Hoje, o bosque falou comigo. Disse que o meu nome não existe, que foi inventado por alguém que nunca me viu dormir. Disse que cada vez que fecho os olhos, alguém desaparece numa casa azul. Talvez eu seja essa casa. Talvez eu seja apenas os gritos dentro dela.
Há um homem que me observa com olhos de vidro partido. Não sei se me quer proteger ou devorar. Mas deixo, porque às vezes ser devorada é a única forma de sentir o corpo a sério.
Aninhei-me dentro da ventoinha e o ar cortou-me como se fosse língua de amante. Ri. Ri tanto que o chão se abriu. E dentro do chão estava eu, mas com os olhos ao contrário.
Escrevo isto com sangue de cerejas esmagadas. Não sei se alguém vai ler.
Mas se leres, não acredites em mim. Sou só uma rapariga morta a inventar sonhos com o pouco tempo que lhe resta.
D.



