Urania’s Mirror published by Samuel Leigh of London, 1824
Olhemos para o céu. Um espectáculo indiferente de estrelas, planetas e galáxias em movimento, cada um na sua órbita, cumprindo um papel meticulosamente coreografado pela gravidade e pelo acaso. Enquanto isso, cá em baixo, entre um café requentado e uma crise existencial, convencemo-nos de que Júpiter, essa imensa bola de gás com um período orbital de doze anos, tem algo a dizer sobre o porquê de ainda não termos respondido ao último e-mail do trabalho. Ridículo? Talvez. Reconfortante? Sem dúvida. E convenhamos, se até Fernando Pessoa, essa mente genial, febril e fragmentada, confiava nos astros e ainda fazia mapas astrais por encomenda, que belo side hustle para um poeta, quem somos nós para questionar a influência de Marte na nossa impulsividade?
Pessoa, por sinal, era Gémeos com ascendente em Escorpião, uma combinação que explica tanto a sua mente inquieta como o fascínio mórbido pela introspecção. Quem precisa de terapia quando pode ter múltiplos heterónimos, cada um com a sua própria crise metafísica? Se ele, que se desdobrou em Álvaro, Ricardo, Alberto e Bernardo para conseguir suportar a existência, sentia necessidade de consultar os astros, talvez seja sensato fazermos o mesmo. Nem que seja porque fica mais barato do que um psicólogo.
E confesso, também sou adepta curiosa deste teatro celeste. Sol em Escorpião, lua em Gémeos e ascendente em Carneiro – um cocktail astrológico que me torna simultaneamente intensa e indisciplinada, intelectualmente dispersa e dramaticamente impulsiva, tudo isto antes do pequeno-almoço. É impossível não culpar um dos grandes três – Sol, Lua ou Ascendente – sempre que a vida se torna um turbilhão de decisões precipitadas, mensagens enviadas fora de horas e súbitas vontades de desaparecer para uma cabana na floresta sem wi-fi.
Há algo de extraordinário em confiar nos astros. Eles não nos interrompem, não nos cobram oitenta euros por sessão e, acima de tudo, não nos sugerem “técnicas de respiração” ou visualizações enquanto tentamos meditar – até porque sabem que é inútil pedir a alguém com lua em Gémeos e ascendente em Carneiro para acalmar. Simplesmente estão lá, disponíveis 24/7 para justificar tudo, desde o nosso mau humor matinal até à escolha questionável de colocar ananás na pizza (a sério, porque é que fazem isso?). Tens problemas com compromissos? Lua em Gémeos, sempre a oscilar entre ficar e partir. Dizes coisas que não devias? Culpa de Mercúrio, que está provavelmente retrógrado, sempre a sabotar comunicações, relações e sistemas de transporte público.
A astrologia não resolve problemas, mas oferece algo ainda melhor: uma narrativa. O caos interno, traduzido em signos, planetas e trânsitos, torna-se mais tolerável. Afinal, quem consegue sentir-se mal consigo mesmo quando Saturno, com o seu ciclo de vinte e nove anos, é oficialmente o culpado pelo estado de calamidade da tua vida? E sim, cada signo carrega a sua pequena peça de teatro, uma dramaturgia celestial onde todos desempenham papéis cuidadosamente escolhidos pelos deuses do acaso:
:: Escorpião, o enigmático sommelier de segredos, que armazena revelações como vinhos raros – alguns para abrir numa noite especial, outros para jamais verem a luz do dia (porque, sejamos francos, saber a verdade é um luxo perigoso). O seu olhar contém mais reviravoltas que um thriller psicológico, e o silêncio dele é sempre mais ameaçador do que qualquer discurso inflamado.
:: Gémeos, o conversador compulsivo, que salta de ideia em ideia como um escritor sob o efeito de cafeína e crise existencial. Não há script que o prenda, não há monólogo que dure tempo suficiente para ser concluído. O palco para ele é apenas um pretexto para testar quantas personalidades consegue interpretar numa única cena.
:: Carneiro, o caótico espontâneo, que prefere a emoção do improviso à segurança do ensaio. Entra em cena como se estivesse a invadir um castelo medieval – lança-se sem olhar, sem perguntar, sem pensar (pensar é para os fracos). Se houver um muro no caminho, ele passa-lhe por cima, e se partir um cenário, bem… já estava na hora de renovar a decoração.
:: Touro, o teimoso de ferro fundido, que constrói o seu castelo e recusa-se a sair dele, a menos que haja comida envolvida. O seu enredo é simples: estabilidade, conforto e zero surpresas. Se a peça está a correr bem, por que mudar de acto? Quem precisa de reviravoltas quando se pode ter uma vida de sofá, queijo e segurança emocional?
