Fotografia: arquivo pessoal, 2017
Dores que nos retiram a linguagem.
O corpo responde antes de nós: fecha a casa, recolhe as extremidades, protege os órgãos, reduz o mundo ao tamanho suportável de uma respiração.
Joelhos contra o peito,
braços em volta do que ainda pulsa,
a nuca entregue -
posição fetal.
Chamam-lhe encolher-se, como se fosse cobardia ocupar menos espaço quando o mundo inteiro nos caiu em cima.
Mas antes de aprendermos a estar sós, estivemos assim: fechados num escuro sem ameaça, imersos em água e sangue, a ouvir um coração que não era o nosso garantir-nos, sem palavras, que havia tempo.
O corpo não esquece essa primeira casa.
Quando já não encontra abrigo em parte alguma, tenta reconstruí-la com os próprios ossos.
Foi o que fiz.
Curvei-me até ficar apenas isto: uma coluna em arco, duas mãos a guardar o peito, um coração exausto a trabalhar na sombra.
Não queria morrer.
Queria apenas que o mundo parasse de me tocar.
E, durante algum tempo, existir foi só isto: respirar sem fazer barulho, não exigir amanhã, segurar dentro de mim o pouco que restava, como se segura um animal ferido que ainda não sabe se pode confiar nas mãos.
Há quem veja desistência.
Eu sei agora que era resistência: não o corpo a abandonar a vida, mas a vida a defender, dentro do corpo, o seu último centímetro.
Adormeci assim, sem respostas, com os joelhos encostados ao lugar onde doía, e o medo, finalmente reduzido, já não era uma casa inteira a arder.
Era apenas uma coisa pequena,
a tremer nas minhas mãos.
D.



