@Diana V. Carriço / Não-reflexo ao espelho, Firenze, 2018.
É quase enternecedor, no sentido mais cáustico do termo, observar a nossa espantosa capacidade de habitar entre dissonâncias sem jamais perder o compasso desta sinfonia desajeitada a que, com algum esforço de fé, chamamos existência. Somos criaturas de rotinas eximiamente improvisadas: despertamos com o alarme que execramos, envergamos a persona disponível, e lá seguimos, arrastando a alma para mais um dia de utilidade forçada. No epílogo diário, brindamos à suposta liberdade com um scroll pavloviano, dopaminado, como se a emancipação alguma vez se tivesse dignado a passar por ali.
Há, reconheça-se, uma certa musicalidade neste teatro de contradições: talvez um réquiem dissonante composto por Kafka e uma IA em esgotamento nervoso. Reivindicamos autenticidade, sim, mas não sem antes aplicar o filtro apropriado. Exigimos transparência, desde que envolta num enquadramento fotogénico, exportado em 1080p. Somos performers do parecer: ensaiamos a fúria, mas optamos pelo emoji. E é nessa coreografia de paradoxos que nos tornamos irresistivelmente observáveis. Ridículos, claro. Mas com alguma dignidade estética no colapso.
O tempo? Essa entidade sacralizada, vendida como bem escasso, mas transaccionada por episódios descartáveis ou workshops sobre como deixar de desperdiçá-lo. Genial. Tornámo-nos maestros da procrastinação, com uma apetência quase barroca para solos de desculpas coreografadas. Talvez por isso os relógios nos tolerem apenas à distância: há qualquer coisa de embaraçoso na nossa relação performativa com o efémero.
E a modernidade, esse cabaré de antagonismos higienizados. Criámos aplicações para nos desligarmos, redes para nos aproximarmos, rituais alimentares para nos “purificarmos” entre duas encomendas de hambúrgueres com trufa. O cosmos, não sendo indiferente ao sarcasmo, solta uma gargalhada cínica sempre que clicamos em “comprar agora” um livro sobre minimalismo.
Mas sejamos, por uma vez, indulgentes com a nossa tragicomédia. Talvez as nossas incoerências não sejam lapsos, mas formas de sabotagem poética contra o determinismo. A lógica, deixemo-la aos contabilistas e aos algoritmos. Nós, os desafinados por excelência, preferimos o tropeço consciente, a hesitação como estética. Porque, convenhamos, só desafina quem ousa erguer a voz.
E assim prosseguimos: desalinhados, ambíguos, gloriosamente humanos. Compondo uma partitura inacabada onde cada nota fora do tom reclama, e obtém, o seu lugar. Talvez a verdadeira arte de viver não consista em domesticar a dissonância, mas em dançá-la; de preferência com um copo na mão e a ironia e o sarcasmo polidos como instrumentos.
D.



