Duelo a garrotazos de Francisco de Goya
Existe um traço recorrente nas comunidades politicamente fatigadas que precede sempre os momentos de desvio grave, quando a estabilidade deixa de ser horizonte e passa a ruído de fundo, instala-se um impulso paradoxal, não exactamente destrutivo, mas perigosamente curioso, não o desejo de queda, mas a inclinação calculada sobre o parapeito, não para saltar e cair, mas para sentir o corpo reagir, para testar se ainda há nervo, se ainda há vertigem, se a anestesia não é total.
Em psicologia, este impulso é conhecido como l’appel du vide, o chamamento do vazio, uma formulação infeliz apenas para quem a lê literalmente, porque não se trata de uma convocatória à morte, mas de um curto-circuito entre percepção de perigo e reafirmação da vida, o cérebro reconhece o risco, encena mentalmente a queda, não para a desejar, mas para reactivar o instinto de auto-preservação, o pensamento extremo surge como sinal de alarme e não como intenção, o vazio não chama pela extinção, chama pela intensidade, pelo sobressalto que devolve presença a um corpo entorpecido.
O problema começa quando este mecanismo, perfeitamente funcional a nível individual, é deslocado para o plano colectivo sem qualquer mediação crítica, quando sociedades inteiras começam a operar segundo a mesma lógica primária, testando o limite não porque ignorem o perigo, mas porque deixaram de sentir o chão, e aqui o paralelismo deixa de ser metafórico e passa a ser estrutural.
A segunda volta presidencial entre André Ventura e António José Seguro não é um acidente estatístico nem uma excentricidade eleitoral, é mais um sintoma persistente, viscoso, que não grita mas infiltra, não nasce da ignorância nem da surpresa, nasce do esgotamento, de um corpo político cansado de si próprio, que já não reage ao discurso, já não distingue gradações de risco, já não hierarquiza consequências, e por isso se inclina, colectivamente, sobre o parapeito.
A pergunta que se impõe não é “como chegámos aqui?”, essa é demasiado fácil, mas porque é que, sabendo o risco, ainda assim avançamos.
Potencialmente porque o risco deixou de ser critério moral e passou a funcionar como estímulo sensorial, não se procura um projecto, procura-se uma descarga, não se vota para construir, vota-se para sentir impacto, para introduzir perturbação num sistema percebido como estagnado, e aqui a metáfora biológica impõe-se com algum desconforto. O corpo social comporta-se como uma ameba, não por maldade, mas por ausência de sistema nervoso central operativo, reagindo a estímulos imediatos, expandindo-se em direcção ao que provoca movimento, retraindo-se apenas quando a dor é inegável.
Sociedades cansadas desenvolvem esta relação ambígua com o perigo, quando a democracia se transforma em coreografia administrativa, quando o discurso institucional soa a linguagem técnica sem densidade simbólica, quando o futuro se apresenta como mera repetição do presente com ligeiras variações de tom, o risco ganha valor, não enquanto solução, mas enquanto sensação, a democracia deixa de ser vivida como projecto histórico e passa a ser experimentada como tédio crónico, e o tédio sempre foi um dos grandes motores da desrazão política.
A República de Weimar, mais conhecida por Reich Alemão, não caiu por desconhecimento, caiu por fadiga, por saturação com a lentidão, com a negociação, com a complexidade, o autoritarismo não entrou a pontapé, entrou em passo cansado, legitimado pela ideia de que pior do que o perigo era a imobilidade, a promessa não era um futuro melhor, era apenas movimento, qualquer movimento que quebrasse a sensação de paralisia.
O mesmo padrão repete-se no fim da República Romana, quando o desejo de ordem e eficiência abriu caminho à concentração de poder, apresentada como transitória e justificada como excepção técnica. A história insiste nesta pedagogia cruel, quando o presente se torna insuportável. O futuro deixa de funcionar como horizonte normativo e qualquer ruptura parece aceitável desde que rompa com a sensação de estagnação.
