© Avô Valente e Diana (versão mini)
Faz hoje 14 anos que vi o meu avô pela última vez vivo, a respirar do lado de cá.
Escrevo para que este fragmento de amor fique no éter, onde as coisas que importam continuam a respirar.
Era daqueles que se estendem nos gestos pequenos, silenciosos, como quem pousa uma borboleta numa cortina branca sem perturbar o tecido do mundo. Chamava-lhe Avô Valente e, quando eu ainda era uma miniatura humana, era a minha pessoa favorita. Deixou o álcool e o fumo, não por si, mas por mim - para que pudesse cuidar de mim -, recém-chegada ao caos terrestre, pequena demais para saber que aquele sacrifício era já amor, e amor do mais raro, o que não se declara, apenas se faz. Tinha vindo de um tempo em que os homens não sabiam amar o que não compreendiam, e talvez por isso carregasse uma forma de afecto tosca, calada, ferida para com os outros - como quem tenta dar aquilo que nunca recebeu. Perdeu o pai demasiado cedo e, com ele, a hipótese de aprender o gesto inteiro, seguro, de quem cuida sem medo. Amava outros, tenho a certeza, mas com mãos por acabar, como quem molda algo sem saber bem a forma, como quem ama de costas voltadas para o espelho, sem saber como, nem quando, nem se chegou a tempo. E talvez comigo tenha aprendido, em silêncio, outra forma de ficar.
Chamava-me “mê mor”, com aquele tom entre o sorriso e a melancolia, como quem guarda um segredo na boca. Não era “meu amor” - era mais íntimo ainda, mais desdentado, mais verdadeiro. Soava a coisa prometida, a abrigo. Era como se, naquele som meio mastigado e meio rezado, o mundo inteiro se encolhesse até caber dentro da dobra dos seus braços magros e do seu coração remendado, com fios de açúcar, fumo esquecido e redenção tardia. Nunca me contou o que lhe ia na alma, também nunca perguntei. Há coisas que não se falam. Foi a maneira que encontrou de me amar com uma ternura que se aprende tarde, quando o corpo já carrega mais remorsos do que certezas.
No Miratejo, apanhava borboletas com um truque secreto - usava um pacote de açúcar vermelho da Sical, um coração improvisado com cheiro a café e terra húmida, guardava-as ali, dobradas no silêncio e punha-o no bolso da camisa, ao peito - como se soubesse que é no peito que se guardam as coisas vivas, com a delicadeza de quem leva consigo o fôlego de um instante, para depois as libertar no meu quarto, e as borboletas saíam como palavras que eu ainda não sabia dizer, pousavam nas cortinas do meu quarto, onde a luz era leve e o meu mundo parava um pouco para vê-las respirar e talvez ele tivesse esperança de que a felicidade se pudesse fixar ali, num instante suspenso entre o voo e o repouso. Eu era fascinada por borboletas, ele sabia disso e imagino sempre que era o seu modo de dizer “gosto de ti assim como és, com olhos atentos para o que voa, com tempo para olhar devagar”. Queria, quem sabe, eternizar o meu espanto, segurar-me no encanto como quem tenta que o tempo pare só um bocadinho. Aprendi com ele essa beleza da delicadeza, o milagre de não apertar, o amor que é gesto e não posse, voo e não gaiola.
As minhas férias de verão eram na aldeia, entre a minha bisavó, outra favorita, e a minha avó, mas era com ele que passava grande parte do dia. Havia uma manta estendida à beira-rio onde eu comia uma sandes de marmelada que ele me fazia e um Compal daqueles com mais açúcar do que sumo. Fazia pandã com a doçura do momento, talvez. Íamos apanhar lagostins, não para os comer, mas porque eram os bichos com quem eu mais gostava de brincar. Adorava a estética deles: as tenazes nervosas, o recuo elegante, a coreografia da defesa. Dava-lhes nomes como se baptizar fosse uma forma de os trazer para o meu lado do mundo. Segurava-os com cuidado, exactamente como ele me ensinara, entre os dedos certos, no ponto onde a ameaça se transforma em gesto. E fazia-lhes festas na carapaça dura, polida pelo rio, como quem aprende que aquilo que parece ataque é apenas defesa mal compreendida.
