, na prática, como braço ideológico da coroa.
Pensemos na guerra do Vietname: a imprensa americana começou por relatar os eventos de forma neutra, repetindo os comunicados do Pentágono como verdade objectiva. Só quando jornalistas como Seymour Hersh romperam com esse pacto silencioso e publicaram investigações como o massacre de My Lai, é que a narrativa começou a ruir. A lição: a neutralidade serviu, durante anos, para manter intacta a versão oficial.
Em Portugal, o exemplo do Estado Novo é particularmente ilustrativo: a censura não proibia apenas textos “contra o regime”, mas também textos ambíguos, sátiras, metáforas, ironias. O medo era que a polissemia despertasse pensamento. O que o regime exigia era a neutralidade - entendida aqui como apagamento, como achatamento da linguagem e da crítica. Publicar um artigo “objectivo” era, muitas vezes, apenas publicar um artigo que não incomodasse.
Hoje, a lógica persiste, mas de forma mais subtil. Nos grandes media corporativos, o debate sobre “viés” é usado para silenciar qualquer posicionamento ético mais claro. Quando um jornalista denuncia uma injustiça com veemência, é acusado de ser “militante”. Quando o faz com distanciamento afectado, é promovido como “profissional”. A preocupação dominante parece ser o efeito da informação sobre o público, não a sua substância. Não nos perguntamos se algo é verdadeiro, mas se soa neutro.
Como noutras áreas, também aqui a obsessão com a forma substituiu a preocupação com o conteúdo, e é esse também o caso da cobertura mediática sobre o genocídio em Gaza, onde assistimos a uma torrente de eufemismos jornalísticos: “operações militares”, “danos colaterais”, “tensão crescente”, enquanto bairros inteiros são reduzidos a escombros, crianças morrem aos milhares e hospitais são bombardeados. Os grandes media internacionais passam semanas a discutir se o termo “genocídio” é apropriado - morrem corpos; discutem-se sinónimos. Ser isento aqui é, sem metáfora, um acto de desumanização em tempo real.
E há ainda a nova religião da “neutralidade algorítmica”. As grandes plataformas afirmam que os seus sistemas são orientados por dados, sem viés humano. Os algoritmos aprendem com o mundo, e o mundo é tudo menos neutro. Sabemos que os próprios algoritmos replicam preconceitos raciais, de género e económicos, amplificando desigualdades sob o pretexto da neutralidade matemática. A tecnologia herda as ideologias de quem a programou e a isenção torna-se mais uma vez uma ficção reconfortante.
Em todos estes exemplos, a constante é esta: a neutralidade serve quem já está no poder. A “isenção” é, frequentemente, o nome bonito dado à manutenção do status quo e a objectividade, quando se transforma em categoria moral inquestionável, torna-se instrumento de omissão.
A nossa crise, no fundo, não é propriamente a de polarização, é de literacia crítica. E um dos maiores equívocos no debate público contemporâneo é a ideia de que o posicionamento claro é perigoso porque “influencia demais”, enquanto o discurso neutro seria seguro por definição - como se apenas a opinião consciente moldasse o pensamento e a neutralidade fosse um pano branco onde nada se inscreve. Mas isso é, no mínimo, ingenuidade retórica - no máximo, estratégia de dominação.
A verdade é que não existe discurso sem influência. A linguagem, mesmo a mais aparentemente asséptica, constrói mundo. A forma como algo é nomeado (ou não é), o que se escolhe enfatizar (ou silenciar), o tom, a ordem, a fonte, tudo carrega implicações que orientam o pensamento de quem lê, ouve ou vê. A “neutralidade” não é ausência de influência - é influência disfarçada.
Quando um jornalista escolhe não adjectivar, está, ainda assim, a operar uma escolha. Quando um pivot de televisão relata uma guerra sem usar a palavra “invasão” ou “genocídio”, optando por expressões como “tensão crescente” ou “conflito”, está a moldar a percepção do acontecimento. O mesmo se aplica à escolha de imagens, de enquadramento, de sons. O real não chega nunca em estado bruto. É sempre, inevitavelmente, editado. A neutralidade, neste sentido, não evita a influência, apenas a desloca para o invisível.
Mais perigosa ainda é a forma como esta ilusão se prolonga no campo educativo, político e até estético. Acreditamos que apenas o “partidário”, o “militante”, o “ideológico”, influencia. Mas a verdade é que o que se diz de forma “neutra” é, muitas vezes, o que mais eficazmente se entranha, precisamente por não despertar mecanismos críticos de defesa. A retórica da neutralidade desarma, suspende o julgamento e torna-se anestesia.
Segundo Bourdieu, a violência simbólica opera precisamente por ser invisível no momento em que é exercida. O poder não se impõe só pela repressão, mas sobretudo pela normalização - e a “neutralidade” é o seu veículo privilegiado.
Essa é, aliás, a razão pela qual certos discursos com aparência técnica, objectiva, imparcial, gozam de tanto prestígio: não porque sejam mais verdadeiros, mas porque operam com menor resistência. São os mais fáceis de digerir, os menos incómodos - e, por isso, os mais eficazes a longo prazo. Foi assim com os relatórios económicos do FMI e da Comissão Europeia durante a crise da dívida soberana na Europa (2010–2014), embrulhados em gráficos e percentagens “neutras” que apresentavam a austeridade como inevitável - a aparência de objetividade escondia o facto de serem interpretações alinhadas com uma determinada ideologia económica (neoliberal), e só anos depois o próprio FMI admitiu que as previsões estavam erradas; com as estatísticas criminais que, descontextualizadas, legitimaram políticas securitárias como o stop-and-frisk; ou o facto de ao longo do século XIX e boa parte do XX, medições antropométricas e testes de QI serem apresentados como dados objetivos para sustentar teorias racistas e políticas de segregação. O verniz técnico mascarava o enviesamento cultural e político que moldava tanto as perguntas como a interpretação dos resultados.
O mito da neutralidade como ausência de influência serve, em última instância, para proteger estruturas de poder que se querem permanentes.
E a nossa obsessão com “influências explícitas” distrai-nos da verdadeira pergunta: quem molda o fundo silencioso do nosso pensamento? Não se trata, portanto, de negar o valor da dúvida, da ponderação, da escuta. Trata-se apenas de reconhecer que até a dúvida tem ponto de partida, que a escuta selecciona frequências e que o silêncio também reproduz estruturas.
A ilusão de que a comunicação deve ser neutra, quando aquilo que precisamos é que seja lúcida, honesta, informada e sim, muitas vezes, corajosamente posicionada - é sintoma da fragilidade do debate público. Da nossa falta de musculatura crítica e da nossa recusa em aceitar que pensar é tomar partido, e que recusar o conflito é, muitas vezes, perpetuar a injustiça.
Talvez o problema não esteja na vontade de ver com clareza, mas no desejo, muitas vezes inconsciente, de não se comprometer com o que se vê. A isenção, ao contrário do que se pensa, não é sinal de maturidade democrática. É, muitas vezes, sintoma de uma cultura que confunde ética com assepsia, e prudência com omissão.
Ser humano é estar implicado. Dizer-se isento é fingir que se existe fora do mundo. E essa pretensão - por mais educada ou sofisticada que possa parecer - não resiste à primeira ferida da realidade.
D.
P.S. Declaração de interesses: Sim, tenho um lado - É o lado que pensa e tem viés.




Mais um texto fantástico, parabéns!