O desafio está em separar, com bisturi, o que é crítica do capitalismo do que é crítica do progresso, porque não são sinónimos, e porque o progresso não precisa de andar a jacto para existir - pode andar a pé, pode até parar um instante para respirar, sem por isso se suicidar. Chamemos-lhe, com ironia séria, progresso conservado.
Somos, quase todos, progressistas por instinto e conservadores no que amamos. Queremos mudanças nas estruturas que nos esmagam, mas guardamos, como relíquias vivas, os ritos que nos salvaram do desamparo: a caneca do avô, o vocabulário da mãe, o quadro que não vale dinheiro mas vale casa. E isto não é contradição, é equilíbrio. Uma sociedade que progride não tem de triturar as suas continuidades - tem de as curar, como quem faz a manutenção de um motor antigo para atravessar o inverno.
O problema começa quando alguém baptiza de progresso aquilo que é apenas velocidade, confunde engenharia social com marketing financeiro e chama “disrupção” à velha avidez de sempre. Surge então a versão turbo do mundo - um capitalismo que se anuncia como futuro e se comporta como peste. E deixem-me falar de Žižek, que nisso acerta em cheio, na sua obra Contra o Progresso. O seu humor negro mapeia as ruínas, lembra-nos que toda promessa traz sombra, que nenhuma técnica redime sozinha, que o algoritmo, sendo útil, não sabe praguejar nem desejar, e que há um preço quando vendemos o intervalo humano por eficiência - o intervalo onde cabem o erro, o recuo, o pudor, o flirt, a demora: tudo o que a aceleração considera desperdício.
Mas uma coisa é aceitar a autópsia do capitalismo aceleracionista; outra é decretar que progresso e capitalismo sejam sinónimos. Porque não são. O progresso é uma ética temporal: a arte de ampliar direitos, de alargar o círculo do nós, de afinar instituições para que caibam mais corpos sem humilhação. Progresso é saneamento, voto, vacina, escola, memória crítica - e nada disto exige um casino financeiro nem crescimento ilimitado. Exige apenas um conservadorismo criterioso: conservar as conquistas, o sentido do limite, a dignidade como dogma e o resto como hipótese.
Há, pois, um conservadorismo que não é nostalgia nem polícia: é cuidado, é a ciência de manter o que vale porque foi arduamente arrancado ao abismo - o sufrágio, a laicidade, o serviço público, as liberdades civis, a igualdade jurídica. E esse conservadorismo é progressista na raiz, porque guarda o chão para que outros avancem mais um metro. Antonio Gramsci diria: pessimistas na inteligência, optimistas na vontade. Eu acrescentaria: conservadores no essencial, progressistas no possível.
O que mata é a pressa de confundir ritmo com destino. Se o capitalismo impõe métricas de trimestre e rotatividade de desejo, o progresso democrático trabalha com outro calendário: o da maturação. Não precisa de foguetes, precisa de protocolos, de regras públicas, de deliberação lenta, de correção retroactiva. A aceleração permanente é um vício de multinacional, não um dever da cidadania. Uma sociedade pode progredir devagar, como quem sobe a serra, parando para não perder o fôlego nem a vista, até porque chegar vivo faz parte do caminho.
Žižek antecipa barbáries e pede autoridade para coordenar emergências. É um pessimista lúcido, compreendo o grito, mas a autoridade que nos serve não é a do chefe providencial -é a da instituição confiável: tribunais que não se dobram, agências que auditam sem amizade, serviços que respondem antes da catástrofe. Esse é o conservadorismo que subscrevo: conservar o que nos protege do capricho e do apetite, conservar o que torna a democracia e a coragem possíveis, porque sem moldura nenhuma pintura aguenta na parede.
Quanto à esquerda, que ele acusa de moralismo e fragmentação, há tanto justiça como caricatura. A esquerda que importa não é a que patrulha léxicos, é a que transforma princípios em políticas, a que organiza meios para fins públicos em vez de hashtags para consciências tranquilas. E aqui, sim, é preciso distinguir ética de slogan, sustentabilidade de folheto, defesa de minorias de política social universal. Quando nos limitamos à pose, entregamos o povo à demagogia que vende um passado em saldo; quando descemos ao chão, com método, com pactos, com orçamento, mostramos que o progresso não é performance nem timeline - é trabalho, é obra, é o verbo na sua forma mais civil.
Žižek chama a este impasse que vivemos “o lado negro do progresso”. Em Contra o Progresso, não renega a modernidade - antes lhe toma o pulso e encontra febre. Denuncia a forma como o progresso se converteu em dogma, em marketing, em anestesia moral - como se o simples avançar bastasse para redimir, e nisso acerta: nenhuma técnica é inocente, nenhuma aceleração é neutra, e toda promessa de futuro arrasta a sombra dos seus custos invisíveis.
Contudo - e aqui deixo a nota de rodapé pessoal, o meu disclaimer ideológico - falo como progressista convicta, das que acreditam nos pilares civilizacionais do Iluminismo, na laicidade, na igualdade e na liberdade como condição, não como privilégio. O que defendo não é o progresso enquanto velocidade, mas enquanto ética. Por isso me inquieta, ainda que com admiração, quando Žižek, por provocação dialéctica ou prazer irónico, parece confundir capitalismo com progresso - como se o avanço humano fosse inseparável da lógica de mercado, da acumulação ou da aceleração tecnológica. Ele próprio diria que não os confunde, que apenas os sobrepõe para expor a contradição. Mas essa sobreposição - esse “progresso capitalista” - gera uma ambiguidade perigosa: faz crer que toda ideia de avanço é cúmplice da máquina que a devora.
