Losing (Her Meaning) de Marlene Dumas (1988)
Queria escrever sobre outras coisas. Sobre aquilo que me permite suspender o peso do mundo, criar pequenas fugas privadas, territórios de respiração onde a realidade abranda a sua autoridade. Há sempre em mim uma tentação legítima de escrever para escapar da violência, do ruído, da repetição exaustiva do desastre e da vida em geral. A escrita, tantas vezes, é isso: uma tentativa de sobreviver intacta. Mas há momentos em que a realidade se torna demasiado densa para ser contornada, não por ser mais ruidosa, mas por se infiltrar - deixa de ser fuga para se tornar cumplicidade silenciosa. Escrever, nestes momentos, deixa de ser escolha estética e passa a ser fricção ética. Não porque a escrita resolva alguma coisa, muito menos um pequeno espaço aqui no substack, mas porque o silêncio começa a pesar mais do que o desconforto da palavra. Há realidades que não permitem distracção sem custo.
Escrevo isto num momento em que uma guerra aberta contra o Irão ocupa o espaço inteiro da atenção, enquanto a libertação em massa dos Epstein Files desaparece quase por completo do discurso público. Não desapareceram porque perderam relevância, desapareceram porque foram substituídos, e talvez seja por isso que se torna necessário continuar a falar deles. Não vou dizer que bombas são lançadas para abafar PDFs - isso seria simplista para descrever psicopatias profundas - mas seria ingenuidade ignorar que guerra e escândalo participam do mesmo teatro de saturação. Vivemos numa era de psicopatia descontrolada, e digo isto sem desprimor para os psicopatas diagnosticados clinicamente, uma era em que vidas, choques e horrores são geridos com a frieza de uma grelha de programação.
Há semanas que os Epstein Files desapareceram da televisão. Sem anúncio, sem conclusão, sem consequência, apenas substituídos.
Desapareceram. E nós deixámos.
A pergunta não é apenas o que aconteceu aos documentos, mas o que acontece connosco para aceitarmos isto com tanta facilidade. Como é que nos deixamos capturar por esta sucessão de focos, por esta gestão quase cirúrgica da atenção, onde o que ontem era insuportável hoje já não existe? É retórica.
Quando ainda se falava dos Epstein Files, antes de serem engolidos pelo fluxo seguinte, o que mais me perturbava não era apenas o horror óbvio dos crimes revelados. Esse horror é incontornável, brutal, e não há espaço para relativizações morais. O que me perturbava, e perturba, é a pobreza intelectual com que continuamos a falar do assunto, em rigor: a rapidez com que o discurso público se fecha sobre a punição, sobre a monstruosidade individual, sobre a indignação ritual, como se isso fosse suficiente. Prenda-se o antigo príncipe - como se o problema estivesse localizado, resolvido, circunscrito a um conjunto de corpos já nomeados e socialmente condenados. Não está. A obsessão com o castigo - necessário, evidente, mas constantemente tardio - funciona como uma forma de alívio moral. Permite-nos acreditar que a justiça coincide com o fim do problema. Mas a justiça chega sempre depois. Depois do corpo violado, depois da infância interrompida, depois da vida rasgada. A pergunta verdadeiramente incómoda não é quem fez, mas como é que isto continua a ser possível.
Vamos por partes, que isto vai ser longo - há várias formas de desistir a meio, eu experimentei algumas, mas acabei sempre por voltar.
Primeiro, existe um erro central que atravessa quase todos os comentários, documentários e debates mediáticos: a confusão entre pedofilia enquanto perturbação psiquiátrica e abuso sexual enquanto crime de poder. Esta confusão é intelectualmente desonesta e politicamente inútil. A maioria dos homens, se não todos, envolvidos neste caso e nesta rede de influência não age movida por uma compulsão clínica incontrolável (pedofilia). Age porque tem acesso, cobertura, silêncio, impunidade. Não é o desejo que explica o crime, é a possibilidade. E a possibilidade é produzida social e politicamente.
