“Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.”
- José Saramago (ou para outros, Sophia)
Los Caprichos (43) - “El sueño de la razon produce monstruos” - Francisco de Goya
Começamos o ano de 2026 mergulhados em presidenciais, momento em que o país se olha ao espelho com mais solenidade do que hábito, e em que cada um de nós, entre promessas de agenda e resoluções por cumprir, tenta formular objectivos para o ano que começa. Permitam-me, então, neste clima de inventário íntimo e ambição tímida, partilhar alguns desejos e devaneios - não sobre candidatos em particular ou no geral, mas sobre nós, sobre o mecanismo que escolhemos chamar de voto e sobre a coragem, sempre adiada, de imaginar o que ele poderia ser.
Existem mecanismos de sobrevivência política que não precisam de ser ensinados, porque se aprendem como se aprende a respirar: por imitação, por osmose, por resignação. O voto útil é um desses mecanismos em Portugal. Não é uma teoria, não é uma doutrina, não é sequer uma convicção. É um reflexo condicionado, a racionalização elegante do medo. Uma pedagogia involuntária que atravessa gerações, como se a liberdade de escolha viesse sempre acompanhada de uma nota de rodapé: “escolha, sim, ma non troppo”.
Nestas presidenciais, este reflexo atinge o seu esplendor triste. Porque se há eleição que podia devolver ao cidadão a leveza da imaginação política, seria esta. Não se escolhe governo, não se escolhe orçamento, não se escolhe combate partidário. Escolhe-se um guardião, uma figura de vigília, alguém que lê a Constituição à luz do presente e a protege do contorcionismo do momento. E, no entanto, a imaginação nacional retrai-se, como se tivéssemos medo de profanar uma liturgia cujo significado já esquecemos.
O voto útil não nasce da lucidez; nasce da desconfiança cultural de que não somos um país que possa escolher audácia. É como se nos tivéssemos convencido de que só a repetição garante estabilidade, só a antiguidade produz grandeza, só quem foi longamente legitimado pelo costume parece autorizado ao gesto. O voto útil não caiu do céu nem nasceu de uma maturidade democrática particularmente refinada. É um produto histórico. Surge sempre em democracias jovens, frágeis ou traumatizadas, onde a memória do colapso pesa mais do que a promessa da escolha. É uma resposta defensiva a períodos de instabilidade, ditaduras recentes, bancarrotas simbólicas. Em Portugal, a sua matriz é dupla: o medo do retorno do autoritarismo e o medo, mais fundo e menos confessável, de errar colectivamente.
Depois do 25 de Abril, a pedagogia democrática foi feita à pressa e sob vigilância. Aprendemos a votar como quem aprende a atravessar uma ponte instável: com passos contidos, olhos no chão, instruções repetidas. O voto deixou de ser um gesto de afirmação para se tornar um mecanismo de contenção. Não votar “mal” passou a ser mais importante do que votar “bem”. E assim, pouco a pouco, o voto útil deixou de ser estratégia circunstancial para se tornar moral dominante - uma ética do menor risco, uma política do mínimo aceitável. O voto útil torna-se uma espécie de gramática da contenção. Ensinou-nos que desejar é impróprio, que a ambição é perigosa, que a mudança é um luxo, que a imaginação política deve caber dentro da margem de segurança institucional. E, sobretudo, ensinou-nos que a escolha deve servir para evitar, não para afirmar.
Este processo foi sendo reforçado por um sistema partidário e mediático que aprendeu depressa a instrumentalizar o medo. A cada eleição, o argumento regressa com roupagem nova: “não é o momento”, “agora não”, “talvez um dia”. O voto útil acaba por funcionar como adiamento perpétuo da imaginação. Não nega a mudança, promete-a sempre para depois. E esse “depois”, pasmem-se, nunca chega.
Existe também um traço cultural profundo em que o voto útil se encaixa com uma precisão desconfortável num país educado para não incomodar, para não pedir demais, para não arriscar excessos. Um país onde o “bom senso” substitui frequentemente o pensamento crítico e onde a prudência é confundida com virtude política. Escolher verdadeiramente implicaria assumir o erro como possibilidade - e isso é algo que culturalmente evitamos.
Por isso, quando surgem nomes e candidaturas fora do círculo habitual - mais jovens, mais ousados, mais imaginativos, menos avalizados pelos corredores do costume ou mulheres (que é condição por si só) - não os discutimos, exorcizamos.
Primeiro, com ironia, aquela forma branda de crueldade: “Ah, sim… mas acham mesmo que poderia ser presidente?” E ninguém pergunta: “Por que não?”.
Essa é a pergunta interditada. A pergunta que abre brechas no edifício da resignação nacional. A pergunta que expõe a arquitectura invisível do voto útil: a crença íntima e quase vergonhosa de que Portugal não é digno do futuro que diz desejar.
Mas convém aqui uma precisão: quando falo de candidaturas fora do círculo habitual/diferentes, não falo das que corroem a democracia por dentro. A democracia gera, por vezes, pequenos tumores tolerados - figuras jovens na idade mas velhas na mentalidade, na violência, regressivas na substância - apêndices do sistema que acumulam tudo o que nele há de patológico. Esses não são alternativas; são sintomas. E a democracia, quando sente as primeiras dores crónicas, deve tratá-los como se tratam excrescências perigosas: cirurgicamente, com precisão, para que o pós-operatório seja suportável.
O “diferente” que aqui invoco é outro: é o que não precisa do medo para existir, o que não transforma adversários em inimigos, o que não promete castigos como programa, o que não se alimenta da vulnerabilidade alheia. É esse que assustaria verdadeiramente - porque nos obrigaria a abandonar álibis antigos e a assumir responsabilidade adulta colectiva.
