Survival (1983–85), 1985 © 1985 Jenny Holzer, NY / Fotografia: John Marchael
Não tenho por hábito comentar o circo semanal da contemporaneidade - o desfile vagamente grotesco de acontecimentos que surgem à segunda-feira, inflamam a terça, agonizam à quarta e desaparecem sem rasto à quinta - mas este caso pede mais do que um encolher de ombros. Não que o mediatismo tenha, de súbito, ganhado profundidade - continua tão raso como sempre - mas porque a maquinaria por trás da espuma merece, desta vez, análise morosa. Isto não é apenas notícia: é sintoma. E quando o sintoma se apresenta com esta exuberância narcísica, com esta alegria quase infantil em ser visto, com este fervor de likes, engagement e genuflexões públicas, o mínimo que posso fazer é aproximar-me com pinças, luvas e uma sobrancelha levantada. Não por indignação, mas por higiene intelectual.
E já agora, permito-me acrescentar a irritação sempre renovada que certos comentários provocam de um modo quase visceral - as opiniões instantâneas que emergem nestes episódios são sempre os mesmos mantras - “é só futebol”, “deixem o homem viver”, “todos fazem o mesmo” - como se a mediocridade analítica tivesse passado a condição higiénica, uma espécie de exfoliação do pensamento crítico. Há ali uma vocação quase eclesiástica para evitar a complexidade. E irrita-me não pelo conteúdo - vazio, previsível, automático - mas porque são antropologicamente reveladores: mostram um país que prefere a inocência fingida à responsabilidade adulta, um país que se recusa a ver a profundidade política dos seus próprios ídolos.
Irritações à parte, os acontecimentos da semana - que mais parecem ter sido escritos a quatro mãos: um guionista exausto e um algoritmo ávido de atenção - trouxeram-nos esta visita de Cristiano Ronaldo e da Arábia Saudita à Casa Branca, momento em que a realidade abandona o seu eixo e se estica, elástica, até tocar o absurdo. O mundo fez uma pausa para assistir à fusão total entre política-espectáculo e espectáculo-político, e nós, espectadores involuntários, aguardámos apenas para saber onde terminava o Estado e começava o influencer. Portugal não foi convidado, mas está lá - surge na fotografia, sorridente e sem perceber bem como lá chegou.
Nada é inocente neste ritual. Nem a pose, nem o sorriso diplomático, nem o acolhimento coreografado de quem não recebe um atleta, mas uma potência cultural privatizada, uma commodity simbólica, uma divindade pagã com estatuto de activo financeiro. A Casa Branca não recebe Ronaldo - recebe o algoritmo que o acompanha, um exército de olhos digitais cuja magnitude faz corar qualquer colégio eleitoral.
Há quem veja nisto honra. Há quem veja vergonha pela associação à Arábia Saudita. Eu vejo o espelho do nosso tempo: um século XXI que substituiu tratados por fotografias, alianças por hashtags, valores por métricas de alcance. Um tempo em que a iconografia presidencial convive pacificamente com a cultura pop, porque ambos aprenderam a mesma lição: que a verdade do mundo se mede por visualizações e não por valores.
Há também a ternura involuntária do mito meritocrático: o menino da Madeira, que cresceu entre dificuldades reais, pisa agora o tapete onde se decidem guerras, mercados e futuros. O gesto é politicamente performativo, sim, mas não deixa de carregar uma espécie de mitologia pós-moderna - o herói contemporâneo que trocou a espada pelo contrato e o cavalo pelo private jet. Se a Ilíada fosse escrita hoje, provavelmente teria patrocinadores.
Mas se Ronaldo, no cume do seu Olimpo pessoal, acredita que esta visita comprova a sua importância histórica, convém lembrá-lo da verdade rudimentar do poder: ele é peça decorativa. Útil, luminosa, rentável - mas peça. Uma ferramenta para capitalizar atenção, desviar narrativas, polir imagens. E quando ele próprio confessa, com orgulho quase pueril, que não gosta de ler, talvez se ilumine não a “burrice” literal, mas a sedutora vulnerabilidade à adulação, ao elogio barato, à vaidade frágil que trata cada fotografia como se fosse eternidade. O ego subiu-lhe tanto que perdeu o horizonte - e, como cantou Bowie, “‘Tis Pity She’s a Whore” : há destinos trágicos que começam quando o aplauso exila o pensamento.