Esta camada que existe e raramente entra nesta discussão não por falta de relevância, mas por excesso de medo moral: a pedofilia enquanto perturbação psiquiátrica, distinta do crime de abuso sexual é sistematicamente tratada de forma confusa, alarmista e intelectualmente preguiçosa. A pedofilia, enquanto diagnóstico clínico, não é sinónimo de crime. É uma perturbação psiquiátrica, mais especificamente do desejo. O abuso sexual é um acto. A diferença não é semântica, é ética, jurídica e preventiva. Misturá-las satisfaz a sede punitiva, mas sabota qualquer política séria de prevenção. Porque se tudo é crime, nada pode ser tratado antes de o ser. Nada disto que escrevo diminui um milímetro a gravidade dos crimes de abuso sexual, pelo contrário: é precisamente porque são intoleráveis que precisamos de distinguir para prevenir.
O discurso público tende a mencionar a pedofilia nestes casos, mas fá-lo quase sempre como insulto absoluto, como essência monstruosa, como categoria moral irredimível. O pedófilo surge como figura abjecta, ontologicamente perdida, alguém que deve ser erradicado, e nunca compreendido e tratado. Esta abordagem pode parecer justa à superfície, mas produz um efeito perverso e profundamente irresponsável: empurra pessoas que sabem que têm este padrão de desejo para o silêncio total. Numa sociedade onde a pedofilia é tratada exclusivamente como mal absoluto, não há espaço para pedir ajuda antes do crime e portanto, evitá-lo. Não há linguagem possível para dizer “há algo em mim que não escolhi e que preciso de tratar”. O estigma não protege crianças, o estigma protege o segredo.
Do ponto de vista clínico, é devastador. As próprias definições internacionais distinguem claramente entre perturbação e comportamento criminoso - não para relativizar o dano, mas para o evitar. Essa distinção desaparece do debate público porque exige maturidade ética e coragem política. Exige aceitar que prevenir é sempre menos confortável do que punir. O resultado é um paradoxo cruel: quanto mais gritamos “monstros”, menos sabemos quem são, onde estão, ou como intervir antes que alguém seja ferido. Criámos um modelo discursivo em que só se pode falar depois do crime, nunca antes. A sociedade aceita pagar o preço do abuso consumado, mas recusa investir na prevenção silenciosa, clínica, incómoda, porque isso implicaria admitir que o “mal” não é sempre uma escolha consciente e neste caso, é consciente. O caso Epstein não é, obviamente, sobre pedofilia.
E é aqui também que a palavra “mal” entra como anestesia. Chamamos “mal” ao que não queremos pensar estruturalmente. O mal surge como essência individual, quase metafísica, um defeito da alma que permite isolar o problema num sujeito excepcional - o monstro - e absolver o sistema que o protegeu (e criou, também) durante décadas. A figura do monstro é cómoda. Evita perguntas sobre redes, elites, instituições, cumplicidades. O monstro fecha o assunto. A presença de nomes como o de Noam Chomsky nos Epstein Files provoca tanto escândalo performativo por isso: não porque nos revele algo verdadeiramente novo sobre o caso, mas porque nos rouba um amuleto moral. Para muita gente, Chomsky era a prova viva de que a crítica à violência estrutural nos imuniza de qualquer contaminação. De repente, os e-mails, os convites, as viagens, a leveza com que tratou um abusador condenado mostram outra coisa: que se pode passar décadas a denunciar o império e, ainda assim, normalizar a proximidade a uma elite predadora concreta.
Há uma certa banalidade do mal e não creio que seja para o minimizar, mas para o retirar do campo do excepcional. O mal moderno não se apresenta como ruptura moral, mas como continuidade funcional. Apresenta-se como rotina, como procedimento, como silêncio administrado. O que choca não é a perversão explícita, é a normalidade com que tudo continua a funcionar à sua volta. E isto não é novo. O abuso sexual de mulheres e de menores não é um desvio histórico, é uma constante. Durante séculos, o corpo feminino foi tratado como território, não como sujeito. A violação não era um crime contra a mulher, mas uma ofensa à propriedade de outro homem. O dano era patrimonial, não existencial. O trauma era irrelevante porque a mulher não era considerada plenamente pessoa. Esta lógica não desapareceu com a modernidade, tornou-se mais sofisticada, mais jurídica, mais silenciosa.
O mesmo acontece com os corpos infantis. A infância, enquanto espaço de protecção absoluta, é uma invenção tardia. Historicamente, as crianças foram propriedade, mão-de-obra, garantia de linhagem, o abuso sexual de menores floresce precisamente onde a autoridade é opaca e incontestável: na família fechada, na instituição religiosa, na elite económica. A impunidade não é uma falha ocasional, é uma característica estrutural do poder.
