© Diana V. Carriço / private archives / Firenze, 2018
O mundo está em festa, mas não daquelas que nos fazem dançar livremente. É uma espécie de baile de máscaras onde se misturam líderes autoritários, oligarcas disfarçados e multidões que os seguem, como se o espetáculo fosse inevitável. A música? Melodia para uma Tragédia Anunciada. A letra?Promessas de grandeza que ressoam como ecos distantes de tragédias passadas, compondo uma partitura que, como dizia Nietzsche, nos faz temer o abismo, mas ainda assim olhar para ele fascinados.
A música hipnotiza, o ritmo é familiar, e as máscaras oferecem o conforto de papéis bem definidos. Ninguém questiona o maestro porque a melodia já foi ensaiada tantas vezes - é mais fácil seguir a partitura do que admitir que estamos presos no mesmo refrão. Mas a música não nos pertence; somos apenas instrumentos de uma orquestra que desconhecemos.
Há algo estranhamente familiar nesta sinfonia. O fascismo não regressa porque o passado o chama, mas porque os vazios do presente o recebem de braços abertos. Hannah Arendt avisou: "O totalitarismo começa com o desprezo pelo factual," e, nesta composição, as notas da verdade são desafinadas pela cacofonia da desinformação. O maestro? As oligarquias que, como sempre, preferem o silêncio da obediência ao caos da liberdade.
O público? Escuta sem ouvir. Esta sinfonia não é apenas política; é uma dança antropológica. Sociedades feridas pela incerteza agarram-se a narrativas simples, mesmo que ilusórias. Como diria Sartre, "o inferno são os outros," e nunca como agora os "outros" foram tão essenciais: o imigrante, o intelectual, o transexual, o pobre, qualquer um que desafine no coro da ordem perfeita.
E como chegámos aqui? Entre os ecos da desigualdade, da manipulação e do desamparo. Tocamos uma melodia que soa a progresso, mas o tempo mantém-se em ostinato, repetindo os mesmos erros. Somos criaturas que temem o vazio, que procuram respostas rápidas para perguntas que mal compreendemos. E é precisamente nesse medo que o extremismo e as oligarquias dançam, lado a lado, compondo um requiem para a esperança.
Parar para ouvir, não a música, mas o silêncio entre as notas. Talvez seja ali, que resida o que procuramos - no intervalo, no que não é dito mas que existe. John Cage, acreditava que o silêncio não era vazio, mas cheio de possibilidades e desafiou-nos a ouvir o que muitas vezes ignoramos: o mundo que respira, os ruídos que nos rodeiam, e até os sons que produzimos sem intenção.
Para Cage, o silêncio era uma forma de música, uma composição sem intenção explícita, onde cada som, por mais ínfimo, encontra o seu lugar. A sua obra mais célebre, 4’33”, não é sobre o silêncio absoluto, mas sobre o que emerge na ausência de notas controladas: o barulho de uma cadeira a ranger, a respiração do público, o som do mundo a acontecer. Não há silêncio puro, dizia Cage, porque o mundo não se cala. Insistimos em impor uma melodia controlada, sem perceber que, por vezes, a dissonância é o que mantém a música viva.
O problema não é que a história se repita, mas que continuemos a aplaudir os mesmos erros, como se a tragédia fosse a nossa sinfonia favorita. A dissonância é o verdadeiro grito da verdade num mundo que insiste em melodiar o conformismo. É hora de desafinar de propósito, de quebrar o ritmo e arriscar a dissonância, de aceitar que a beleza não precisa de um compasso rígido para soar. Não precisamos de maestros; precisamos de compositores. E, ao ouvir o silêncio, conseguimos reescrever a partitura - uma que não exclua vozes, não tema o caos e encontre beleza na polifonia das diferenças.
É preciso mudar o tom.
D.



