Achei, durante algum tempo, que já não havia nada de novo a dizer sobre este tema, que a repetição de imagens e slogans tivesse exaurido a linguagem, mas percebo agora que o silêncio não é neutro, é um gesto político, cúmplice pela omissão. O horror não se esgota porque não pode ser esgotado, e cada vez que o reduzimos a posts de circunstância participamos, ainda que inadvertidamente, na mesma máquina que transforma a tragédia em ruído.
A dificuldade está precisamente aqui: o pensamento crítico tornou-se escasso, substituído por uma mecânica binária de posições pré-fabricadas, como num exercício escolar de debate em que um lado defende isto, o outro aquilo, e os argumentos já estão escritos de antemão. É fácil escolher trincheira, difícil é procurar pontes. É cómodo repetir indignações, difícil é sustentar uma inteligência que recuse a previsibilidade. Mas será que não seria essa, afinal, a única tarefa digna? Perguntar se a humanidade, e não a ideologia, pode ser ainda aquilo que nos une.
Gaza não somos nós, nem seremos nunca, e cada vez que alguém ousa pronunciar essa equivalência, ainda que embalada em boas intenções, comete o velho pecado da arrogância ocidental, que já não lhe bastava colonizar terras e corpos, mares e línguas, agora quer também colonizar o sofrimento, transformando-o em metáfora para uso interno, vitrine moral onde se contempla a própria consciência limpa. Nada há de mais violento, ainda que subtil, do que apropriar-se da dor alheia para adornar discursos piedosos.
Dizer ‘Gaza somos nós’ é insulto, não solidariedade, porque Gaza não é palco nem bandeira, não é espelho nem slogan. Gaza é vidas suspensas, é crianças amputadas sem anestesia, é famílias despedaçadas - e cada metáfora ocidental é mais uma camada de silêncio sobre essa realidade.
Importa repetir: não é ‘Israel’ que bombardeia, é um governo, uma máquina de poder, e reduzir um povo inteiro à política criminosa dos seus dirigentes é outro apagamento. Dentro de Israel há quem recuse matar, há soldados que desertam, cidadãos que protestam, vozes que se levantam contra a guerra e são esmagadas pelo silêncio mediático. Mas a simplificação dá jeito, porque narrativas fáceis são sempre mais digeríveis do que a verdade.
Há ainda outra cegueira: como se resolve um conflito de décadas sem se pensar no lado psicológico de tudo isto? Como se cura um trauma que já é hereditário, passado de geração em geração, inscrito no corpo e na memória? Achamos mesmo que bastam estratégias e soluções chave na mão, planos de paz redigidos em gabinetes diplomáticos, como se a ferida fosse apenas cartográfica? Como se alguém pudesse acreditar ingenuamente que isto se resolve com a queda de extremistas/terroristas, como se fosse um jogo de xadrez onde basta retirar peças do tabuleiro? E as pessoas? E o que e quem já se perdeu? O que resta depois de décadas de violência não é apenas ruína física, é uma arquitectura psicológica devastada: crianças que nunca conheceram silêncio sem sirenes, adultos que envelhecem no medo, famílias amputadas da sua própria memória. Ignorar isto é condenar qualquer solução ao fracasso. A falta de humanidade torna-se transversal a todas as áreas de qualquer tipo de solução - política, diplomática, militar, ideológica - e sem humanidade tudo se transforma em repetição de violência, apenas com novas cores e novas bandeiras.
Mas em vez de inteligência, contentamo-nos com estética. Saímos para a rua com keffiehs importados da China, apenas para nos sentirmos incluídos no espírito do zeitgeist, porque a empatia com o sentimento de impotência é real, mas vivemos num mundo que requer mais do que estética, requer inteligência. É demasiado óbvio esperar de nós, uma esquerda, a berrar nas ruas, demasiado previsível, demasiado fácil. Não mudará nada ou muito, vá. Não hoje, não amanhã, nem no futuro. Porque não, em vez disso, a convergência de todas as forças democráticas de esquerda e também, de todas as cores do espectro político, para exigir pontes? Nacionais, europeias, internacionais. A democracia não pode ser apenas exercício de oposição - tem de ser a imaginação do comum. E se até os inimigos da democracia se sabem unir em horas, que incapacidade estrutural é esta que nos impede de fazer o mesmo em nome da vida? O que nos falta, então, para que a democracia, inteira, se saiba mobilizar pelo que deveria ser o seu núcleo: a vida, a dignidade, a convivência? A direita une-se por interesses, a extrema-direita une-se pelo ódio, mas porque é que nós, que falamos em humanidade, falhamos sempre em nos unir por ela?
