A minha mãe não levanta a voz, mas tudo nela sustenta. Segura o tecto sem exibir os braços, endireita o mundo com o silêncio de quem sabe que a estabilidade é uma arte invisível.
Foi ela que me ensinou Lisboa. Não a dos postais, mas a das margens, dos cacilheiros, das ruas, das estátuas viradas para o rio.
“Se te perderes, olha para onde elas olham, para o rio, ensinam-te o caminho para casa”, dizia, como se a cidade conspirasse a favor das crianças da outra margem que aprendem a ser livres.
Guardava uma nota dentro das minhas meias - logística de afecto - porque amar, no seu dicionário, era prever o extravio e garantir regresso.
Na livraria britânica, passávamos tardes inteiras. Às vezes deixava-me escolher um livro para levar, com a solenidade de quem me deixava escolher uma galáxia.
Depois, íamos comer fora. Que é como quem diz: uma sandes num café. Mas era fora. E isso bastava para que eu achasse que éramos sofisticadas. Cosmopolitas de uma sandes e um Sumol.
E assim, sem saber, ensinava-me a beleza: não como luxo, mas como presença.
De vez em quando, deixava-me fazer gazeta. Não por indiferença, mas por escuta. Sabia ler o corpo antes do boletim, discernir o cansaço que nem sempre se explica. E então ficávamos as duas em casa, ou íamos passear - fazer nada e tudo. Como quem entende que crescer não é só cumprir horários, mas também aprender a parar. Há melhor ensinamento do que este? O de observar, de comunicar sem falar, de legitimar o repouso como parte da vida? Era um dia sem escola - mas era, na verdade, uma lição inteira sobre cuidado.
Ao jantar, até os legumes tinham direito a narrativa. A cenoura era comboio e cada corte, uma carruagem; as couves, floresta; e a pescada cozida, o glorioso avião que transportava passageiros por entre perigos de batatas em puré e birras gastronómicas. Era só um jantar - mas era também teatro, ficção, evasão. E eu comia a história, não o prato.
O quotidiano, com ela, tornava-se literatura. Sem esforço, sem metáfora forçada - apenas com imaginação a arder devagar. E foi aqui, entre jantares encenados e tardes de fita gasta na máquina de escrever, que nasceu o gosto pelas palavras, o cinema, o detalhe, a composição. Sem o dizer, incutiu-me uma educação estética, um modo de olhar que valoriza o que não grita.
Ensinou-me a criar histórias com letras e palavras - quando havia algo para decorar na escola, inventávamos palavras cujas iniciais contavam uma pequena narrativa e a memória ganhava corpo, rosto e enredo. Não decorava, aprendia o ritmo da história. E era assim, com um método secreto entre nós, que os conteúdos se fixavam: pela beleza da invenção.
Ela organizava a casa como quem compõe silêncio. Recompensava-me as tarefas com gestos simples: 10 escudos para fazer a cama, 10 escudos para limpar o pó, 20 escudos para pôr a mesa. Ensinava que o labor é dignidade quando acompanhado por uma história. Não falava de sacrifício. Fazia-o arte.
Ainda hoje, reconhece quando o cansaço se esconde atrás dos olhos ou da minha voz, sabe perguntar sem invadir, e responde às minhas dúvidas com o mesmo olhar que me ensinou o caminho para o rio.
Se um dia me voltar a perder, sei que ela não me procurará com alarme, mas acenderá uma luz qualquer. E esperará, discreta, com a nota dobrada, como quem nunca deixou de acreditar que o amor é, acima de tudo, a arte de garantir que alguém sabe voltar para casa.
E eu volto sempre, para esta mãe que é casa e para esta casa que é Mãe.
D.



