Illustration by Ben Kothe
Os grandes exploradores do passado lançavam-se ao mar em caravelas frágeis, com mapas desenhados por bêbados e fé cega em monstros marinhos que, pelo menos, tinham a decência de ser discretos e não aparecer - mantinham-se mitos. Hoje, a exploração é outra: não de oceanos desconhecidos, mas de delírios privados com cheques em branco e a modéstia de um déspota renascentista. Elon Musk quer Marte porque acha que um planeta inteiro parece-lhe o espaço adequado para o seu ego – um bilhete só de ida, se faz favor – e Trump quer a Gronelândia porque, sob todo aquele gelo inútil, há petróleo, minerais raros e a oportunidade de espetar um letreiro dourado a gritar “TRUMP” no meio do Ártico. Cada um com as suas obsessões: eles próprios.
Exagero? Talvez. Mas convenhamos: nunca houve tanto dinheiro concentrado em tão poucas mãos e, no entanto, cá estamos, ainda a lidar com problemas dignos da Idade Média – fome, epidemias, pandemias e tiranos a fazer cosplay de conquistadores. O século XXI prometia inteligência artificial para resolver os problemas do mundo – afinal, a natural anda a falhar há séculos – mas o que nos deram foi Musk a desmantelar redes sociais duvidosas e Trump a brincar ao Napoleão com um mapa do Canadá e uma caixa de giz.
Musk, o visionário de serviço, passa os dias a falhar prazos para revoluções tecnológicas que nunca chegam e a despedir engenheiros com mais rapidez do que os seus carros pegam fogo espontaneamente. Chamam-lhe génio porque manda foguetes para o céu, como se não fossem tecnologias desenvolvidas há meio século por cientistas soviéticos com menos orçamento do que um episódio de Stranger Things. Apresentam-no como um rebelde contra as elites, ignorando convenientemente que ele é a elite – só que com pior gosto para roupas e uma obsessão alarmante por memes duvidosos. E enquanto ele nos vende a ideia de colónias marcianas, as suas fábricas por aqui operam em condições que fariam os trabalhadores do século XIX repensarem o conceito de exploração laboral.
E depois, Trump. Um vendedor de casinos “falidos” que um dia acorda e decide que quer comprar a Gronelândia - porque sim e porque é um grandessíssimo burgesso. O plano não correu bem mas a persistência é uma virtude, e não me surpreenderia se amanhã estivesse a licitar uma parte ou, quem sabe, a lua, desde que haja espaço para um resort com o nome dele a brilhar em néon. A ideia de que fronteiras são negociáveis faz sentido para um homem que considera que a democracia é uma questão de branding e que acredita piamente que mapas foram feitos para ser rabiscados com marcador permanente.
O mais extraordinário? Há quem os admire. Musk, que promete Marte enquanto ignora que as suas fábricas na Terra operam em condições que fariam Dickens sentir vergonha alheia, e Trump, que redesenha fronteiras como quem joga Monopoly, tudo isto enquanto o mundo arde, os oceanos sobem e milhões continuam a morrer de doenças que um pouco de bom senso e menos megalomania já poderiam ter erradicado. Que visionários, não é? Se há dinheiro para lançar Teslas para o espaço, não há dinheiro para acabar com a fome? Se há orçamentos para colonizar Marte, não há para reconstruir cidades destruídas por guerras que eles próprios ajudaram a financiar?
Mas o futuro está garantido. No dia em que a Terra se tornar verdadeiramente inabitável, Musk há de vender bilhetes para Marte – em três prestações sem juros - e Trump há-de proclamar que Marte é território americano, desde que haja espaço para um campo de golfe e um McDonald’s. E seguimos, presos nesta tragicomédia mundana com laivos cósmicos, enquanto meia dúzia de magnatas brincam aos deuses falhados, moldando o futuro como crianças aborrecidas num recreio privatizado.
D.



