O surreal é frequentemente visto como um desvio da norma, como se a norma não fosse um prato de sopa morno e insípido, servido com a condescendência de quem não sabe cozinhar mas insiste em alimentar. No entanto, David Lynch, arquitecto do inquietante, cartógrafo do desconforto, ensinou-nos que a verdadeira beleza reside no incómodo. Mostrou-nos que o absurdo não é um detalhe irrelevante, mas sim o prato principal, enquanto a normalidade não passa de um aperitivo desinteressante, um prelúdio de paladar esquecido.
Nas suas histórias - que nunca são apenas histórias, mas mapas de sonhos desfeitos - há sempre uma cortina que dança sem vento, uma estrada deserta onde tudo acontece menos trânsito, e uma personagem que, com um único olhar, nos diz mais sobre nós próprios do que qualquer terapeuta alguma vez ousaria. Com Lynch, as respostas nunca são dadas, mas as perguntas são generosas, tão generosas que se instalam em nós como um gato vadio que nunca mais parte.
E o café. Não aquele café trivial que bebemos por hábito, mas um café que tem alma, que é quase uma entidade, um protagonista silencioso. Em Twin Peaks, uma chávena de café é o universo inteiro condensado num gole, e o universo, como nos diz Lynch, nunca se toma de uma só vez.
Perguntamo-nos, lynchianos, porque nos fascina tanto o estranho, o grotesco, o desconfortável. Talvez porque, no fundo, saibamos que a realidade não é tão ordenada quanto gostamos de fingir. Que a fronteira entre o sonho, o pesadelo e a vigília é mais ténue do que admitimos. E, sejamos honestos, há mais verdade numa cena de Lynch, com todo o seu absurdo, do que num boletim meteorológico qualquer.
Hoje, brindemos ao surreal. Ao desconforto elegante, à poesia do absurdo, ao mestre das cortinas vermelhas e das interrogações sem fim. Que continuemos a dançar no chão pegajoso do desconhecido, a observar o néon intermitente que pisca como se quisesse revelar segredos, e a tomar o café -um gole de cada vez - como se fosse eterno.
Até já, David Lynch.
D.




seja lá o que for absurdo e normal, no dia anterior à sua morte sentei-me numa sala de cinema, cheia de lynchianos às 15h, e desde aí vejo fragmentos, curtas, textos da sua obra e os sonhos têm sido demasiado intensos que preciso de despertar para o normal ou para o absurdo. belo texto, santé.