Persistimos também num erro de leitura confortável, insistindo em analisar os fenómenos políticos como construções exclusivamente racionais e ideológicas, quando são também, e sobretudo, fenómenos psicológicos de massa, as sociedades não decidem apenas com argumentos, decidem com afectos mal metabolizados, frustrações acumuladas, pulsões regressivas, desejos de compensação simbólica, ignorar esta dimensão é insistir numa leitura amputada do real, a política acontece no parlamento, sim, mas acontece sobretudo no sistema nervoso colectivo, e não é preciso irmos muito longe na análise quando um país figura entre os maiores consumidores de antidepressivos e ansiolíticos da Europa e da OCDE - esse dado deixa de ser periférico e passa a ser diagnóstico.
Neste contexto, parece-me que vivemos numa sociedade maníaco-depressiva. Deprimidos funcionais com impulsos maníacos que, sendo por vezes férteis em termos criativos - qual é o português ou brasileiro que não é adepto de gambiarras? -, se tornam facilmente auto-destrutivos quando deixam de ser regulados. Instala-se então, como fuga à depressão colectiva de um país do “vai-se andando”, a tentação da adrenalina cívica, não porque se deseje conscientemente a queda, mas porque a previsibilidade anestesiou a sensibilidade, abanar a estrutura, testar a resistência, provocar resposta, exactamente como quem acelera numa estrada molhada não para morrer, mas para confirmar que ainda sente o volante.
A neurociência política contemporânea ajuda a fechar o circuito deste pensamento - decisões tomadas sob estados prolongados de stress, frustração e sensação de impotência activam preferencialmente circuitos límbicos em detrimento do córtex pré-frontal, o que significa menos ponderação, menor projecção de consequências a longo prazo, maior resposta emocional imediata, o corpo colectivo, tal como o individual, passa a procurar estímulos fortes a curto-prazo como forma de auto-regulação, e o risco político transforma-se numa espécie de dopamina de substituição, um choque eléctrico administrado a um sistema saturado de apatia.
E neste contexto de stress generalizado, impõe-se a pergunta inevitável: o que nos conduziu a este estado colectivo de exaustão nervosa?
Um elemento particularmente revelador nesta dinâmica, e talvez o mais útil para diagnosticar a natureza maníaca do momento político actual: a dissociação crescente entre linguagem e realidade. Uma ruptura quase patológica entre o que se nomeia e o que efectivamente existe. Ao longo de cerca de um século pós-Grande Depressão, este país atravessou uma ditadura prolongada, conquistou liberdades fundamentais, construiu uma democracia social imperfeita, mas funcional. Ainda assim, assiste hoje à proliferação de um discurso que promete “libertar Portugal do socialismo”, como se essa entidade tivesse alguma vez sido plenamente implementada enquanto ideologia estruturante do regime. Não se trata de imprecisão histórica. Trata-se de delírio funcional.
Culpe-se então o socialismo.
A retórica anti-socialista opera aqui não como análise do passado, mas como mecanismo projectivo: um significante vazio onde se deposita tudo o que frustra, regula ou limita o desejo imediato. O socialismo deixa de ser uma categoria política e passa a funcionar como bode expiatório psíquico - uma palavra-contentor, suficientemente vaga para absorver qualquer mal-estar, suficientemente elástica para nunca precisar de definição.
Curiosamente, ou talvez sintomaticamente, as poucas medidas de inspiração socialista que efectivamente moldaram o país, do Estado social à escola pública, do Serviço Nacional de Saúde à protecção laboral básica, figuram entre os pilares mais consensuais da vida colectiva. São utilizadas, defendidas e, quando ameaçadas, prontamente choradas. Ainda assim, são invocadas como ameaça abstracta, como se fossem um corpo estranho à própria experiência quotidiana. Não se combate o que existe. Combate-se uma fantasia.
Este curto-circuito semântico, que reaparece sempre que se combate um “socialismo” que nunca existiu como prática efectiva, enquanto se usufrui, sem conflito aparente, de tudo o que resultou de políticas social-democratas ou de inspiração socialista, não é uma contradição lógica, é a falência da lógica. O que está em funcionamento não é o pensamento, é a descarga afectiva. A palavra actua como gatilho límbico, não como categoria analítica. Na fase maníaca, a memória é reescrita, a complexidade torna-se intolerável, a linguagem acelera e simplifica, o signo emancipa-se do significado. As palavras deixam de ancorar a realidade e tornam-se instrumentos perfeitos, porque já não exigem prova, apenas repetição.
