O Triunfo da Morte (c. 1562) de Pieter Bruegel (o Velho)
Este texto nasce de uma inquietação antiga. Não recente, não reactiva, não circunstancial. Sou determinista, não por pose intelectual, mas por convicção amadurecida, repetidamente confirmada pela observação do mundo e pela experiência concreta da vida. Sempre me pareceu estruturalmente incompatível acreditar, ao mesmo tempo, num universo governado por cadeias causais - biológicas, sociais, económicas, históricas - e na ideia reconfortante de que o mérito individual explica, de forma suficiente, os lugares que ocupamos. Durante muito tempo, esta incompatibilidade foi apenas isso: um desconforto teórico, uma fricção silenciosa entre o que se diz e o que efectivamente acontece.
Nos últimos meses, porém, essa fricção transformou-se em comichão. Discursos de Ano Novo, campanhas presidenciais, declarações proferidas com solenidade em horário nobre, repetindo a mesma ladainha moral sob a aparência de inspiração. A meritocracia voltou a ser convocada como verdade evidente, como fundamento ético da ordem social, como resposta simples para problemas densos. Quando uma ideia se repete sem resistência, quando passa de opinião a pressuposto, de metáfora a dogma, deixa de ser apenas um problema filosófico. Torna-se um problema político e inevitavelmente, um problema democrático.
É uma das ficções mais bem-sucedidas do nosso tempo, a meritocracia. Apresenta-se como virtude, disfarça-se de justiça, soa a progresso, e no entanto funciona sobretudo como um mecanismo sofisticado de ocultação. Oculta o acaso, oculta a desigualdade estrutural, oculta o determinismo que antecede quase tudo aquilo a que gostamos de chamar escolha. É uma narrativa elegante, eficaz, fácil de transmitir e ainda mais fácil de consumir, precisamente porque absolve o sistema e responsabiliza o indivíduo.
Quando Luís Montenegro invocou Cristiano Ronaldo como prova viva de que “podemos ser o que quisermos” se nos esforçarmos o suficiente, não está apenas a recorrer a uma metáfora infeliz. Está a condensar, numa imagem consensual e emocionalmente potente, uma visão do mundo profundamente simplista e perigosamente moralizadora. Está a transformar uma excepção estatística - fisicamente falando, note-se - num imperativo ético. Está a vender o acaso como mérito e o privilégio como virtude. Está, no fundo, a dizer que o mundo é justo e que, se não o parece, o problema está nos indivíduos e na preguiça coletiva de um povo. E isto não é um ataque ad hominem. É um diagnóstico. Um diagnóstico do estado do discurso político, da sua crescente banalização, da facilidade com que frases ocas ocupam o lugar do pensamento. Não se acusa um homem; descreve-se uma decadência.
Façamos então o exercício que raramente é feito em público, talvez porque desmonta demasiado depressa a encenação. Imaginemos que Ronaldo não tinha sido descoberto. Não por falta de talento, não por ausência de disciplina, mas porque a vida, indiferente a narrativas edificantes, decidiu intervir. Um acidente banal na adolescência. Uma perna partida numa noite errada. Um corpo que deixa de responder. Fim da trajectória. Nenhuma carreira. Nenhuma ascensão. Nenhuma história exemplar para ser usada em discursos políticos. Onde ficaria, nesse cenário perfeitamente plausível, o mérito?
Esta hipótese não é absurda nem marginal. É, pelo contrário, a regra silenciosa da maioria das vidas. A esmagadora parte do talento humano nunca chega a tornar-se visível, não porque falhe moralmente, mas porque é interrompido, desviado ou esmagado por factores que não escolheu: o corpo em que nasceu, a família que lhe coube, o território, a escola, a saúde, o momento histórico, a sorte ou a ausência dela. A meritocracia começa sempre pelo fim - pelo sucesso - e inventa-lhe depois uma causa nobre. É uma narrativa retrospectiva, confortável e intelectualmente preguiçosa.
