“I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived.” - HDT
“Por favor, tente mais tarde” é uma expressão que ouvimos quando algo não está disponível no imediato. Uma linha ocupada ou uma página que não carrega - um sistema temporariamente incapaz de responder ao que lhe pedimos. Não significa que aquilo que procuramos não exista, mas que naquele momento, não lhe conseguimos aceder. Apesar de parecer uma frase frustrante, também carrega uma dose de esperança. Não desista, volte daqui a pouco que é capaz de funcionar.
Acho que somos formatados para acreditar que a indisponibilidade é uma condição provisória, que insistir é uma forma de esperança e o que não está a responder agora, talvez, quiçá, responda se soubermos ter calma e esperar o suficiente. Actualizar a página. Voltar ao início. Fazer novamente a pergunta. Procurar o ponto exacto onde alguma coisa deixou de funcionar. E encontrada a avaria, seja possível restaurar o sistema à sua condição anterior.
Escrever é uma das formas que encontro para fazer esse caminho ao contrário. Espero que tudo assente, que fique a marinar, observo os destroços e escolho aquilo que merece ficar. Há quase dois meses escrevi que precisava de me retirar daqui e das redes sociais. Não abandonei o mundo, não fui viver para uma cabana no meio da floresta com um lago à frente (infelizmente) e ainda não consegui determinar se a vida analógica é uma forma superior de existência. Mas continuei a pensar. A ver. A escrever. Muito. Apenas deixei de transmitir em directo.
Lembro-me de pensamentos que tive aos três anos de idade. Aliás, nem três anos de idade tinha e poderiam ser confusões ou ficções retrospectivas que a memória adulta fabrica não fossem elas corroboradas por adultos séniores que estiveram presentes. Estou a caminho de completar trinta e oito. Parecem-me muitos anos a pensar.
Lembro-me das férias de verão antes de entrar para o 10º ano, e de estar entusiasmadíssima por começar a ter Filosofia no ano lectivo que se avizinhava - eu sei, que idiota. Obriguei a minha mãe a comprar o manual com antecedência, li o livro todo nas férias e tirei notas - há evidências fotográficas disto, com uma fotografia minha na praia a tirar notas num caderno e com o livro ao lado.
Isto para dizer que pensar é-me muito primordial e absolutamente inevitável, não necessariamente pensar bem - a compulsão não me parece uma virtude - mas pensar muito. Nunca tive a capacidade extraordinária de deixar as coisas acontecerem. Preciso de mexer, virar tudo ao contrário, perceber de onde veio algo, o que é que significa visto daqui, dali, do lugar onde eu vejo e daquele de onde alguém completamente diferente de mim poderá ver. Desconfio sempre das primeiras interpretações, sobretudo as minhas. É muito inconveniente habitar uma cabeça que não se senta quieta, mesmo quando o corpo pára.
Mas durante estes meses, tenho-me permitido ter ideias péssimas. Algumas tiveram tempo de morrer, outras de nascer, mudei de opiniões, construí novas, contradisse-me e voltei atrás. Houve tantos acontecimentos e não transformei praticamente nenhum em conteúdo. Tirei pouquíssimas fotografias, houve perguntas que pude deixar abertas e descobri que há pensamentos que precisam que os deixemos em paz e outros que precisam de muito tempo.
Por isso estou a escrever este exórdio e não o texto por acontecer - mas que já vai acontecendo em nove mil palavras. Ainda estou demasiado dentro dele para saber exactamente o que é. Aparecerá no meu tempo. Quando regressar.
Tenho guardado tudo o que acho que merece ser guardado e tento não me demorar onde não sou feliz.
