© Diana V. Carriço / private archives / Firenze, 2018
Uma das formas mais cómodas de resignação consiste em chamar “tragédia anunciada” àquilo que ainda está a acontecer. A expressão dá-nos a satisfação amarga de quem reconheceu os sinais, como se ter previsto a queda nos retirasse do lugar onde ela vai acontecer. O mundo pode continuar a degradar-se, desde que conservemos a frase que prova que já sabíamos. Inquieta-me essa lucidez sem consequência, essa maneira de comentar o desastre até ele adquirir a familiaridade de uma música de fundo, presente em toda a parte e, por isso, quase impossível de escutar.
A linguagem autoritária pode instalar-se nessa familiaridade. Repete palavras que parecem dispensar explicação - ordem, segurança, grandeza - e oferece-lhes um corpo, uma voz, alguém que promete resolver o que a discussão colectiva tornou demorado e difícil. A promessa inclui um alívio: deixar de ter de suportar a complexidade, confiar que alguém sabe, aceitar que a força pode fazer depressa aquilo que a política não conseguiu fazer bem. A obediência começa a parecer uma forma de descanso, sobretudo quando a liberdade nos é apresentada como a obrigação de resolvermos sozinhos problemas que nunca foram apenas nossos.
Na história do fascismo, a humilhação foi organizada em torno de promessas de restituição: recuperar uma grandeza supostamente roubada, recompor a unidade do grupo, entregar o seu destino a um chefe que se apresenta como a encarnação da comunidade. O passado torna-se uma reserva de imagens escolhidas à medida do ressentimento. Os seus conflitos e desigualdades desaparecem da composição, para que a promessa de regresso possa oferecer a tranquilidade de uma casa onde muitos nunca tiveram lugar.
É preciso, depois, dar um rosto àquilo que impede o regresso. O imigrante, a pessoa trans, o pobre convertido em suspeito de preguiça ou de abuso: alguém cuja existência possa ser apresentada como a razão íntima de um mal-estar colectivo. Uma angústia difusa ganha assim um destinatário próximo, visível, vulnerável. Quem mal consegue pagar a sua vida é convidado a vigiar quem recebe ainda menos, enquanto a distribuição da riqueza permanece fora do enquadramento. A operação tem uma eficácia cruel ao oferecer a quem se sente diminuído a possibilidade de exercer poder sobre alguém, sem alterar as condições que o diminuem.
Olhar apenas para o ressentimento das multidões deixaria, contudo, uma parte decisiva da história por contar. Como sublinha Robert Paxton, a chegada dos fascismos ao poder também passou pela colaboração de elites conservadoras que lhes abriram caminho. Interessa-me essa zona em que a retórica de ruptura se torna compatível com a preservação de privilégios, em que quem se apresenta como inimigo do sistema encontra aliados entre os seus beneficiários. O poder organiza-se também por convergência de interesses, por concessões sucessivas, pela disposição de sacrificar as garantias dos outros em troca da protecção do que se possui. A violência pode começar a parecer tolerável a quem acredita que saberá mantê-la longe da sua porta.
Defender a democracia exige, por isso, mais do que pedir fidelidade às suas instituições. Exige perguntar que experiência da democracia é oferecida a quem trabalha sem conseguir construir uma vida, a quem procura casa, cuidados de saúde, tempo para estar com os seus, e recebe em troca uma explicação sobre a necessidade de esperar. Uma ordem política que pede paciência deve poder responder pelo destino desse tempo. Interessa-me uma democracia em que a capacidade de decidir sobre a vida comum não seja proporcional ao património de cada um, em que a igualdade tenha consequências para lá da cerimónia do voto.
Hannah Arendt identificou, na sua análise do totalitarismo, o perigo de uma população para quem se desfazem as distinções entre facto e ficção, entre verdadeiro e falso. Leio nesse diagnóstico uma ameaça que ultrapassa a circulação de mentiras: a destruição das condições que nos permitem discutir alguma coisa em comum. Quando toda a prova pode ser descartada como propaganda e toda a acusação devolvida como opinião, a lealdade ao grupo pode ocupar o lugar do juízo. A frase “são todos iguais” acaba por dispensar o trabalho de distinguir responsabilidades. O desencanto torna-se, assim, extraordinariamente útil à impunidade.
Seria confortável atribuir esta desistência à ignorância dos outros. Mas o cansaço também tem uma história, um horário de trabalho, uma renda, um corpo que chega ao fim do dia sem disponibilidade para outra exigência. Penso numa mesa de cozinha onde se fazem contas enquanto alguém fala, na televisão, de mais um sacrifício necessário. Quem pede atenção política a essa pessoa precisa de reconhecer o esforço de que a sua própria capacidade de escutar depende. Uma democracia não pode gastar as pessoas até à exaustão e depois censurá-las por já não terem energia para a defender.
É aqui que regresso à música, a uma experiência que desloca a pergunta sobre o que merece ser ouvido. Em 1952, na primeira apresentação de 4′33″, de John Cage, David Tudor sentou-se ao piano e marcou os três movimentos da obra sem tocar as teclas. A sala continuou cheia de sons: vento, chuva, os movimentos e as reacções do público. O que habitualmente ficaria nas margens de um concerto tornou-se matéria da escuta. A interrupção daquilo que se esperava ouvir permitiu reparar no que já estava a acontecer.
O que retiro politicamente desse gesto é uma pergunta sobre a distribuição da atenção. Quem decide que uma experiência conta como discurso e que outra não passa de ruído? A inquietação de quem investe recebe linguagem técnica, tempo de antena, o estatuto de assunto sério; a inquietação de quem não consegue viver do seu trabalho pode ser reduzida a impaciência, desinformação ou incapacidade de compreender as contas. Quando uma sociedade aprende a reconhecer como racional apenas uma parte dos seus interesses, a exclusão já está inscrita na maneira como escuta. Certas vozes têm de justificar até o direito de interromper.
A dissonância, por si só, também não nos salva. O discurso autoritário gosta de se apresentar como escândalo, como coragem de dizer o proibido, como afronta a uma ordem que acusa de sufocar a liberdade. Importa perguntar o que essa transgressão permite e a quem: se abre possibilidades de existência ou se apenas reclama licença para humilhar. Uma polifonia política exige condições para que as vozes se sustentem, para que possam organizar-se, discordar e influir nas decisões. Escutar alguém inclui admitir que o que essa pessoa diz possa obrigar-nos a alterar a distribuição do espaço, do tempo e dos recursos. A escuta torna-se política quando começa a custar alguma coisa a quem estava habituado a decidir sozinho.
É deste lugar que escrevo: da desconfiança perante o inevitável, da dificuldade em aceitar que o sofrimento se torne paisagem só porque aprendemos a atravessá-lo todos os dias. Interessa-me o que uma obra, uma ideia ou um encontro conseguem deslocar em nós, e o que fazemos depois com esse desvio. Gostava de conservar essa exigência mesmo quando a frase é bela, mesmo quando a metáfora parece resolver tudo: voltar à vida concreta, à mesa onde as contas continuam por fechar, à pessoa que ainda espera ser ouvida. A música pode ajudar-nos a reparar. A responsabilidade pelo que fazemos com essa atenção continua a ser nossa.
É preciso mudar o tom.
D.