Não foi o neoliberalismo que manteve a sociedade de pé, foi precisamente aquilo que ele promete erradicar. O que foi evitando o colapso não foi a desregulação, nem a mão invisível, nem a fantasia da eficiência pura, mas um conjunto de amortecedores sociais, muitos deles de inspiração claramente social-democrata, alguns mesmo inequivocamente socialistas no sentido clássico do termo, ainda que aplicados de forma pragmática, híbrida, por vezes contraditória.
O neoliberalismo funcionou como lógica hegemónica, privatização de empresas públicas com potencial, compressão salarial, individualização do risco, moralização do mérito, benefícios e perdões fiscais recorrentes para grandes empresas - enquanto o tecido empresarial maioritário (99,9%) em Portugal, as micro, pequenas e médias empresas, continua a enfrentar desafios estruturais sem resposta proporcional. Esta lógica nunca garantiu coesão. Pelo contrário, produziu precariedade estrutural, desigualdade persistente e uma erosão lenta da ideia de futuro. O sistema aguentou-se não pelo que o neoliberalismo construiu, mas pelo que não conseguiu eliminar por completo.
Foram o Estado social, os serviços públicos, a escola, a saúde, os mecanismos mínimos de protecção laboral, os subsídios, as pensões, os apoios em contexto de crise, os bailouts bancários (e não só) quando o mercado falhou, que impediram que a frustração económica se transformasse em colapso imediato. Em termos simples: o sistema sobreviveu graças a medidas que o próprio discurso dominante classifica como “socialistas” sempre que precisa de produzir medo.
Há aqui uma ironia quase cruel: o mercado é celebrado quando funciona, o Estado é convocado quando o mercado falha, e depois o Estado é acusado de existir em excesso. Não se trata de incoerência ocasional, mas de esquizofrenia funcional, uma psicose colectiva normalizada.
Na prática, vivemos em economias politicamente neoliberais e socialmente remendadas: sistemas que avançam segundo a lógica do mercado, mas sobrevivem graças a injecções regulares de solidariedade institucional. Não é um modelo coerente, é gestão de danos. E é precisamente esta incoerência prolongada que produz a fadiga colectiva: trabalha-se num regime que promete liberdade individual e recompensa, mas sobrevive-se graças a mecanismos colectivos que o próprio discurso oficial insiste em desvalorizar.
E agora na dimensão temporal que raramente é convocada nestas leituras, e que torna este impulso menos misterioso e mais estrutural, aproximamo-nos do centenário da Grande Depressão e, com ele, do fecho de um ciclo económico longo, daqueles em que a promessa de mobilidade, progresso e recompensa individual se vai esgotando lentamente até se transformar num simulacro funcional. Quando várias gerações vivem sob a expectativa de um futuro melhor que nunca chega, quando o crescimento se transforma em gestão de perdas e o discurso do mérito começa a soar a insulto, instala-se uma fadiga histórica que não é apenas económica, é existencial. Nestes momentos, o perigo volta a adquirir valor, não como projecto ideológico, mas como ruptura sensorial, o risco surge como forma primitiva de reacção a um tempo que deixou de oferecer horizonte, e a escolha política perigosa funciona como tentativa de quebrar a inércia de um ciclo que já não promete ascensão, apenas sobrevivência administrada. Não se trata de desconhecer a história, trata-se de repetir o gesto, e a história, que emerge sempre que o futuro se fecha e o presente se prolonga em demasia.
Muita coisa mudou em cem anos. E, ao mesmo tempo, quase nada no que toca ao mecanismo profundo que liga crise, fadiga e tentação pelo perigo. O que mudou foi a forma; o impulso permanece assustadoramente estável.
Se há cem anos a Grande Depressão expôs o colapso abrupto de um sistema económico ainda cru, hoje vivemos um colapso prolongado, difuso, administrado. Em 1929, a crise foi um choque visível: bancos a falir, fábricas a fechar, desemprego massivo, fome, miséria material incontornável. O sofrimento tinha corpo, rua, estatística evidente. Hoje, a crise é mais subtil e, por isso, mais corrosiva. Não se manifesta sobretudo como ausência absoluta, mas como frustração contínua. Trabalha-se, consome-se, sobrevive-se, mas a promessa estrutural - progresso, mobilidade, recompensa - foi sendo silenciosamente retirada do contrato.