Eu sei que cito Michel Foucault muitas vezes mas, ele mostra como o poder opera menos pela violência explícita do que pela gestão dos corpos e dos discursos. O silêncio não é ausência de linguagem, é uma tecnologia e o silêncio em torno do abuso é uma das tecnologias mais antigas do poder. Cala-se porque calar preserva hierarquias.
Outro erro persistente no comentário mediático, e talvez mais politicamente útil, é a forma como o patriarcado é narrado como uma guerra entre homens e mulheres e esta leitura falha novamente alvo. O patriarcado não é um sistema que beneficia homens enquanto grupo, é um sistema que beneficia pessoas com poder. Os homens sem poder não são seus aliados, são a sua matéria descartável. O patriarcado é uma ideologia de dominação. Os homens sem poder são educados para a obediência, para a violência dirigida, para o sacrifício glorificado. São enviados para a guerra, para o trabalho mortal, para a morte precoce, enquanto lhes dizem que o que devem temer são as mulheres, os corpos indisciplinados, os desvios à norma. Os homens com poder sempre souberam isto. Sempre souberam que, para manter intacta a hierarquia, o medo não podia apontar para cima. Tinha de apontar para baixo. As mulheres foram historicamente construídas como ameaça difusa à moral, à ordem, à linhagem. A sua sexualidade foi tratada como perigo, o seu saber como heresia, a sua autonomia como desordem. Não porque detivessem poder estrutural, mas porque representavam a possibilidade simbólica de ruptura.
A violência sexual inscreve-se aqui como instrumento disciplinar. Não é excesso, é método. O patriarcado precisa de mulheres domesticadas e de homens sacrificáveis. Precisa de corpos femininos disponíveis e de corpos masculinos descartáveis. Precisa que ambos acreditem que estão em lados opostos para que nenhum olhe para quem realmente manda e é por isso que casos como Epstein não são aberrações: são revelações tardias de uma lógica antiga. O escândalo não está apenas no crime, mas na persistente surpresa. Como se não conhecêssemos a história. Como se a impunidade das elites fosse um acidente e não uma tradição.
Resta então a pergunta que quase nunca aparece nos comentários políticos, e quando aparece é rapidamente neutralizada: como se evita isto? Não depois. Antes. Não como punição exemplar, mas como interrupção do mecanismo.
A ausência persistente desta pergunta não é um lapso discursivo, é um sinal de cumplicidade estrutural. Falar de prevenção implica admitir que o problema não reside apenas em indivíduos desviantes, mas na forma como organizámos o poder, o acesso, o segredo e a impunidade. Implica aceitar que o sistema, tal como existe, produz risco. E isso é politicamente inconveniente. Prevenir não é um acto moral, é um acto estrutural; falar de prevenção obriga a falar de tráfego de influências, de redes informais de protecção mútua, de economias simbólicas onde favores circulam com mais eficácia do que leis. Obriga a reconhecer que estes crimes não sobrevivem apenas pela violência directa, mas pela circulação subterrânea de capital social: quem conhece quem, quem deve a quem, quem cala para não cair.
Isto não nasce com Epstein. Epstein é apenas um ponto visível de uma tradição longa. A história do poder é também a história da sua capacidade de se auto-amnistiar. Desde as cortes absolutistas às oligarquias financeiras contemporâneas, o princípio mantém-se: o poder protege o poder. Não por conspiração permanente, mas por afinidade estrutural. Quem tem algo a perder reconhece-se. Quem partilha privilégios partilha silêncios.
Quando estudei design de produto em Milão, o meu professor Lorenzo Palmeri insistia na palavra progettazione: não como fetiche técnico, mas como modo de estar no mundo. Progettare não era desenhar um objecto bonito, era assumir responsabilidade sobre a cadeia inteira que o torna possível – do primeiro esboço à forma como se gasta, se parte, se torna lixo. Essa ideia nunca mais me abandonou, porque é impossível não a aplicar ao resto: também o mundo em que vivemos é um projecto, um conjunto de decisões de desenho, de arquitectura, de circulação de poder. Se aceitarmos essa imagem, a pergunta deixa de ser apenas “como é que isto acontece?” e passa a ser mais desconfortável: que mundo estamos a projetar activamente? Em que briefing silencioso é que decidimos que certos corpos seriam sempre matéria-prima descartável do sistema? Falhamos na progettazione em todas as fases – no planeamento, na definição de critérios, na avaliação de risco, até na imaginação de alternativas – e depois fingimos surpresa com o resultado, como se não tivéssemos assinado o desenho. Somos brilhantes a desenhar exactamente os efeitos que fingimos lamentar.
