Fotografia © Diana Carriço, 2023, Lisboa
SIC Notícias, por volta das 23:30. A greve geral acabava de começar e o telejornal percorria o inventário habitual dos transtornos, os comboios que não partiram, os autocarros que não chegaram, os passageiros que procuravam alternativas para regressar a casa. O principal papel do jornalismo em dias de greve passa a ser contabilizar os custos da interrupção e não interrogar as razões da ruptura.
Um casal jovem, confrontado com a ausência de transportes, explicou que tinha conseguido resolver a situação, "Se não, não tínhamos como chegar a casa.", disseram. Sem o saberem, aqueles dois jovens tornaram-se os autores do título deste texto, porque a frase não fala apenas de uma greve. Fala de um país.
É extraordinária a forma como nos habituámos a discutir os incómodos sem discutir as causas. Ficamos indignados porque um transporte não passa, mas aceitamos com uma serenidade quase religiosa que haja quem trabalhe oito horas por dia e continue sem conseguir pagar uma renda. Revoltamo-nos porque chegamos atrasados ao emprego, mas convivemos com a ideia de que milhares de pessoas não conseguem sequer imaginar comprar uma casa, ter filhos ou planear o futuro.
A greve é, por definição, uma interrupção. Uma suspensão do normal funcionamento das coisas, e é precisamente por isso que incomoda. Foi desenhada para incomodar. Uma greve que não produz qualquer perturbação é apenas um feriado mal organizado. O que me espanta não é que haja pessoas incomodadas com uma greve, o que me espanta é a facilidade com que muitos exigem estabilidade política num contexto de instabilidade social crescente, como se a democracia fosse um exercício estético de ordem e não um mecanismo de resolução de conflitos. Uma sociedade onde tudo funciona na perfeição enquanto as pessoas acumulam precariedade, exaustão e desigualdade não é uma sociedade estável, é uma espécie de panela de pressão com boa comunicação institucional.
Nestes dias de greve há um apelo e uma obsessão pela palavra estabilidade. Os mercados querem estabilidade. Os governos querem estabilidade. Os comentadores querem estabilidade. Os empresários querem estabilidade. Todos querem estabilidade.
Mas estabilidade para quem?
Uma família que não sabe se conseguirá pagar a prestação da casa no próximo mês não vive em estabilidade. Um jovem que fez tudo o que lhe prometeram que conduziria a um futuro melhor: estudou, qualificou-se, acumulou estágios, aceitou salários de entrada e trabalha 8h, mas continua sem conseguir sair de casa dos pais, não vive em estabilidade. Um trabalhador preso a recibos verdes sucessivos, contratos temporários ou vínculos permanentemente provisórios não vive em estabilidade. O que existe é estabilidade para quem está confortável e quando a estabilidade política se transforma num valor superior à capacidade de uma sociedade expressar o seu descontentamento, entramos num território perigoso.
A história está cheia de regimes extraordinariamente estáveis. Nem todos eram democráticos.
A greve, o conflito social não representa uma falha da democracia, representa frequentemente a sua manifestação mais saudável. As greves, as manifestações, as reivindicações colectivas e até o desconforto que produzem são mecanismos através dos quais uma sociedade comunica aquilo que os indicadores económicos tendem a ocultar. São sinais. E há uma mania muito portuguesa e intelectualmente preguiçosa na tendência contemporânea para discutir apenas os inconvenientes dos sinais sem analisar as condições que os produziram.
Discutimos a greve. Discutimos os atrasos. Discutimos os constrangimentos. Discutimos tudo, excepto a razão pela qual milhares de pessoas consideraram necessário interromper a normalidade. A normalidade transformou-se numa espécie de religião secular. Questioná-la tornou-se quase um acto de heresia, mas a realidade parece-me bastante simples: uma sociedade não se mede pela eficiência com que evita o conflito, mede-se pela coragem com que enfrenta as razões que o produzem.
E foi por isso que fiquei a pensar naquela frase. Não porque falasse de transportes, nem sequer porque falasse de uma greve, mas porque continha uma pergunta, ou duas, um tanto maiores: Porque nos inquieta tanto a impossibilidade de chegar a casa numa noite de greve, mas tão pouco a realidade de haver quem trabalhe todos os dias e continue sem conseguir chegar a uma vida? Que espécie de democracia é esta que discute o atraso do comboio e não o desaparecimento do destino?
D.
P.S. Nem todos podem fazer greve. Há quem não possa perder um dia de salário, quem tenha responsabilidades que não admitem interrupções, quem viva numa precariedade tão apertada que até o direito ao protesto se transforma num luxo. Por isso, vale a pena agradecer a quem faz greve também por aqueles que não a podem fazer, porque muitos dos direitos que hoje consideramos naturais foram conquistados precisamente assim: por pessoas que assumiram um custo imediato para alargar as possibilidades de todos os outros. A greve nunca é apenas sobre quem pára, é também sobre quem gostaria de poder parar e não pode.




Acho que vimos a mesma notícia ontem. Pensei o mesmo. E é sempre assim, e sempre foi assim desde que me lembro, em todos os canais. Os jornalistas também precisavam de fazer greve. E há também as clássicas perguntas ao PM na véspera das greves, em que ele responde com aquele ar de gozo, de "adulto na sala responsável, equilibrado, moderado, justo, moralmente superior"... A seguir a esta greve proponho uma reivindicação de imprensa livre e séria! :) Estes jornalistas metem-me nervos, mas também não sei até que ponto não terão de fazer mau jornalismo por encomenda.
O pacote laboral tem medidas que devem ser implementadas. Poucas, mas tem. Estão lá para enfeitar.
No geral beneficia as empresas. Principalmente os grandes grupos, que são os únicos com advogados suficientes para perceber o que lá está escrito e lobistas suficientes para terem sugerido o que lá ficou.
O mecanismo é simples e elegante: tira-se dinheiro a quem trabalha, o país não cresce, cresce a precariedade, crescem os ricos, que compram as casas que os trabalhadores não conseguem comprar, para as alugar a preços que os trabalhadores não conseguem pagar, o que os obriga a trabalhar mais horas por menos dinheiro para pagar rendas a quem já tem dinheiro suficiente para não precisar de trabalhar. Portugal descobriu o movimento perpétuo. Pena que seja descendente.
Chama-se-lhe modernização. Antigamente chamava-se de outra coisa, mas essa palavra ficou feia e os departamentos de comunicação são criativos.
Caminhamos para um Portugal 2.0 (os ricos).
Portugal 0.2 ( os pobres).