O que este discurso recusa frontalmente é o determinismo. A ideia, profundamente incómoda, de que somos resultados antes de sermos agentes. De que a genética, o contexto social, a estabilidade emocional, a rede de apoio, a exposição a oportunidades e até a simples sorte moldam de forma decisiva aquilo que mais tarde chamamos esforço, vontade ou ambição. O talento não é uma decisão. A resiliência não é distribuída de forma equitativa. A capacidade de persistir não nasce no vazio. Tudo isto antecede o indivíduo, condiciona-o, limita-o, orienta-o muito antes de qualquer gesto consciente.
Aceitar isto seria devastador para a retórica meritocrática, porque deslocaria a culpa. Obrigar-nos-ia a repensar justiça, redistribuição, responsabilidade colectiva. Obrigar-nos-ia a admitir que o sucesso não é prova de virtude, assim como o fracasso não é falha moral. Obrigar-nos-ia, em suma, a abandonar o conforto da fábula individualista que sustenta grande parte do discurso político contemporâneo e da própria construção das sociedades.
É neste ponto que a questão deixa de ser apenas política e se torna, inevitavelmente, mediática. Porque quando este tipo de discurso entra no espaço público sem contraditório, o que se produz não é pensamento, é volume. A expressão popular “encher chouriços” ganha aqui um significado quase literal: palavras em série, ideias processadas em massa, fórmulas repetidas até perderem densidade, mas não eficácia. O pensamento torna-se industrial, homogéneo, previsível. Há pouca resistência e quase nenhum debate intelectualmente honesto. Há, quando muito, gritaria.
E a gritaria produz apenas som. Não produz melodia. Não constrói harmonia, não cria tensão produtiva, não abre espaço para escuta. Produz, no máximo, a visualização de uma realidade cheia de certezas e quase sem dúvidas. Um espaço onde todos parecem saber exactamente o que pensam, mas raramente pensam verdadeiramente sobre o que dizem. E é isso que mais me inquieta.
Porque o jornalismo, em especial, não existe para amplificar ruído. Existe para introduzir fricção. Para interromper automatismos. Para tornar instável aquilo que se apresenta como evidente. Quando um líder político diz qualquer coisa como “todos podem ser como Ronaldo”, a pergunta jornalística não é “como”, é “quem não pode, e porquê”. Não é “que lição retiramos”, é “que realidades estão a ser apagadas”. Não é “mensagem positiva”, é “que mundo está a ser legitimado por esta mensagem”.
Os media continuam a ser uma das últimas trincheiras da democracia precisamente porque ainda podem tornar o discurso desconfortável. Porque ainda podem recusar a anestesia da narrativa edificante. Porque ainda podem insistir na complexidade quando tudo empurra para a simplificação. A sua função não é tranquilizar o público. É mantê-lo desperto.
Estamos cansados, é verdade. Cansados de crises, de ambiguidades, de pensar contra a corrente. Não pensar é confortável. Repetir slogans é confortável. Acreditar que o mundo é justo porque nos dizem que é, também. Mas a democracia nunca foi um regime de conforto. É um regime de tensão permanente, de conflito de ideias, de vigilância crítica.
Questionar a meritocracia não é atacar o esforço. É recusar a mentira. É desmontar a moralização do sucesso e a criminalização silenciosa do fracasso. É afirmar que o mundo é mais determinado, mais desigual e mais arbitrário do que os discursos motivacionais admitem.
E é exigir que quem tem voz pública, sobretudo jornalistas, tenha a coragem de fazer as perguntas que ninguém faz, mesmo quando elas não cabem no tempo curto do horário nobre. Porque quando o pensamento abdica da complexidade, não descansa. Desiste. E essa desistência, travestida de neutralidade, é potencialmente a forma mais perigosa de colaboração com a erosão democrática.
D.