:: Caranguejo, o nostálgico incurável, que decora cada cena do passado com tanto detalhe que até um historiador ficaria impressionado. Segura memórias como quem colecciona antiguidades – não para as vender, mas para as reviver até à exaustão. Para ele, o verdadeiro drama não está no presente, mas sim nas quinze temporadas passadas que insiste em rebobinar.
:: Leão, o protagonista autoproclamado, que nasce com holofotes embutidos e um aplauso imaginário de fundo. Não precisa de direcção artística, porque sabe, sem sombra de dúvida, que o universo inteiro é o seu palco. Se ninguém o admira em cena, é apenas porque ainda não perceberam a genialidade da sua performance.
:: Virgem, o perfeccionista maníaco, que escreve, edita e reescreve cada linha do guião, certificando-se de que tudo está impecável – excepto a sua sanidade, que está a implodir silenciosamente. Cada detalhe conta, cada vírgula tem um propósito, e se alguém desalinhar um objecto de cena, ele entra em colapso nervoso.
:: Balança, o Hamlet do Zodíaco, que passa o primeiro acto inteiro a decidir se entra ou não em cena. “Ser ou não ser?” é pouco para ele - precisa de pesar os prós e os contras, pedir opiniões, fazer uma sondagem e, no final, ficar igualmente indeciso. O verdadeiro drama da sua peça não está na história, mas sim na escolha dos cenários, das falas, do figurino e até da cor da cortina. Se conseguir decidir algo antes do espectáculo acabar, já é uma vitória.
:: Sagitário, o nómada do palco, que ignora todas as marcações cénicas porque acha que seguir um guião é para os aborrecidos. Nunca fica tempo suficiente num acto para entender a história toda – já está a planear a próxima aventura, de preferência num palco exótico onde ninguém o conheça e possa inventar uma nova identidade.
:: Capricórnio, o CEO do teatro, que não entra em cena sem um plano de negócios e um orçamento detalhado. Para ele, a peça não é sobre arte, é sobre eficiência, estratégia e objectivos a longo prazo. Os ensaios são obrigatórios, as falhas são inadmissíveis, e se ele ainda não chegou ao topo, é porque alguém não seguiu o plano de cinco anos.
:: Aquário, o guionista revolucionário, que reescreve a história a meio só para confundir a audiência. Seguir regras? Só se forem as que ele acabou de inventar. Se a peça está a fazer sentido, então está demasiado previsível. Para ele, o objectivo não é agradar, mas sim desafiar – e, se possível, alienar alguns espectadores pelo caminho.
:: Peixes, o poeta existencialista, que se perde no próprio monólogo e já não sabe se é actor, narrador ou apenas uma metáfora ambulante. Para ele, a peça nunca tem um final claro, porque a vida é um oceano de emoções líquidas onde tudo se dissolve. A realidade é só um detalhe que pode ou não ser ignorado.
O que torna a astrologia fascinante não é a “ciência” – que, sejamos honestos, é tão sólida quanto o humor de um Escorpião traído –, mas sim o facto de nos oferecer uma linguagem simbólica para navegar pelo caos emocional. Não és desorganizado – tens Vénus em Aquário. Não és impulsivo – Marte em Carneiro estava particularmente activo. E assim, com um mapa astral na mão, transformamos defeitos em características interessantes, falhas em peculiaridades, catástrofes em ciclos cósmicos inevitáveis.
Os astros não falam, mas também não nos julgam. E é precisamente essa neutralidade que os torna perfeitos confidentes. Ao contrário do terapeuta ou daquele amigo bem-intencionado que insiste em dizer “precisas de mudar”, os astros limitam-se a existir. Tu é que decides se Marte te está a ajudar ou a destruir.
E há algo de maravilhoso neste absurdo cósmico. Pouco importa se Vénus retrógrado desfaz relações ou se a lua cheia realmente perturba o sono. O que importa é que esta narrativa nos oferece a ilusão de controlo, porque se conseguimos encontrar lógica nos alinhamentos planetários para justificar as nossas escolhas idiotas, talvez não sejamos assim tão irremediáveis – ou, no mínimo, mereçamos ser recordados daqui a cem anos, não pela nossa lucidez, mas pelo extraordinário sentido de humor de quem acreditou, com plena convicção, numa loucura tão bem embalada.
Por enquanto acreditemos que quando tudo falha, a paciência, o saldo bancário e a crença em nós mesmos, há sempre os astros. Eles estão lá, impassíveis, prontos a segredar que, não, não é tua culpa, é só mais um trânsito complicado. E, sinceramente, quem pode resistir a um álibi tão elegante?
D.




Que belo texto e que forma tão bonita de se pensar a Astrologia :) eu costumo dizer que é "um espelho", ou seja, os astros "não causam" nada, só espelham o que acontece. Cumprimentos desta lua em Gémeos (sol peixes; asc caranguejo) que te encontrou :)