Acredito que é aqui que a prevenção se torna verdadeiramente incómoda, porque deixa de ser uma questão de moral individual e passa a ser uma questão de arquitectura política. Como prevenir num mundo onde o acesso ao corpo vulnerável é mediado por estatuto, onde a denúncia colide com advogados, fundações, partidos, igrejas, conselhos de administração? Como prevenir quando o crime não é um desvio do sistema, mas um efeito colateral da sua forma de funcionamento? A pergunta correcta talvez não seja como se evita, mas o que teria de deixar de existir para que isto deixasse de ser previsível.
Prevenir implica quebrar circuitos de influência. Implica tornar o favor suspeito, a proximidade ao poder desconfortável, a acumulação de estatuto um risco e não um escudo. Implica destruir a ideia de que certas pessoas são “demasiado importantes” para cair. Enquanto houver pessoas estruturalmente incontestáveis, haverá corpos estruturalmente violáveis.
Historicamente, a impunidade nasce sempre no mesmo lugar: na confusão entre autoridade e virtude. Reis ungidos, padres sagrados, benfeitores intocáveis, filantropos blindados. A protecção do poder foi sempre justificada por uma narrativa superior - Deus, Pátria, Progresso, Mercado. A linguagem muda, a função mantém-se: suspender o escrutínio em nome de algo maior. É aí que o abuso se instala com método, não com pressa.
Falar de prevenção, portanto, não é falar de sensibilização abstracta. É falar de desmantelamento. De transparência forçada, de incompatibilidades reais entre poder económico, político e institucional, de sistemas de denúncia que não dependam da coragem individual, mas que funcionem como automatismos, de retirar às elites a capacidade de gerir o tempo - prescrever, adiar, negociar, cansar. Começa também por algo simples e profundamente impopular: não confiar no poder. Nenhuma concentração extrema de poder - económico, religioso, político, simbólico - pode coexistir com protecção efectiva dos vulneráveis. Onde há autoridade sem escrutínio, há abuso à espera, não por maldade metafísica, mas por estatística social. A prevenção exige limitar poder, fragmentá-lo, torná-lo auditável, aborrecido, vulnerável à denúncia. Exige transformar o segredo de virtude em risco, a reputação institucional em detalhe secundário, a denúncia em procedimento protegido e não em suicídio social.
Importa dizer que não estou a banalizar a punição. Neste caso concreto, a punição destes criminosos não é apenas retributiva, é um acto preventivo estrutural. Punir aqui não é moralizar o passado, é interromper circuitos, romper redes, introduzir instabilidade onde durante décadas houve certeza de impunidade. Cada condenação efectiva é uma fissura real na ideia de intocabilidade. Um início, tardio e incompleto, de desmoronamento. Quando a punição atinge verdadeiramente o poder, quando atravessa estatuto, capital e influência, deixa de ser simbólica. Torna-se pedagógica no sentido mais cruel do termo: ensina que o privilégio já não garante imunidade absoluta, que o silêncio já não é blindagem suficiente. Nesse ponto, punir é também prevenir.
Mas há uma parte que a optimista em mim resiste a escutar: a parte niilista - não cínica, mas histórica, e profundamente certa. Porque a história mostra que os sistemas raramente se transformam por justiça. Transformam-se por gestão do escândalo. Punem alguns para salvar muitos, sacrificam figuras exemplares para preservar a arquitectura, criam a ilusão de eficácia para que o essencial permaneça intacto. O sistema sabe punir quando a punição se torna necessária para a sua própria sobrevivência. Há sempre o risco de a punição funcionar como ritual expiatório: alguns caem para que a crença na ordem se mantenha, alguns pagam para que o mecanismo continue operacional, apenas mais cauteloso, mais opaco, mais sofisticado. A justiça transforma-se, assim, num instrumento de contenção e não de transformação. É por isso que a punição, sendo necessária, nunca é suficiente. E é por isso que a prevenção não pode confiar apenas na exemplaridade. Exemplos educam, mas também anestesiam e produzem a sensação de encerramento. Permitem que tudo continue, com ligeiros ajustes.
