Barbara Kruger, Untitled (Forever), 2017, installation view at Amorepacific Museum of Art, Seoul.
Dizem muitas vezes que as “palavras leva-as o vento”, como se a linguagem fosse pó solto, sem corpo, sem destino, mas sempre senti que o provérbio erra o alvo, porque o vento não leva nada, apenas espalha, apenas amplia, apenas devolve ao mundo aquilo que alguém lançou primeiro, e por isso o cuidado com o que dizemos - ou escrevemos - não é um apelo ao silêncio, é um apelo ao pensamento, ao gesto anterior ao discurso, à responsabilidade de saber que cada palavra nasce de um raciocínio que pode ser claro ou corrompido, íntegro ou preguiçoso. E é bonito pensar que escrever torna a palavra mais pesada, mais densa, mais real, talvez porque ao escrever pensamos duas vezes, como o meu pai sempre me disse, escrever é reter a palavra no pensamento antes de a libertar, escrever é obrigar-nos a olhar para o que dizemos com uma lucidez que a fala, no seu ímpeto imediato, nem sempre consegue, e não é por acaso que os livros são sempre as primeiras coisas a ser censuradas, queimadas, proibidas, porque quem escreve fixa, insiste, compromete, e isso assusta - a palavra escrita não voa, não se dissolve, permanece, transforma-se em memória colectiva, em ameaça para quem teme o pensamento e em casa para quem precisa dele. E esta expressão antiga, “palavras leva-as o vento”, parece-me menos uma constatação e mais um equívoco, porque o vento leva-as de facto, mas leva-as mais longe - leva-nos mais longe.
E pensar a palavra é também pensar a união possível entre mundos que à primeira vista nada têm em comum, porque a palavra é a ponte invisível que atravessa diferenças, feridas, distâncias, e é por isso que sempre acreditei que as causas começam no discurso antes de se tornarem gesto, que as pessoas se encontram primeiro na linguagem antes de se tocarem no real, que o mundo - esse vasto corpo fragmentado - só se recompõe quando alguém encontra a frase certa, a palavra justa, aquele sopro capaz de ligar o que parecia irremediavelmente separado, e talvez por isso seja tão urgente cuidar do que dizemos, porque toda a palavra pensada é um acto de união, e toda a palavra mal pensada é uma fractura aumentada.
Há quem diga que as palavras não valem nada, que se gastaram de tanto uso, que ficaram ocas como cascas de nozes partidas à pressa sobre a mesa da política moderna, e eu, que sempre levei as palavras a sério, fico com a impressão de que é no exacto momento em que as banalizamos que elas se tornam mais perigosas, porque nenhuma violência começou no silêncio absoluto, todas nasceram de uma frase mal usada, de uma metáfora desastrada, de um discurso que parecia apenas retórica e era afinal arquitectura de mundo.
E lembro-me muitas vezes de como, não há tanto tempo quanto isso, dizer “dou-lhe a minha palavra” era comprometer o próprio carácter, e “palavra de honra” era um pacto silencioso, quase sagrado, que selava acordos e relações com uma força que nenhum papel precisava confirmar, porque a palavra, essa, era extensão da integridade de quem a dizia, e talvez por isso eu ainda hoje repita palavra de honra - por hábito antigo ou por resistência (in)consciente - porque acredito que a ética de uma pessoa também se mede pela frase que não quebra, e há qualquer coisa de profundamente humana nesta liturgia discreta onde a honra se pesa em sílabas que não se violam.
Mas a verdade, se quisermos ir ao osso da questão, é que a palavra só se banaliza quando o pensamento se corrompe primeiro, quando a mente abdica da disciplina, da dúvida, da lentidão necessária para pensar com rigor, e assim a linguagem passa a ser apenas um reflexo baço, sombra de um raciocínio apressado, preguiçoso, superficial, e nada no mundo se degrada tão depressa como uma palavra dita sem que alguém a tenha pensado antes com cuidado.
O problema não é a palavra, é a impunidade da palavra, esta época em que líderes mundiais falam como quem atira migalhas a um pombal faminto, sem cuidar do peso das sílabas, como se a linguagem fosse adereço descartável para entreter as massas cansadas, e há qualquer coisa de trágico neste teatro novo, onde dizer deixou de ser promessa e passou a ser performance vazia, gesto sem consequência, sopro sem responsabilidade, como se o verbo tivesse perdido a espinha dorsal que outrora obrigava a manter a coluna direita quando se afirmava o que quer que fosse
E se o pensamento se deteriora - porque pensar exige tempo, silêncio, hesitação, e vivemos num mundo que já só tolera certezas instantâneas, slogans e reflexos - então a palavra segue o mesmo caminho, esvazia-se, torna-se moeda inflacionada de tanto circular sem valor, e o discurso transforma-se num ruído que tanto serve para governar como para mentir, tanto serve para prometer como para desfazer, e ninguém parece notar que a erosão do pensamento é sempre denunciada pela erosão da linguagem.
Eu, que acredito que as palavras são matéria, argila fina onde moldamos o real, recuso esta ideia moderna de que falar - ou escrever - é pouco, de que é fraco, de que precisa sempre de ser compensado por algo mais muscular do que o verbo, porque tanto o que se diz como o que se escreve, quando dito ou escrito com intenção, precisão, cuidado, é já uma forma de acção, e não há gesto humano que não tenha começado antes por uma frase, um nome, uma hipótese, essa pequena chama inaugural que define o contorno do que virá.
Claro que as palavras precisam da acção, como o corpo precisa da respiração, uma sustenta a outra, mas mesmo sozinhas carregam uma dignidade antiga, um valor próprio, e eu continuo a acreditar na palavra justa, na palavra que não mente, na palavra que não treme, aquela que não serve para enfeitar o vazio, mas para iluminar o que importa.
E talvez o que eu queira realmente dizer seja isto, simples e quase subversivo hoje: as palavras importam, importam muito, são ferramenta e arma, casa e labirinto, ponte e precipício, e quem as usa sem consciência contribui para esta erosão lenta daquilo que nos permite pensar, imaginar, decidir, existir, e no entanto, no meio desta desordem sonora, permaneço fiel a este pequeno ritual de tratar a palavra com respeito, como quem cuida de algo frágil e poderoso ao mesmo tempo, porque no fim a diferença entre um mundo possível e um mundo arruinado começa sempre aqui, na forma como dizemos o que dizemos, e no silêncio que deixamos por dizer.
D.



