Bikini Kill on stage with Joan Jett (left) at Irving Plaza in New York, July 1994. Photograph: Ebet Roberts/Redferns
Há algo de tragicómico no destino do punk, cria bastarda do niilismo e da raiva operária, cuspida contra as convenções e hoje domesticada, plastificada, empacotada e vendida em retalho. Se o sentimentalismo nostálgico nos der para as lágrimas, chamemos-lhe tragédia; se a lucidez nos permitir rir disto, tratemos como farsa. Imaginemos Sid Vicious, ainda a digerir mal os restos de heroína e decadência, sentado numa reunião de brainstorming com executivos do AliExpress. Olhos brilhantes, lucros exponenciais, e a ironia a materializar-se no próximo pack de pins anarquistas, três euros, portes incluídos.
O punk era um vómito contra a estética do consenso, um riso violento na cara das boas maneiras. Cabelos espetados, casacos rasgados, alfinetes a perfurar não só tecidos mas convicções, um escarro seco no rosto do capitalismo. Mas eis que chega o século XXI, e um kit punk completo aguarda-nos à porta de casa, comodamente entregue pela mão invisível do mercado. Pins importados da Temu, calças rasgadas em fábricas que exploram crianças, t-shirts ‘anti-sistema’ impressas por quem talvez nunca tenha ouvido falar do sistema que supostamente combate. A distopia é um guião de má qualidade que se tornou realidade.
O grotesco do tempo em que vivemos não reside apenas na contradição óbvia entre a rebeldia e a sua monetização; reside na banalização da própria ideia de resistência. O movimento Riot Grrrl, outrora grito feminista cru, foi triturado e reciclado num pop açucarado de girl power, pronto a ser servido por ícones pop cuidadosamente fabricados. A ética punk do ‘do it yourself’ reduzida a slogans instagramáveis, frases feitas impressas em t-shirts manufaturadas por mulheres exploradas, garantindo que a revolução continua acessível a 9,99 euros. A dialéctica é cruel e o sarcasmo é involuntário.
O conceito de resistência foi convertido em adereço, um acessório para selfies cuidadosamente coreografadas. Outrora gritos colectivos, agora hashtags estrategicamente posicionadas. Marchas feministas transformadas em cenários para stories, cada cartaz um exercício de branding pessoal. E então, quando a luta se torna uma questão de visibilidade individual e não de transformação estrutural, o que resta? Apenas um teatro de sombras onde se simula intensidade enquanto a máquina continua a girar, indiferente e insaciável.
Mas a grande vitória do sistema não foi apenas absorver o punk e vendê-lo ao desbarato; foi a conversão total. Há um abismo crescente entre a forma e o conteúdo, entre a estética e a substância. O punk, em teoria anticapitalista, tornou-se um dos seus produtos mais eficazes. A ironia é absoluta: encontramos t-shirts de Sex Pistols na H&M, vendidas como um grito de rebeldia fabricado à escala industrial. Está tudo tão “anti” que acabou por se tornar profundamente “pró”.
Há quem argumente que a massificação trouxe ganhos: já não vivemos num mundo onde tatuagens e cabelos pintados são necessariamente sinais de marginalidade. Mas a questão permanece - quando uma estética é esvaziada do seu conteúdo ideológico, o que sobra? O destino de toda subversão será tornar-se um artigo de retalho? Será o punk apenas mais um nome numa colecção de fast-fashion, ao lado de sweatshirts de Nirvana e leggings com motivos ‘grunge’?
E assim chegamos ao tema sempre espinhoso do gatekeeping. Preservar a essência sem cair na ortodoxia, evitar a nostalgia paralisante enquanto se tenta impedir a total digestão da rebeldia. Mas o gatekeeping, esse velho porteiro de maus fígados, já não está ao serviço da cena. Ele morreu, e no seu lugar ficou um algoritmo indiferente, decidindo por nós quais serão os próximos ícones da contracultura.
O resultado? Um concerto pseudo punk onde cada músico toca uma melodia diferente, convencido de que desafinar é, em si, um acto revolucionário. Não é. A ausência de coesão não é sinónimo de liberdade criativa; é apenas o som do vazio. E no fim, o que sobra? Ruído. Um ruído que não perturba, que não incomoda, que não convoca nada para além de um eco de si próprio.
Mas em alguma cave, alguma garagem, alguma cidade esquecida, há ainda amplificadores a zumbir e guitarras a ferver. Os primeiros acordes de ‘Rebel Girl’ das Bikini Kill ecoam e lembram-nos que o punk não está no mercado, nem nos museus, nem nos editoriais de moda. Está no suor, no som que rompe o tédio, no desconforto que não se vende.
E se tudo mais falhar, talvez o acto mais punk do presente seja ignorar esta reflexão e simplesmente seguir em frente. Porque, no fim, o que há de mais conformista do que levar tudo demasiado a sério? E a seriedade é apenas outra forma de controlo. Afinal, é quase sexta-feira e há sempre um novo absurdo à espreita.
D.