A obra de Žižek revela, a meu ver, essa armadilha: quando escreve que “o capitalismo é o sistema mais dinâmico da história” e que “é preciso atravessá-lo para o superar”, ou quando afirma que “o capitalismo é o motor da modernidade e o prenúncio da catástrofe”, concede-lhe um poder transformador que acaba por fundir o progresso técnico, social e cultural com a lógica capitalista. Ao falar da “aceleração do real” e da “lógica expansiva da modernização”, Žižek soa, por momentos, como se o capitalismo fosse a única via possível para o progresso - e é aí que a dialética se transforma em armadilha.
Ora, o capitalismo é apenas a forma económica que sequestrou o conceito de progresso - não o seu conteúdo moral. A crítica de Žižek é válida, mas o alvo deve ser recentrado: não o progresso, mas a sua usurpação semântica. Não é o futuro que nos ameaça, é o modo de o financiar. O perigo não está em sonhar com o avanço, mas em aceitarmos que ele se meça pelo gráfico do PIB. O capitalismo, por mais inventivo que pareça, não é a história da inteligência humana - é apenas o seu vício mais persistente.
O progresso não precisa de andar à velocidade do lucro para ser progresso. Não é a corrida, é o fôlego; não é o jacto, é a estrada; não é o mercado, é a maturação. Uma sociedade pode ser profundamente progressista enquanto abranda, enquanto observa, enquanto decide não converter cada avanço técnico em dogma económico. O capitalismo, esse, é a febre - o sintoma de uma humanidade que trocou a pergunta “porquê?” pela pergunta “quanto?”. O progresso, em contrapartida, é uma inteligência do tempo: acontece quando ampliamos o círculo do “nós” - quando o voto se estende, o corpo se emancipa, a diferença se protege, a dignidade se distribui. Nada disso requer Wall Street.
Há, portanto, um tipo de conservadorismo de que o progresso precisa: não o da ordem contra a mudança, mas o da memória contra o delírio. Conservar o que nos torna humanos - a escola pública, o debate livre, a saúde, a cultura, o tempo não produtivo, a lentidão do pensamento. Progresso e conservação não são opostos: são engrenagens da mesma engenharia da sobrevivência. Conserva-se para que o avanço não destrua os alicerces; progride-se para que o alicerce não se converta em prisão.
Vivemos, afinal, um período histórico incrível - e o incrível aqui não é elogio, é diagnóstico. Incrível no sentido literal, de quase inacreditável. Um tempo antropologicamente vertiginoso, sociologicamente febril, em que tudo o que era chão se move: o corpo, o trabalho, o desejo, o poder, a verdade. É como se o humano, sem manual de instruções, tentasse reconfigurar-se diante do espelho digital. Mas incrível também porque é lúcido: nunca fomos tão conscientes das nossas contradições, nem tão incapazes de as resolver. O século é um laboratório aberto - parte revolução, parte pós-operatório - e o mundo observa-se enquanto sangra.
Se a inteligência artificial ameaça o intervalo do desejo, respondamos com instituições humanas mais inteligentes - não com pânico. Estabeleçamos limites públicos à captura da atenção, às manipulações neuronais, aos monopólios de dados. Façamos o que o capitalismo não faz porque não lhe convém: conservemos, com zelo, os lentos instrumentos do comum - escola, biblioteca, jornalismo, cultura - tudo o que produz complexidade e desacelera o reflexo tribal. Não há barbárie que resista a uma cidade que lê e conversa.
Por isso, sim: vivemos um século incrível - mas incrível porque está suspenso entre lucidez e colapso. É a era do Homo algoritmo, um ser que pensa em rede e sente em reticências, que acredita dominar o mundo enquanto delega a própria consciência à máquina. Mas também é a era em que, paradoxalmente, reaprendemos a falar de cuidado, de empatia, de limite. A catástrofe aproxima-nos da ética como a vertigem aproxima o equilíbrio.
É aqui que o progresso precisa de reencontrar a sua vocação. Chamar “progresso” ao que apenas cresce é erro; chamar “conservador” ao que apenas trava é medo. O binómio útil é outro: progredir no que liberta, conservar o que dignifica. O resto é espuma de época. Não aceito que o futuro seja, por decreto, uma corrida. Prefiro que seja uma edição: cortar excessos, montar sequências, dar lugar ao silêncio onde a inteligência respira, preservar as cenas que explicam quem somos e lançar o filme só quando faz sentido que todos o vejam.
Žižek fala, com melancolia lúcida, da esquerda que se perdeu entre o moralismo e a fragmentação - que a esquerda tornou-se, por vezes, uma estética, um léxico, uma pose, esquecendo o seu dever de organizar o real. Mas onde ele vê falência, eu vejo metamorfose: lenta, irregular, cheia de contratempos. O verdadeiro progressismo não é a ideologia do futuro perpétuo, é a responsabilidade pelo presente. E o futuro que me interessa não é o que chega mais rápido, é o que chega inteiro, porque o progresso é o fôlego, e o capitalismo é a febre - e este século incrível é o intervalo em que decidimos qual dos dois queremos conservar.
D.




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