©Diana V. Carriço, Private Archives 2018
Esta semana termina trazendo-me uma sensação familiar, mas que já não sentia há muito tempo. Senti a falta de caminhos que nunca percorri, de palavras que ficaram por dizer, de pessoa(s) que talvez nunca venha a encontrar. Não é nostalgia, é uma saudade do impossível, de lugares que não vivi - memórias de momentos que nunca aconteceram, de um instante que se perdeu mesmo antes de existir; Não é uma saudade de algo que conhecemos, mas de algo que sonhámos em silêncio, tão profundamente que acabou por se tornar parte de nós. Imaginamos essas vidas como se fossem histórias alternativas, e nelas tudo faz sentido, como se tivessem sido escritas para preencher um vazio que a realidade não foi capaz de preencher; Não sabemos bem se esse vazio é escolha nossa ou se é simplesmente o preço de viver num mundo onde nem tudo se concretiza. Aquela saudade estranha, que não pertence a nada concreto, mas que nos abraça com uma ausência que parece ter estado sempre à espreita.
Talvez seja culpa dos astros, como diria Saramago, ele próprio um escorpião como eu. "Para ti, saberás, não há descanso... O signo assim ordena."1 Será esta intensidade com que vivo a vida e as emoções o preço a pagar? Onde até o que nunca foi pode deixar cicatrizes?
Acho que há um canto perdido na alma onde moram os sonhos que nunca nasceram. É lá que vive essa saudade amarga, contraditória, uma memória do que nunca foi. Chamo-lhe saudade dos lugares que não vivi, ou do eterno “e se?”- aquele instante em que o destino bifurcou-se e seguimos por um caminho que, apesar de nos parecer (ser) certo, deixou outros tantos por explorar.
Sentimos falta de quem nunca conhecemos, de amores que nunca tivemos, de vidas que poderiam ter sido nossas se tivéssemos tido a coragem de as alcançar. É uma espécie de sombra emocional, um eco de futuros que ficaram pelo caminho. A saudade destes lugares que nunca habitámos não nos visita como uma lembrança concreta, mas como uma ausência insistente, uma sensação de que algo falta no fundo de tudo.
Será que criamos essas imagens porque tememos o vazio? Ou será que a imaginação nos atrai para territórios que, na sua distância, se tornam perfeitos? Afinal, o que nunca foi não pode falhar nem desiludir-nos.
O segredo? Aceitar a existência dessa saudade sem a necessidade de preenchê-la? Talvez ela esteja aqui para nos lembrar da vastidão de todas as nossas possibilidades, talvez seja o preço de sermos humanos: carregar connosco os fantasmas das vidas que nunca vivemos; talvez nos diga que há sempre algo mais, uma promessa escondida nas dobras do tempo, esperando o momento certo para ser revelada, ou talvez nunca o seja, e esteja tudo bem assim.
Sinto esta saudade como uma forma de resistir ao conformismo, um sussurro que me impele a imaginar mais, porque no fim, essa ausência também me define, não como uma falha, mas como uma lembrança subtil de que a vida é feita de escolhas e renúncias, e que há beleza tanto no que vivo quanto no que deixo por viver. Talvez estes impossíveis nunca se tornem reais, mas talvez não precisem de o ser. A beleza dessa saudade está no próprio acto de desejar.
D.
Signo do Escorpião
Para ti, saberás, não há descanso,
A paz não é contigo nem fortuna:
O signo assim ordena.
Pagam-te os astros bem por essa guerra:
Por mais curta que a vida for contada,
Não a terás pequena.
Os poemas possíveis, 1966 - José Saramago