A esquerda, ainda que se situe num lado do espectro político, não pode limitar-se a ser apenas mais um lado numa guerra. Se a sua vocação é a de emancipar, então não deve ser trincheira, mas ponte; não deve ser apenas oposição, mas mediação; não deve repetir a lógica do conflito, mas criar a possibilidade da convivência. A esquerda que não se torna ponte trai a sua própria razão de existir. E é em parte por isso que não me conformo - também a esquerda colonizou Gaza, não com tanques mas com slogans, não com ocupação territorial mas com apropriação simbólica. Transformou-a em bandeira, em vitrine de pureza ideológica, em cartaz para manifestações que pouco mudam em Rafah - e esse é também um abuso.
Dizer isto não é trair a esquerda - é exigir-lhe mais. É recusar que a nossa solidariedade se limite à retórica, é denunciar que um cartaz numa manifestação em Lisboa não chega para mudar a realidade em Rafah. Se queremos ser diferentes, temos de ser mais: mais inteligentes, mais lúcidos, mais comprometidos. A solidariedade não pode ser colonizadora; tem de ser concreta, criadora de pontes, insurgente contra governos cúmplices, recusando as metáforas fáceis que só servem para aplacar consciências.
O paradoxo gritante da esquerda em Portugal: quando a esquerda radical não hesitou em falar de diálogo entre Rússia e Ucrânia, mesmo perante massacres e invasões, mas quando se trata de Israel e Palestina a palavra desaparece, como se aqui fosse impossível. Israel tornou-se caricatura, deixou de ser povo e passou a ser governo, perdeu a sua humanidade na narrativa fácil.
E há ainda algo mais inquietante: como é que alguém que se diz de esquerda - alguém que supostamente defende a justiça, a dignidade, o direito à autodeterminação dos povos - pode afirmar, sem hesitar, que Israel deve deixar de existir? Como se um país pudesse ser apagado, como se um povo inteiro pudesse ser resumido ao crime dos seus líderes? Que esquerda é essa que, em nome da libertação, repete a mesma lógica de aniquilação que diz combater? A eliminação simbólica de Israel é o espelho da violência que denuncia. Nenhum povo deve ser condenado à inexistência. A esquerda que compactua com esse discurso não é emancipadora - é apenas reflexo invertido do mesmo dogma que transforma o outro em inimigo absoluto. Diálogo só existe quando se reconhece humanidade dos dois lados - e a esquerda, que sempre denunciou a desumanização, acabou por praticá-la, calando-se perante a metade incómoda da realidade.
Porque não manifestações com as duas bandeiras lado a lado, a da Palestina e a de Israel, não para negar crimes mas para lembrar que a guerra não é entre povos, é entre governos e inocentes esmagados? Porque não levantar também a bandeira dos israelitas que resistem, que desertam, que protestam? Porque esse gesto radical não cabe nas narrativas fáceis e é por isso que nunca se vê.
O nosso dever não é o da metáfora, mas o da denúncia; não é o da retórica, mas o da solidariedade; não é o da apropriação, mas o da acção. Não com sanções que isolam povos e multiplicam misérias, porque a fome nunca derrubou tiranos. O dever é de criar pontes onde querem erguer muros, de recusar a lógica da divisão, de estar do lado da vida contra a máquina que fabrica mortos.
Já não chega de pensamentos e acções colonizadoras do Ocidente, que fala em nome de todos menos dos que sofrem, que constrói narrativas piedosas enquanto protege interesses, que transforma vítimas em ornamento retórico e a dor em capital simbólico.
Não somos Gaza. E é precisamente por não o sermos que devemos recusar a tentação de nos confundirmos com ela. Gaza é Gaza, é Palestina. Israel é Israel. E ambos os povos merecem a dignidade das suas próprias vozes, não o ruído colonizador que os reduz a caricaturas convenientes. Mobilizemo-nos não por slogans, mas por pessoas; não pela estética de trincheiras, mas pela possibilidade de convivência pacífica e de partilha.
Porque o futuro, se o houver, não nascerá da vitória de um governo sobre outro, mas da coragem de imaginar o inimaginável: dois povos a coexistirem sem medo, libertos da lógica da aniquilação. Essa imaginação não é ingenuidade, é a mais radical das políticas. Tudo o resto - sanções, slogans, metáforas fáceis - é repetição de violência com novas cores.
Se quisermos ser dignos, talvez devamos começar pelo gesto mais simples e mais difícil: ouvir as vozes de ambos os lados, recusar a colonização simbólica da dor, e lembrar que a humanidade não é bandeira, é condição comum.
D.



