© Diana V. Carriço / Private archives.
O amor entre irmãs é um desses labirintos emocionais que desafiam qualquer tentativa de categorização. Se a amizade é uma escolha e a família uma fatalidade, a irmandade habita esse território ambíguo onde a liberdade colide com a predestinação. Chamar irmã de melhor amiga é um erro de principiante, um acto de simplificação tão grosseiro como chamar de brisa um furacão. Amigas escolhem-se, irmãs são impostas pelo acaso genético e, ainda assim, é algo mais ancestral, mais feroz - uma fatalidade partilhada. Talvez seja, como escreveu Toni Morrison em Beloved, que “a definição de amor é o espaço que permite ao outro existir como é.” E se há algo que caracteriza a relação entre irmãs, é precisamente essa tensão entre permitir e impedir que a outra exista.
Na literatura, a irmandade é um tema de fascínio perpétuo, precisamente porque carrega em si a dualidade fundamental da condição humana: a fusão e o conflito. As March de Mulherzinhas são o exemplo canónico da construção moral da irmandade - cada uma representa uma faceta do que se espera de uma mulher do século XIX, e o seu amor é feito de rivalidade e proteção, de desaforos e redenções. Mas se Jo e Amy são a versão civilizada do que significa ser irmã, Lila e Lenù, na tetralogia napolitana de Ferrante, são o retrato despudorado da violência do vínculo fraterno. Lenù ama e inveja Lila em medidas idênticas, e a sua relação é menos uma amizade e mais uma guerra fria onde cada gesto carrega a possibilidade de uma traição ou de uma devoção absoluta.
Mesmo na mitologia, onde a irmandade assume proporções trágicas ou divinas, esse amor nunca é simples. Clitemnestra mata Agamémnon para vingar Ifigénia, mas a sua irmã Electra vinga-se depois, num ciclo de sangue onde a lealdade e a rivalidade se entrelaçam como serpentes. Ártemis e Apolo, por outro lado, são o arquétipo da irmandade divina, funcionando quase como duas metades de um mesmo princípio cósmico. E talvez seja essa a chave do mistério: a irmandade não é apenas um laço, é uma dialética, um campo de forças opostas que se atraem e se repelem em igual medida.
Simone de Beauvoir, em A Força da Idade, ao recordar a sua irmã Hélène, descreve como a infância partilhada entre irmãs é uma espécie de mitologia privada: um mundo próprio que nenhuma outra relação pode reproduzir. Esse é o lado mais bonito da irmandade - há nela um conhecimento mútuo que antecede a linguagem, um arquivo de gestos, olhares e cumplicidades que resiste ao tempo e à distância.
Na arte, há irmãs que aparecem como entidades siamesas do espírito – as Brontë, por exemplo, que escreveram e fantasiaram em conjunto, misturando as suas existências num tecido literário onde já não se distingue quem era quem. Na pintura, há retratos de irmãs que tentam capturar o vínculo sem o conseguir realmente – porque como se representa, numa tela, o silêncio de duas irmãs que se entendem sem precisar de palavras? Ou pior: como se representa aquele momento onde o amor se mistura com o ódio e queremos atirá-las para o quinto círculo do Inferno de Dante, só para, no instante seguinte, as salvarmos com um gesto displicente?
O amor entre irmãs é um contracto não assinado que dura para além das ofensas, das traições domésticas, das partilhas de maquilhagem sem consentimento, das discussões sobre heranças que ainda não morreram. Elas sabem demasiado uma sobre a outra – sabem onde dói, mas também sabem onde salvar. Uma irmã é a única pessoa que pode insultar-te com uma precisão cirúrgica e, no minuto seguinte, defender-te como uma deusa vingadora. É um amor que não se dissolve com desentendimentos, porque é fundado em algo mais profundo do que a vontade ou a genética. Não é uma relação de amizade, nem meramente fraterna. É algo mais próximo de um dualismo existencial: uma só alma dividida em duas pessoas que, por alguma ironia cósmica, passam a vida a tentar (des)entender-se.
Como bem disse Clarice Lispector, “ter uma irmã é ter sempre um espelho e uma testemunha de si mesmo.” - se tivermos sorte, esse espelho não nos devolve apenas as nossas falhas e misérias, mas também a prova irrefutável de que nunca estamos realmente sós.
D.
Parabéns mana. Bem-vinda aos 30. Love you.