A velha frase - “cada um faz o que quer da sua vida” - é confortável, quase liberal na superfície, mas não resiste ao mais leve toque sociológico. Serve para anónimos - é mesmo um luxo dos anónimos (e por favor permitam-nos alguns luxos). Não serve para símbolos globais. Uma coisa é o meu tio decidir ir à pesca em vez de ir votar, outra é um homem com seiscentos milhões de seguidores entrar na Casa Branca como quem entra num ginásio de luxo, sabendo que metade do planeta observa e que cada gesto é interpretado, apropriado e multiplicado por sistemas que ele não controla.
E ninguém aqui o está a cancelar - o país não precisa de mais mártires digitais. Ronaldo é extraordinário no que faz, ponto final. Mas excelência desportiva não imuniza contra decisões politicamente ingénuas nem contra a responsabilidade moral inerente a quem influencia massas. Desde o instante primordial em que um chefe tribal subiu a uma pedra para ser visto por todos, ficou selada a condenação: quem influencia não é nunca um indivíduo isolado, é sempre um dispositivo de responsabilidade colectiva.
Portugal, porém, reage com a sua esquizofrenia habitual: “Como pôde ele ir à Casa Branca com a Arábia Saudita, país que viola direitos humanos?”
Há aqui um inconfundível perfume de hipocrisia - um bouquet suave, com notas de moral selectiva e toques finais de desresponsabilização colectiva. Enquanto condenamos Ronaldo, assinamos acordos com regimes igualmente repressivos, recebemos investimentos duvidosos com tapetes vermelhos, e colaboramos alegremente com países que tratam direitos humanos como decoração opcional. Criticamos Ronaldo por ir à Casa Branca como se Portugal nunca tivesse alinhado com administrações que transformaram geopolítica em pirotecnia bélica.
É ridículo, e revelador.
Depois há a tragicomédia - Portugal inteiro não tem tanta influência como Ronaldo sozinho. E esta confissão deveria ser o centro da nossa vergonha - não ele. Projectámos nele o mito nacional que não conseguimos construir em instituições fortes, políticos competentes, nem projectos estruturados. Confundimos talento com clarividência, golos com ética, performance com bússola moral.
Ronaldo não tem de ser santo. Mas nós temos de ser adultos.
E ser adulto significa admitir que não existem actos neutros, sobretudo quando se pisa um palco global. A Casa Branca não é um resort turístico: é símbolo. Estar ali não é inocente. Estar ali é legitimar e ser legitimado. É ser absorvido pela maquinaria do poder que adora transformar figuras públicas em selos decorativos da sua própria narrativa.
A questão não é se Ronaldo devia ou não devia ir - essa pergunta é pobre, preguiçosa, pequena. A questão real é: Por que insistimos em fingir que a política e o espectáculo são esferas separadas quando, hoje, uma existe precisamente para sustentar a outra? E pior: Por que exigimos responsabilidade a um único homem quando nenhum país, nenhuma instituição, nenhum governo se digna a praticá-la de forma consistente?
Podemos, e devemos, admirar Ronaldo como atleta e rejeitar tudo o que ele representa como símbolo político involuntário. Podemos gostar dos golos e desprezar o seu lado geopolítico. Podemos dizer “cada um faz o que quer” e, simultaneamente, exigir responsabilidade de quem move massas. Podemos recusar a santificação das celebridades sem cair no moralismo piromaníaco das redes.
O palco global nunca foi relvado. É arena. É teatro. É fábrica de narrativas. E se Portugal quiser um herói nacional mais alinhado com os valores que proclama - ou com qualquer coisa vagamente parecida com coerência - talvez seja altura de escolher outro. Ou, melhor ainda, de alcançar a maturidade colossal que consiste em não precisar de herói nenhum.
D.




um coracozinho para este texto seria pouco, mas pouco tenho a acrescentar. ronaldo é um grande sintoma da doença geral chamada portugal.