Anna Karina 'Vivre sa Vie, 1962 by Jean-Luc Godard.
Há nos fumadores uma elegância trágica,
como se cada cigarro fosse a moldura de um fim inevitável,
e o fumo, a assinatura fantasmagórica da sua presença no mundo,
não para serem lembrados, mas para não desaparecerem de todo.
Fumam à janela como quem espera por ninguém,
como quem ama e já desistiu,
com os olhos meio fechados,
a escutar canções que nunca passam na rádio,
num filme francês sem legendas,
onde o herói é um fracasso com casaco de cabedal e uma cicatriz moral.
Um artista, fuma com os dedos manchados de tinta e desprezo
exala como se a própria exalação fosse uma forma de protesto,
contra o mundo, contra si próprio.
Os que fumam sozinhos à porta de cafés com nomes gastos
não têm pressa, têm apenas vícios antigos e um pacto com a noite,
sabem que a beleza passa,
mas há algo no gesto, no fósforo aceso,
na primeira tragada,
que suspende o tempo,
como se o pulmão soubesse de cor
as dores que a boca ainda hesita em dizer.
Inclinam o pescoço como se fossem dançar,
mas só acendem um cigarro,
e nesse gesto há mais erotismo que em cem beijos apressados,
porque se fuma com a alma partida em três,
e todas elas gozam o fumo como quem lambe uma ferida que não quer fechar.
Há nos fumadores uma beleza que não se pode ensinar
não está no cigarro, mas na recusa,
na estética da desistência voluntária,
na forma como inspiram a tragédia e expiram um certo desprezo por tudo o que é saudável, como quem diz:
se é para morrer, que seja de prazer,
que seja de excesso,
que seja de poesia a arder devagar nos pulmões.
São os poetas da esquina,
os profetas do desgosto bem vestido,
fumam com o olhar de quem já viu demais,
e decidiram não contar tudo,
apenas deixar no ar,
como o rasto de fumo que traça um verso no vazio
e desaparece,
como tudo o que é belo e condenado.
E quando apagam o cigarro com a sola do sapato,
ficam ali, um instante a mais do que deviam,
como se aquele ponto final
fosse ainda uma vírgula no fim da frase
que nunca chegaram a escrever.
-
D.
(fumadora passiva)