A ridicularização que recai sobre certos candidatos menos conhecidos mas ainda assim audazes, funciona como uma espécie de polícia do pensamento democrático. Ela não diz apenas “essa pessoa não pode ganhar”; diz algo mais íntimo: “não te atrevas a acreditar no que te parece possível”. A troça é o verniz social do medo. É a forma elegante da obediência. E por trás desta obediência há um mito persistente na vida pública portuguesa: o da “experiência necessária”. Como se a capacidade de ler a Constituição dependesse da idade do corpo, como se a coragem de vetar injustiças fosse privilégio de quem acumulou décadas de silêncio institucional, como se a função presidencial - simbólica, ética, constitucional - exigisse mais idade do que lucidez, mais currículo do que consciência.
O voto útil é a renúncia antecipada ao possível, é a abdicação voluntária da imaginação, é a convicção de que o futuro é demasiado frágil para suportar novidade. E a renúncia tem sempre uma consequência previsível: perpetua o habitual, não porque o habitual seja melhor, mas porque o habitual é o limite da nossa coragem.
O que emerge daqui é um paradoxo inquietante: somos progressistas no discurso, conservadores no gesto, audazes na crítica, tímidos na escolha. Sonhamos longe e votamos perto, desejamos mudança e escolhemos continuidade, rimos da possibilidade e choramos a realidade. E, num último gesto de ironia colectiva, oferecemos a esta renúncia o nome confortável de “bom senso”.
Mas o que esquecemos é que o Presidente da República não governa no sentido executivo: não administra ministérios, não distribui orçamentos, não entra nas guerras partidárias do dia. O Presidente guarda a Constituição, o organismo vivo que contém o direito à habitação e o direito à propriedade, à educação e saúde, o direito à dignidade e aos limites da liberdade, no fundo, à arquitectura da democracia e aos mecanismos que a protegem de si mesma. E para guardar, interpretar e defender este edifício, não é necessária ancestralidade política. É necessária visão, ética, consciência, moral - qualidades que a idade não garante, o estatuto não produz, e a notoriedade não substitui.
Há quem diga que criticar o voto útil é um luxo de quem pode arriscar. Eu diria o contrário: é um dever de quem não abdica. Porque quando falo de imaginação política, não falo de fantasia ingénua, falo de responsabilidade. Falo do direito - e da obrigação - de desejar um país que não se limite a sobreviver entre sobressaltos, mas que se pense a si próprio com alguma coragem.
Bem sei que no meu palácio da mente, a utopia é arquitectura e não apenas decoração e talvez por isso sonhe com um país que não tenha medo de complexidade, que não reduza a política a slogans de contenção nem a gestão emocional do medo. Um país que saiba proteger os seus sem precisar de apontar inimigos, que trate a diferença como matéria democrática e não como ameaça, que entenda a justiça como princípio estruturante e não como ornamento discursivo. Um país que não confunda ordem com silêncio, nem estabilidade com imobilidade.
E, nesse país, quero um/uma Presidente que não seja apenas um amortecedor institucional, mas um intérprete atento do tempo em que vive. Alguém que leia a Constituição como texto vivo, não como relíquia; que saiba usar o silêncio quando ele é necessário, mas que não tema a palavra quando ela é exigida. Quero um Presidente que não se esconda atrás da experiência como escudo, nem confunda neutralidade com ausência de ética. Alguém que saiba que a função não é tranquilizar consciências, mas zelar por princípios - mesmo quando isso incomoda.
Não peço um salvador, nem um herói, nem uma figura messiânica - D. Sebastião está morto, haja a capacidade de terminar este luto colectivo. Peço lucidez, coragem moral, inteligência democrática. Peço alguém que não trate os cidadãos como menores a quem se pede prudência eterna, mas como adultos capazes de lidar com escolhas complexas. Alguém que saiba que representar o país não é repeti-lo, é interpretá-lo com rigor.
Por isso, quando se apela ao voto útil como quem apela à cautela extrema, apetece-me perguntar: útil para quem? Útil para quê? Útil para manter intacto o medo ou útil para fortalecer a democracia? Porque um voto só é verdadeiramente útil quando amplia o espaço comum, quando afirma valores, quando produz sentido colectivo. Um voto que apenas evita o pior pode ser estratégico; mas um voto que nunca ousa afirmar o melhor torna-se cúmplice da estagnação.
Talvez seja tempo de resgatar a utilidade do voto noutro plano. Não como cálculo de sobrevivência, mas como investimento cívico. Um voto útil à sociedade é aquele que reforça a dignidade do gesto democrático, que recusa votar contra, apenas para evitar, e escolhe votar a favor - a favor de princípios, de visão, de futuro.
E chegamos ao busílis da questão: o que queremos, afinal, quando votamos?
Queremos proteger o país do futuro ou proteger o futuro do país? Queremos conservar o símbolo ou reinventar o sentido? Queremos estabilidade como ausência de risco ou estabilidade como presença de dignidade? Queremos um guardião porque receamos o caos ou porque desejamos ordem justa? Queremos alguém que nos sossegue ou alguém que nos desperte?
O voto útil evita estas perguntas, porque quem renuncia antes de escolher nunca se confronta com o essencial e resta-nos, no fim de todas as justificações, uma pergunta nua, despojada, quase violenta na sua simplicidade: De que futuro temos medo para preferirmos sempre o passado?
Porque só quando respondermos a isto, sem metáfora para nos proteger, saberemos se o voto útil é estratégia, ou abdicação.
D.




Maravilhoso, obrigada!
Que óptima leitura.
Há no entanto uma finalidade menos filósofica e bem mais prática no voto útil. Nunca o pratiquei mas não a posso simplesmente ignorar.
Excelente texto!