© Diana V. Carriço
Nunca me passou pela cabeça escrever reviews de livros. Sempre as achei uma espécie de tortura literária - aquelas análises enfadonhas que tentam dissecar cada página como se fosse um documento histórico e não, sei lá, uma história para nos entreter. Mas ultimamente, os bebés têm nascido no meu círculo de amigos ao ritmo de pães quentes numa padaria trendy de Domingo de manhã. E, como “tia” dedicada que sou (ou, vá, uma adulta semi-funcional com uma compulsão por comprar livros e acesso a livrarias online), dei de caras com este livro algures pela internet e captou-me a atenção.
Agora, vamos recuar uns anos. Quando eu era uma jovem nos seus 20’s, estava absolutamente convencida de que queria ter filhos – não um, não dois, mas SETE. Sim, sete. Porque, na minha cabeça românticó-utópica (e manifestamente perturbada), parecia-me imensamente giro ter uma casa cheia de crianças a correr de um lado para o outro como se fosse uma sitcom caótica, mas adorável. Culpo a minha avó paterna, que teve 11 filhos e fez dos nossos encontros familiares verdadeiros festivais de barulho e caos – talvez daí tenha nascido essa ilusão. Claramente que estava a sofrer de uma psicose pré-adulta, porque agora, quando penso na logística de gerir meia dúzia de humanos em miniatura, sinto um arrepio na espinha e uma gratidão silenciosa pela invenção dos contraceptivos.
E é aqui que entra The Baby on the Fire Escape. Um livro que transforma a maternidade no equivalente literário a ler uma bula de medicamento - aquela que só te interessa quando decides ser responsável pela tua própria sobrevivência e descobres que um simples comprimido para a dor de cabeça também pode causar insónias, insuficiência hepática e, em raríssimos casos, a morte súbita. Este não é um livro para os fracos de espírito, mas sim para quem gosta de enfrentar o abismo existencial armado apenas de sarcasmo e uma chávena de café (ou um copo de vinho, dependendo da gravidade).
Verbaliza com imensa precisão o que a minha cabeça já suspeitava: a maternidade é um equilíbrio entre o caos, a culpa e a vontade súbita de desaparecer para uma ilha deserta. Não sou mãe, e depois de o ler, estou a hesitar cada vez mais – não só pelas reflexões que evoca, mas porque há dias em que gerir as minhas próprias emoções já parece um trabalho a tempo inteiro.
Este livro não dá propriamente respostas; dá-te perguntas. Perguntas como: Estás preparada para abdicar de um pedaço de ti mesma em nome de outra pessoa? E se sim, tens a certeza de que vais conseguir escrever, criar ou pintar alguma coisa para além de paredes sujas de papas de aveia? E é aqui que entra a particularidade deste livro: ele fala diretamente para aquelas mulheres que tentam equilibrar a maternidade com uma carreira criativa – escritoras, pintoras, artistas – como se viver da arte já não fosse, por si só, uma montanha-russa emocional.
Claro que, como qualquer reflexão sobre a maternidade, este livro vem com a sua própria bula de efeitos secundários:
:: Indicações terapêuticas: é ideal para aqueles que ainda não têm filhos e gostam de se sentir superiores enquanto assistem, de longe, ao pandemónio parental. Para quem já os tem, recomenda-se leitura sob supervisão terapêutica, especialmente se sofre da síndrome do "O meu filho era um génio aos dois anos, mas eu passei esses anos a limpar cocós e sonhos adiados".
:: Contra-indicações: não é recomendado para quem ainda acredita que “ter um bebé é como trazer um pedacinho do céu para a Terra”. Spoiler: o céu, na realidade, é um lugar caótico, cheio de fraldas, noites sem dormir e crises existenciais sobre quem te tornaste. Não tens estômago para verdades cruas? Talvez seja melhor voltares à tua zona de conforto, onde bebés só existem como fotografias de Instagram, convenientemente filtradas.
:: Efeitos secundários: Pode causar surtos de realidade e uma nova apreciação por quem consegue, ao mesmo tempo, mudar fraldas e mudar o mundo. Uma empatia renovada por todas as mães da tua vida, um alívio desconcertante por poderes, pelo menos por agora, manter o estatuto de não-mãe, e um aumento de dúvidas existenciais que fazem o dilema do prisioneiro parecer um jogo infantil. É provável que ao terminar o livro se perguntem: "Será que quero mesmo ser mãe? Ou posso simplesmente investir numa biblioteca e algumas plantas que (talvez) não mate por negligência?"
:: Posologia: ler lentamente, de preferência com um copo de vinho ou chá forte. Acompanhar com boas noites de sono, se ainda tiverem esse luxo.
O título é já um pequeno génio de ironia: The Baby on the Fire Escape não é apenas uma metáfora - é quase um diagnóstico. Descreve a sensação de equilibrar a responsabilidade de criar um pequeno ser humano com uma vontade latente de fugir para uma ilha deserta e não poupa ninguém. Entre piadas bem afinadas e reflexões que te fazem rir para não chorar, vais encontrar-te a ponderar se ser mãe é mesmo um chamamento ou uma escolha que deverias abordar como quem avalia um contrato de empréstimo bancário: com cautela, dúvidas e várias letras miúdas.
No fundo, este livro não tenta convencer-te de nada: oferece-te uma visão nua e crua de uma das contradições humanas, com uma pitada de humor venenoso o suficiente para adoçar o golpe. A maternidade é retratada como uma coreografia caótica entre o sublime e o ridículo, onde amar um ser humano ao ponto da autodestruição parece ser o clímax inevitável.
No final, The Baby on the Fire Escape deixa-te com uma escolha: saltar para o parapeito e mergulhar no abismo ou simplesmente ficar a observar a vista, reconfortada com um copo de vinho na mão e a certeza de que, pelo menos hoje, ainda te pertences.
D.



