Photo credits: ©Diana V. Carriço, private archives
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Segundo a tradição bíblica, Eva não só foi a primeira mulher como também a pioneira do erro original. A pobre serpente, mestre na arte da argumentação, só precisou de uma pequena conversa para que Eva se tornasse a grande culpada do fracasso humano. O resultado? Milénios de literatura eclesiástica a reforçar a ideia de que, se algo corre mal, deve haver uma mulher em algum lugar a quem apontar o dedo. Adão, coitado, apenas seguiu ordens. Uma espécie de funcionário público do paraíso: "assinei sem ler".
Mas como desmontar este mito, convenientemente perpetuado pelo patriarcado? Em Satanic Feminism: Lucifer as the Liberator of Woman in Nineteenth-Century Culture, Per Faxneld mergulha na questão, conduzindo-nos numa análise lúcida, provocadora e, atrevo-me a dizer, deliciosamente subversiva. No século XIX, algumas mulheres cansaram-se de levar com o rótulo de tentação em forma de gente e decidiram reescrever a narrativa: Eva passou a ser a heroína da liberdade de escolha. E Lúcifer? Bem, esse reinventou-se como o patrono das consciências rebeldes, o porta-voz de todos os "não vos obedeço" que ainda ecoam nas entrelinhas da história.
Faxneld explica que esta reinterpretação não foi obra do acaso ou de uma seita misteriosa de senhoras com capa e cálice negro. Pelo contrário, emergiu de uma necessidade muito prática: a necessidade de desafiar as narrativas religiosas que legitimavam a opressão de género. Como o autor nos recorda: "Myths are not simply tales from ancient times but dynamic forces, shaping and reshaping culture according to the needs of those who wield power." E não eram as mulheres quem detinha esse poder.
A cultura do século XIX assistiu, assim, ao surgimento de uma nova iconografia. Lúcifer deixou de ser o senhor das trevas com chifres para se transformar numa espécie de dândi esotérico, um precursor das revoltas modernas. Eva tornou-se o símbolo do “livre-arbítrio” feminino, e este movimento encontrou eco em várias expressões culturais: literatura, artes visuais, panfletos políticos, e até jóias decoradas com simbolismo ocultista. Parece que o inferno se modernizou e contratou um decorador com queda para o gótico.
Faxneld não cai no erro de simplificar a questão entre "bem" e "mal". Essa é, afinal, uma das maiores ilusões do pensamento moral, cuidadosamente orquestrada por instituições de poder. Como o autor observa, "Good and evil are malleable constructs, invented and reinvented to sustain the status quo." A Igreja, sempre diligente na gestão das almas, construiu este esquema binário como uma espécie de manual de instruções para o bom comportamento: um equilíbrio entre o medo do inferno e a promessa de paraísos eternos – um negócio moral que, convenhamos, tem mantido as massas bem organizadas e dóceis durante séculos.
Neste cenário, Eva e a serpente não são mais do que riscos operacionais. Representam, horror dos horrores, a possibilidade de pensar livremente e questionar a autoridade. E o verdadeiro perigo está aí, não no fruto mordido, mas no facto de terem demonstrado que as regras são apenas isso – regras. Afinal, não há poder que goste de ver a sua influência ameaçada por um pensamento autónomo. O bem e o mal, convenhamos, sempre tiveram mais a ver com controlo de inventário do que com alguma ordem cósmica.
A proposta do livro não é enaltecer o diabo nem sugerir pactos faustianos, muito menos recomendar cursos intensivos em magia negra. Faxneld propõe algo muito mais perigoso: a ideia de que mitos podem ser ferramentas de resistência. Questionar aquilo que nos ensinaram a temer é um dos maiores actos de liberdade intelectual. O medo, como bem sabemos, é sempre um dos instrumentos favoritos de quem quer que as pessoas continuem a pensar de joelhos e já dizia sobre o poder e o discurso, um dos meus amores - Michel Foucault, que quem controla os significados controla também a realidade.
Eva, enfim absolvida no tribunal da consciência histórica, talvez, depois deste livro, dispense até o sorriso, sabendo que o desdém é luxo de quem ainda se preocupa em convencer. O verdadeiro pecado não foi o fruto, nem a serpente, mas o pensamento livre, esse gesto insubmisso que as engrenagens do poder jamais perdoam ou esquecem.
E antes que me acusem de dogmatismo literário nesta análise breve, faço já a confissão preventiva: ainda não terminei o livro. A culpa? Uma mistura explosiva de falta de tempo e uma tendência crónica para a poligamia literária - uma prática complexa, possivelmente também ela satânica, que me condena a um ciclo de amores breves e leituras pela metade. Este, no entanto, é diferente. É daqueles livros densos, mas deliciosamente instigantes, que exigem ser saboreados aos poucos, como um vinho forte reservado para noites de desilusão com o mundo. Um livro que, de certo modo, funciona como uma vingança silenciosa: a cada página lida, parece que devolvemos ao cosmos um pouco da paciência que ele nos roubou.
D.
P.S. Per Faxneld é, honestamente, incrível. Um dos poucos que se atreve a estudar o satanismo com seriedade, e há algo de incrivelmente libertador nesse acto de ousadia intelectual. Pessoas que têm a coragem de explorar territórios que a maioria prefere ignorar ou demonizar são sempre fascinantes. Há nelas um magnetismo peculiar, uma espécie de charme perigoso que mistura inteligência, mistério e irreverência. É o tipo de atitude que não desafia apenas convenções, mas as torna, de alguma forma, irresistivelmente sexy.




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