Uma conversa sobre dinheiro e comunismo. Decisões tomadas para fugir ao medo que carregam o medo com elas na bagagem. Uma mulher que descobre tarde as coisas que realmente gosta. A amizade de pessoas bonitas. Casamentos sem convidados. A possibilidade de não faltar ninguém. A possibilidade. Esquinas. Abraços suficientemente demorados para parecerem arquitectura. A quantidade de manutenção necessária para que uma coisa continue viva. Pessoas que chegam tarde e coisas que percebemos ainda mais tarde. Um gato que se chama “Itálico”. Os senhores de meia idade que observam os outros a trabalhar. A suspeita de que maturidade seja aprender a não fugir quando uma coisa fica séria. Uma obsessão por filmes pirosos e previsíveis dos anos 90. Coisas em comum com a Pamela Anderson e a Julia Roberts. Pessoas que confundem abrigo com permanência e outras que passam metade da vida a preparar-se para uma catástrofe e acabam a construir a casa inteira em redor dela. Desalinhamentos de padrões. Desalinhamentos, desvios, derivas. Sonhos acordados: “Penso demasiado mas não sei o que sinto”. Escrever uma teoria económica. Quando demoramos a procurar alguém online e quando deixamos de responder rápido. Quando deixamos de saber quem viu, quem gostou, quem chegou, quem desapareceu, quem está onde, com quem, a fazer o quê. Quando recuperamos alguma ignorância sobre a vida dos outros e permitimos que os outros recuperem alguma ignorância sobre a nossa. Um debate entre mulheres, uma “progressista”, uma “conservadora”, moderado por um homem. O aborto. O envelhecimento. Ensaios que se carregam. Odisseias. A cor amarelo. Tragédias humanas - há alguma que não seja?. A diferença entre varandas e alpendres. Tropeçar nas pedras. A inexistência de visão binocular. Construções de postos de abastecimento de combustível. Corações ao contrário. A estranha e incómoda ideia de que se pode amar sem haver uma direcção. O medo que se disfarça de prudência. A surpresa como lembrete em como nunca estivemos no comando. Ecossistemas de borboletas, não porque subitamente tenha desenvolvido uma obsessão entomológica - há uma fase linda da minha vida que envolve borboletas, literalmente - mas porque comecei a pensar que algumas coisas da vida são ecossistemas e não edifícios. Não ficam prontas, não possuem, não sobrevivem muito tempo sozinhas, precisam de condições, diversidade, manutenção, atenção. Precisam que alguém continue a reparar se há água, alimento, luz. As coisas que não morrem por falta de amor, morrem porque alguém julgou que amar chegava - será que não chega? Não é isso, amor? E é possível existir amor sem nos perdermos um bocadinho de nós próprios?
E alpendres. Sempre gostei de alpendres e os limbos já não me parecem tão idiotas assim se os imaginar como alpendres. Um alpendre não é uma casa, mas também não pertence inteiramente à rua. É uma arquitectura de transição. Um lugar que não exige. Algumas das coisas mais importantes da vida precisam de um lugar onde não seja obrigatório decidir imediatamente se estamos dentro ou fora, e os alpendres têm sido o melhor sitio para repousar a mente. Eu, que até há pouco tempo, dizia muito orgulhosa que mais valia uma decisão errada que não tomar nenhuma - a definição e a direcção eram-me importantes. Ainda são. Mas nem as decisões são erradas, e o não decidir é também uma decisão bastante libertadora.
Aprender a demorar-me em alguns sítios que merecem um outro olhar. Aprender a sair deles quando deixam de alimentar. E uma pergunta que ainda não sei responder: quantas das decisões que julgamos tomar são na verdade tomadas pelos nossos medos? Como determinista a resposta parece-me óbvia, mas ainda estou a pensar nela. No alpendre da casa. E é por isso que isto ainda não é um regresso.
Durante algum tempo interpretei sempre o “tente mais tarde” como uma instrução para insistir. Esperar um pouco e voltar a carregar no mesmo botão, fazer a mesma pergunta. Agora parece-me que o mais importante da frase não seja o “tente”, mas no “mais tarde”. Na autorização para não resolver, não saber no imediato, deixar uma coisa existir primeiro, ou morrer, antes de poder decidir o que significa. Aceitar que algumas respostas não estão indisponíveis porque falhámos a pergunta, mas porque ainda não chegámos ao tempo delas e talvez nem chegaremos. Crescer é também suportar essa hipótese, sem passar a vida inteira a carregar em actualizar.
Este texto é uma delas. Eu, possivelmente, também.
Não desapareci, mas também não cheguei. Estou naquele território intermédio que passei tantos anos a evitar, sem saber se fico, se entro, se saio. Coisas que ainda estão a acontecer, outras que ainda estou a perceber se aconteceram, muitas que mudarão até lá. Espero que sim. Seria preocupante já ter escrito nove mil palavras sobre este tempo todo para chegar ao lugar exacto de onde parti.
Por agora, fico no alpendre, onde não é preciso escolher imediatamente entre a casa e o mundo.
Por favor, tentem mais tarde.
D.



