©dianavcarrico / Private Archives /2017
Escrevo um “não-romance”. Uma das mil coisas que em miúda quis, era ser escritora. Gastava fita na máquina de escrever da minha mãe e do meu avô, como quem gasta sonhos antes do tempo. Inventava histórias sem fim, uma urgência quase instintiva de capturar o mundo em palavras. E, anos depois, comecei a escrever capítulos soltos. Uma espécie de fragmentos dispersos, ecos de pensamentos que insistiam em ser ouvidos.
É possível que seja essa vontade ancestral, herdada em silêncios familiares, de prolongar o nosso legado intelectual. Serão as palavras capazes de nos salvar do esquecimento? Ou talvez seja a inevitável crise existencial que nos empurra a descarregar pensamentos para o papel, ou para o ecrã, com a secreta esperança de que o processo de escrever nos reconcilie com quem somos, como se, ao nomear as dores e fantasmas, eles se reorganizassem em algo mais suportável, quase compreensível. Uma cartilha emocional onde a nossa identidade se pudesse finalmente situar.
Escrevo como quem procura ordem no caos, mas também como quem teme encontrá-la. Não somos feitos apenas de certezas, somos o produto das dúvidas, dos pensamentos interrompidos, das frases que não chegaram a ser concluídas e escrever é para mim um acto catártico de fuga e de pertença, uma tentativa de nos reinventarmos, é olhar-se num espelho partido à espera de ver no reflexo fragmentado uma verdade que nunca chega inteira.
É nesse ímpeto de existir, que escrevo agora um não-romance. Um exercício de reconstrução e despedida. Metade biografia, metade ficção/desejo - onde o tempo se dissolve em interrogações. Quem teria sido se tivesse escolhido outros caminhos? Quem sou agora, nas linhas onde cada decisão enterrada e cada destino abortado ecoam? Escrevo sobre todas as Dianas que poderiam ter existido e que, por um capricho do universo, jamais se concretizaram. Sobre o valor de se ser.
Há um luto intrínseco em imaginar essas vidas não vividas, os caminhos abandonados, as portas que nunca se abriram, mas também uma certa sensação de alívio, de "dodged a bullet there", como se, ao evitar um destino, tivéssemos, talvez, evitado também um desastre invisível. Ainda assim, persiste o desejo feroz por renovação, uma inquietação incessante por escapar ao inevitável peso do presente, como se viver fosse uma dança entre o que lamentamos ter perdido e o que, por sorte ou acaso, conseguimos evitar. Afinal, será possível enterrar as versões de nós mesmos ou, como fantasmas, elas continuarão a assombrar-nos com o seu silêncio? As cidades onde não permaneci, os amores que abandonei, os sonhos mutilados pela realidade e aqueles que ainda respiram em mim - todos se reúnem neste romance, ora numa celebração silenciosa, ora num luto inevitável pelas vidas que poderiam ter sido, aguardando redenção ou reinvenção.
Simplicidade nunca foi minha aliada, e o livro reflete isso. Caótico na estrutura, um terreno de possibilidades, onde memórias se confundem com projeções e o eu se desdobra em múltiplas identidades latentes. Cada “personagem”, cada fragmento, cada cena é uma tentativa de dialogar com o passado, mas também de convocar o futuro. Não escrevo para cristalizar uma única verdade, mas para celebrar as ambiguidades que nos definem, o mistério que é ser humano, ser mulher.
Aqui, entre o luto e o desejo, nascem as Dianas por vir - sempre em metamorfose, sempre no limiar entre o real e o imaginado. É nesse limbo que talvez te encontres também, a ponderar as versões de ti mesmo que se perderam ao longo do caminho.
D.
P.S. Em breve, deixo aqui um excerto do que está por vir. E vocês, o que andam a escrever?




Também ando a escrever um livro, inspirada pela coleção de não-ficção da Companhia das Letras (sobretudo pelos livros de Susana Moreira Marques e, mais recentemente, Margarida Ferra). São reflexões, apontamentos, pequenas histórias sobre a história da minha família e sobre como se conta a história de uma família.
Ando a escrever memórias que gostaria de viver. Será que faz algum sentido?