Talvez o ponto mais honesto esteja nesta tensão insolúvel: precisamos da punição para abrir brechas, mas não podemos confiar nela para refazer o edifício. Precisamos que alguns caiam, sabendo que o sistema aprende depressa a escolher quem cai e quem nunca cairá.
O optimismo possível não é o da redenção institucional, é o da erosão contínua, da insistência, da recusa em aceitar cada punição como ponto final. Um optimismo duro, sem promessa, quase ingrato sabe que cada avanço pode ser absorvido, mas insiste porque a alternativa é a normalização absoluta.
Há coisas no caso Epstein que nunca serão investigadas a fundo, não porque sejam impossíveis de apurar, mas porque a sua investigação implicaria colapso sistémico, não apenas responsabilização individual. A primeira é a cartografia completa das redes de influência. Não falo de listas sensacionalistas, nem de culpados em série, mas daquilo que realmente importa: quem facilitou acessos, quem fechou portas, quem desviou investigações, quem aconselhou acordos, quem garantiu que certos processos nunca chegassem a certos tribunais. O poder não opera por actos isolados, opera por distribuição de tarefas morais. Raramente alguém “faz tudo”, cada um faz o suficiente para que tudo funcione.
Investigar isto a fundo exigiria expor o modo como elites políticas, financeiras, académicas e jurídicas se reconhecem mutuamente como intocáveis. Não por pacto explícito, mas por lógica de preservação. O sistema não protege pessoas porque são inocentes, protege-as porque são estruturais e porque a sua queda abriria precedentes perigosos.
O caso Epstein é incompatível com a narrativa confortável da democracia liberal. Revela algo que preferimos não admitir - que vivemos em sistemas formalmente “democráticos”, mas materialmente oligárquicos. Onde a lei existe, mas a sua aplicação é negociável, onde o Estado de direito funciona plenamente até ao ponto em que começa a ameaçar o próprio Estado enquanto estrutura de poder.
Não é coincidência que Epstein circulasse entre partidos, ideologias, universidades, fundações, think tanks. Ele não representava um lado político. Representava o lado do poder enquanto classe transversal. É por isso que o choque com nomes como o de Chomsky é tão politicamente útil e tão intelectualmente incómodo ao mesmo tempo. Útil para quem precisa de gritar “Até o Chomsky!” como prova de uma hipocrisia exclusiva da esquerda; incómodo para quem transformou a sua obra numa espécie de talismã ético, convencido de que estar do lado da esquerda vacina automaticamente contra a participação nas mesmas redes de poder que se critica. O que estes e-mails expõem não é uma excepção moral, é um mecanismo: a facilidade com que a crítica à violência estrutural coexiste com cegueiras muito concretas quando o prestígio, o acesso e a circulação em elites estão em jogo. A falência do humano não tem lado; é um espectro que atravessa biografias impecáveis, bibliografias incontornáveis e identidades políticas confortáveis, lembrando-nos que nenhum alinhamento ideológico, por mais justo que pareça, equivale a imunidade ética. E isso é profundamente destabilizador para a ficção democrática, porque obriga a admitir que a divisão nunca foi ideológica, mas ontológica: entre quem existe sob proteção e quem existe sob risco.
Existe algo transversal em nós, humanos, que raramente gostamos de admitir: a incoerência. We are so full of shit, tão cheios de certeza sobre a nossa própria lucidez, que deixamos de ver as nossas inconsistências mais básicas. Se acharmos que abusadores, racistas ou misóginos existem apenas “à direita”, estamos só a proteger a nossa auto-imagem. Não é análise política, é uma grande mentira reconfortante. Neste sentido, Epstein não é um escândalo moral. É uma falha ontológica da democracia tal como a praticamos.
Quantas estruturas estamos dispostos a desmontar para que deixe de ser normal que isto aconteça ou talvez o erro continue a ser esse? Insistir em perguntar como evitar ou o que estamos dispostos a abanar, como se estas estruturas existissem por distração, por atraso moral, por falta de informação. Não existem. Persistem porque funcionam. Funcionam para quem importa.
