©️Private archives / Fundação Champalimaud, Janeiro 2020
E quando partem aqueles que sustentavam a ilusão do aplauso, não se desfaz também o palco onde ensaiávamos as nossas oferendas? O que é do fogo aceso nas mãos se já não há pupilas para o recolher, que é da palavra se já não existe boca para a nomear, que é do gesto se já não encontra olhar que o consagre? Não será o triunfo, órfão de testemunha, apenas uma cinza que o vento dispersa?
E a criança, cartógrafa de espantos, não vagueia ainda por corredores despovoados, com medalhas imaginárias a tilintar no bolso e flores já sem destinatário a murchar-lhe nos dedos? Não se converte a infância num arquivo de sombras, onde os risos se cristalizam como fósseis e cada desenho se oferece a um vazio que não responde?
E nós, que erguemos templos de vaidade para que alguém os contemplasse, não descobrimos tarde demais que os deuses da aprovação são mortais, que a liturgia da glória é um altar derruído, que a memória é apenas uma biblioteca de ruínas? Não será a glória uma moeda sem reverso, um rumor sem eco, uma catedral erguida sobre areia?
E contudo - não há, talvez, uma iniciação mais severa do que a de permanecer de pé diante do abismo, aceitando-o como único espectador? Não será a verdadeira grandeza a de dançar no deserto como se a areia fosse público, a de falar para o vento como se ele fosse testemunha, a de escrever para o silêncio como se ele fosse eternidade? E não será, afinal, a criança a única que sobrevive, murmurando ao ouvido do adulto cansado que já não é preciso impressionar ninguém, que basta, com uma ferocidade serena, continuar a existir?
D.