Os escaravelhos da batata abriram-me o mundo. Indesejados, existiam às centenas mas eu via neles pequenos prodígios redondos, riscas desenhadas como se a natureza tivesse ali ensaiado um padrão secreto - eram brasões mínimos cravados na terra. Adorava aquelas riscas e permanecia horas a segui-las com os olhos, num silêncio absorvido, como se estivesse a aprender, sem saber, a arquitectura invisível das coisas. Não lhes pegava, por medo, pela dúvida de como se comportariam, até ao dia em que o meu avô apanhou um, pousou-o na palma aberta e disse, com uma serenidade que ainda hoje me acompanha: “Vês? O bichinho não faz mal à menina.”
Foi ali que o medo mudou de lugar. A partir desse gesto, dei colo aos bichos todos. Insectos, aracnídeos, lagostins, seres rastejantes - o que fosse vivo merecia aproximação. Eu era a menina que brincava com aquilo que os outros afastavam com o pé, que corria por entre o milho alto, o pó a prender-se ao cabelo e a fazer comichão, a pele arranhada, pés descalços, os joelhos sujos, mas inteira. Livre. Sem medo.
E ele, apesar de temer os cortes invisíveis da terra nos meus pés descalços, deixava-me ficar. Não me arrancava do chão. Protegia-me sem me fechar, vigiava-me sem me interromper. Sabia que ali havia qualquer coisa de sagrado, no gesto de olhar sem dominar, de tocar sem capturar. Nunca me apressava. Guardava os meus silêncios como quem guarda bichos raros num frasco de vidro perfurado, só o suficiente para que pudessem respirar.
Foi numa dessas tardes que com ele comi o primeiro figo, apanhado da árvore, ainda quente do sol. Lembro-me do gesto de o abrir com os dedos - aquela carne vermelha exposta como um segredo antigo - e de eu recuar, desconfiada e dizer: “tem bichos”. Ele riu-se, com aquela paciência inteira de quem sabe mais do que explica, e disse que não fazia mal, que era assim mesmo.
Mal sabia eu que, anos depois, descobriria que tinha razão. Que o figo precisa de uma vespa minúscula para existir, que há um pequeno sacrifício invisível no interior de cada doçura, que há vidas que entram noutras para que algo floresça. Que há sacrifícios que não são crueldade animal, que são engrenagens invisíveis da vida, formas discretas de permitir que outro viva. Amor.
E ao fim da tarde voltávamos devagar, com um balde de lagostins, os meus amigos, a bater ritmado contra a madeira da carroça. Eu ia sentada no alto do monte de erva que ele apanhara durante o dia para alimentar os animais, quase trono improvisado de uma infância sem medo, enquanto a vaca puxava o peso da tarde com uma dignidade antiga. O cheiro da erva cortada misturava-se com o rio, com o pó, com o calor que já descia. Eu deixava as mãos afundarem-se naquele verde áspero, sentia o corpo balançar ao ritmo da estrada de terra, e parecia-me que o mundo inteiro cabia naquele trajecto lento de regresso. Era assim que se voltava para casa: com um balde de amizade, o cabelo cheio de pó, os joelhos riscados e uma felicidade tão simples que quase doía.
E já em casa, à mesa, entre migalhas de pão e folhas pautadas, ajudava-me a escrever textos e histórias. Quando me faltavam palavras, e faltavam muitas, ele desdobrava a língua como quem puxa lenços coloridos de um chapéu invisível. Dizia sinónimos em voz alta, em catadupa, com uma solenidade quase cómica, como se estivesse num palco montado só para mim, num acto de teatro improvisado, generoso, onde cada palavra ganhava o brilho de uma estreia. Era o único adulto que me levava a sério quando eu ainda era só brincadeira, e talvez por isso me tenha mostrado que as palavras também sabiam correr descalças pela infância.
Entre as palavras que me ensinava e os bichos que me deixava observar, havia uma confiança funda, silenciosa, que não pedia explicações. Como se soubesse que crescer não é uma pressa, mas um terreno fértil onde se pousam borboletas e vocábulos por igual. Era assim que me mostrava o mundo: devagar, com espaço para erro, com silêncios, espanto e poesia. E talvez tenha sido isso, no fundo, que ele fez comigo: abriu buracos no tempo para que eu pudesse respirar. Deu-me a mais bela infância com cheiro a rio, tenazes inquietas, recuos elegantes e cortinas com asas. E quando me chamava “mê mor”, como quem pousa uma palavra no coração de alguém, eu sabia, sem saber, que esse amor era a coisa mais inteira que ele tinha para dar.
D.