Isto não acontece porque falhámos. Acontece porque aceitámos os termos. Porque normalizámos a ideia de que há pessoas demasiado relevantes para cair, danos demasiado incómodos para serem assumidos, verdades demasiado caras para serem ditas até ao fim. Chamamos prudência ao que é medo, chamamos complexidade ao que é cumplicidade, chamamos estabilidade ao que é violência administrada. O sistema não ignora o abuso. Calcula-o. Mede o custo, gere o tempo, escolhe quem sacrificar para que o edifício permaneça. Não é cego, é selectivo. Não é caótico, é eficiente. O verdadeiro escândalo não é que isto continue a acontecer. É que continue a acontecer sem abalar seriamente aquilo que o permite.
Talvez por isso a indignação seja sempre breve e o esquecimento tão bem organizado. Porque há uma ordem tácita que não se quer quebrar: a de que certos corpos são substituíveis, certos danos aceitáveis, certos silêncios rentáveis. Não é que não saibamos. É que sabemos o suficiente para decidir não ir mais longe. E esquecemos porque o esquecimento deixou de ser falha humana para se tornar função social. Não se trata apenas de distrações ocasionais, mas de um regime inteiro de atenção fragmentada, onde nada permanece tempo suficiente para se tornar insuportável. A indignação tem agora prazo de validade curto, programado para não interferir com o fluxo seguinte de estímulos.
Vivemos numa economia que não vende apenas produtos, vende deslocamentos de foco. As guerras transmitidas em directo entram nesse circuito como conteúdo premium: cada ataque, cada contra-ataque, cada conferência de imprensa disputa o mesmo espaço mental que documentos, denúncias, vítimas. Não é só geopolítica, é gestão de foco, administração daquilo a que estamos autorizados a achar insuportável durante mais de dois dias seguidos. Cada escândalo é absorvido, embalado, consumido e substituído antes de produzir consequência. Não há tempo para memória porque a memória exige continuidade, e a continuidade tornou-se disfuncional para sistemas que dependem da circulação constante e da ausência de fixação.
Guy Debord chamou-lhe sociedade do espectáculo, mas hoje o espectáculo já nem precisa de narrativa coerente, basta sucessão. O choque não visa despertar, visa esgotar. Quando tudo é grave, nada permanece grave tempo suficiente para obrigar a ruptura. O esquecimento é confortável. Recordar implica responsabilidade, e responsabilidade implica acção, risco, perda de posição. Esquecer permite continuar a funcionar. Continuar a trabalhar, a consumir, a participar em instituições que preferem estabilidade à verdade. O esquecimento é uma forma discreta de auto-preservação. Sabemos em doses controladas. Sabemos o suficiente para nos sentirmos informados, mas não o suficiente para nos sentirmos implicados. O excesso de informação não produz consciência, produz neutralização. Cada revelação chega desacompanhada de tempo, contexto e consequência. Tudo é sabido e nada é integrado.
E talvez por isso a distração seja tão eficaz: não porque nos torna ignorantes, mas porque nos mantém ocupados demais para sustentar o pensamento até ao fim. Pensar exige permanência. Exige insistência. Exige a recusa de passar à frente quando o desconforto começa a interferir com a normalidade e esquecemos. Esquecemos porque a memória é perigosa.
E é aqui que o texto deixa de ser sobre Epstein, aliás foi muito pouco sobre o homem, porque Epstein é apenas o nome próprio que nos permite fingir que o problema tem contorno, rosto, fim. Mas o que está em causa não é um homem, nem um caso, nem um conjunto de crimes isolados. É uma forma de mundo. Uma forma de mundo que se mantém porque muitos beneficiam dela e quase todos aprenderam a viver dentro dela sem fazer demasiadas perguntas. Uma forma de mundo onde a justiça chega tarde, a verdade chega truncada, e a prevenção é sempre considerada radical demais.
Se há algo verdadeiramente perturbador nisto tudo, não é aquilo que desconhecemos. É aquilo que já sabemos e que continuamos a aceitar como custo estrutural da normalidade. Saber isto não nos condena ao cinismo, condena-nos à responsabilidade: cada vez que normalizamos, relativizamos ou esquecemos depressa demais, não estamos a falhar o sistema, estamos a ajudá-lo a continuar.
O sistema não falha quando isto acontece, funciona.
D.




Que reflexão tão importante, certeira e lúcida, obrigada.
Pochas, que maravilha.