O que mudou foi o tipo de escassez. Antes, faltava pão. Agora, falta horizonte.
Em 1929, o sistema falhou de forma explícita e rápida. Hoje, o sistema funciona, e é precisamente isso que o torna exaustivo. Funciona mal, mas funciona o suficiente para impedir ruptura clara. Produz rendimentos insuficientes, futuro adiado, vidas permanentemente em suspenso. A precariedade e desigualdade deixou de ser excepção e tornou-se condição estrutural. Não se cai de repente; desliza-se durante décadas.
Mudou também a relação com o tempo. Há cem anos, a expectativa de progresso era colectiva e relativamente linear: crise, reconstrução, crescimento. Hoje, o tempo histórico fragmentou-se. Vive-se num presente contínuo, saturado de informação, estímulos e urgências artificiais, mas pobre em projecção a longo prazo. A política passou a gerir o imediato, a economia a gerir danos, e o futuro tornou-se um conceito abstracto, quase decorativo. Quando o tempo deixa de prometer, o risco torna-se atractivo porque introduz acontecimento.
Mudou ainda a forma como o poder se exerce. O autoritarismo de há cem anos apresentava-se como ruptura clara, como força, como ordem visível. O de hoje infiltra-se por normalização, por discurso, por cansaço. Já não precisa de botas: precisa de microfones, algoritmos e repetição. Não se impõe apenas pelo medo, mas pela saturação. E sociedades saturadas tendem a confundir intensidade com verdade.
O que também mudou foi o estado psicológico colectivo. Nunca houve tanta linguagem terapêutica, tantos diagnósticos, tantos fármacos, tanta gestão emocional, e nunca houve tão pouca sensação de controlo real sobre a própria vida. O sujeito contemporâneo é convidado a adaptar-se constantemente a condições que não escolheu, enquanto lhe é dito que a responsabilidade é individual. Esta dissonância produz uma exaustão específica: não a do colapso, mas a da culpa sem saída.
O que não mudou é o padrão: quando a vida se torna demasiado estreita, o perigo reaparece como promessa de expansão, quando o futuro se fecha, o risco parece abrir uma fresta, quando a política deixa de oferecer projecto, o corpo social começa a procurar descarga.
Há cem anos, o perigo parecia solução. Hoje, parece estímulo.
E a diferença mais inquietante é: antes acreditava-se que o abismo levava a outro lugar. Agora, inclina-se o corpo sabendo que não há para onde ir, quer-se apenas para sentir alguma coisa antes do impacto.
O mais inquietante é que este movimento, este chamamento do vazio, ocorre com plena consciência. Não se trata (apenas) de ingenuidade democrática, trata-se de dessensibilização moral, os riscos são conhecidos, os precedentes históricos estão documentados, mas já não provocam repulsa visceral, e como escreveu Hannah Arendt, o colapso não começa quando se perde a noção do mal, começa quando o mal deixa de causar desconforto suficiente para travar o gesto.
E então pondera-se a visão do abismo. Pondera-se, porque persiste a ilusão de imunidade institucional, a crença ingénua de que os cargos não têm assim tanto poder, de que as estruturas se auto-regulam, de que o simbólico é inofensivo, como se o discurso não educasse, como se o tom não normalizasse, como se a legitimação não fosse contagiosa, é um erro antigo e recorrente, instituições não são muralhas, são organismos, e organismos adaptam-se, sempre, também ao que os corrói.
Portugal nunca foi um país de explosões, prefere a erosão lenta, o desgaste silencioso, o adiamento crónico, mas esquece-se que a erosão também mata, apenas demora mais e faz menos ruído. A memória colectiva da ditadura mais longa da Europa Ocidental é já ténue, quando não inexistente. O que se ensaia neste momento, não é uma ruptura teatral, é um deslizamento polido, quase elegante, um inclinar colectivo sobre o parapeito com a convicção infantil de que alguém, algures, uma mão invisível, impedirá a queda.
No fundo, a pergunta não é se somos irresponsáveis. É se estamos cansados demais para continuar responsáveis.
Historicamente, isso nunca acabou bem.
D.




Brutal artigo!
Sim. Falta agora horizonte. Em muitos quadrantes.
Uma escrita sublime e arguta. Parabéns pela temperança e pela ponderação