© Diana V. Carriço, arquivo pessoal
Não é hábito meu escrever sobre o que outras pessoas escrevem. Há quem faça da crítica de opinião um desporto de combate, mas eu tendo a achar mais interessante discutir ideias e não os seus autores. Além disso, a Internet já produz ruído suficiente sem precisar da minha contribuição para o coro. Há, no entanto, algumas excepções. Uma delas é a superioridade moral. Chamem-lhe um trigger. Não me refiro àquela superioridade moral quotidiana que consiste em explicar ao mundo porque é que os nossos hábitos de consumo, as nossas escolhas políticas ou a nossa dieta nos tornam ligeiramente mais iluminados do que os restantes mortais. Essa já aprendi a observá-la com um misto de resignação e entretenimento antropológico. Refiro-me à outra.
Antes de continuar, uma nota que me parece desnecessária para quem me costuma ler mas que talvez seja relevante. O que se segue não é uma crítica a quem escolheria salvar um filho antes de um animal, um familiar antes de um desconhecido ou o seu cão antes de alguém com quem não tem qualquer vínculo. Os afectos não são democráticos nem obedecem a regulamentos filosóficos. Cada pessoa organiza-os como pode, como sente e como vive. Não me interessa policiar emoções nem distribuir licenças para amar. O que me interessa é outra coisa: o momento em que uma preferência pessoal é apresentada como uma verdade moral universal e em que deixamos de discutir aquilo que sentimos para começar a prescrever aquilo que os outros deveriam sentir. A partir daí já não estamos apenas no domínio do afecto. Estamos no domínio das ideias. E as ideias, ao contrário dos afectos, podem e devem ser discutidas.
Foi isso que me chamou a atenção numa crónica recente sobre a relação entre seres humanos e animais, no Expresso. Há muita coisa criticável naquele texto, não porque defenda a vida humana, essa é uma posição perfeitamente legítima, mas porque o faz através de uma série de pressupostos filosóficos, éticos e até políticos apresentados como evidências universais quando estão longe de o ser.
O ponto de partida, que por acaso é o final do texto, é problemático. Escreve a autora: “Se não concordamos que o ser humano é o animal mais valioso sobre a Terra, estamos entregues aos bichos.”
A frase tem a “elegância” das coisas simples e o problema das coisas simples: esconde uma quantidade obscena de pressupostos. Assume-se a existência de uma hierarquia moral objectiva onde a vida humana vale necessariamente mais do que qualquer outra vida. Começa-se por se perguntar, quem decidiu isso? Deus? A natureza? A razão? A autora nunca o demonstra, assume-o.
Ora, uma parte significativa da filosofia moderna existe precisamente porque essa conclusão deixou de ser consensual. Múltiplas correntes ecologistas, animalistas e pós-humanistas defendem que o critério moral relevante não é a espécie a que pertencemos, mas a capacidade de sofrer, de sentir e de experienciar o mundo.
A autora considera absurdo que alguém escolha salvar o seu cão em vez de um desconhecido. Mas nunca explica porque é que a pertença biológica à espécie humana cria automaticamente uma superioridade moral. Surge então o exemplo que pretende encerrar a discussão antes de ela começar: “Que diriam estas pessoas se o vizinho do lado, perante um incêndio no prédio, tendo a possibilidade de salvar uma criança de três anos, optasse por ir buscar a sua tartaruga ao aquário?”
A resposta parece óbvia. É um exemplo construído para produzir uma reacção emocional específica. Uma criança de três anos é profundamente dependente, vulnerável e indefesa. A esmagadora maioria das pessoas salvaria a criança. Eu também. Mas é precisamente por isso que o exemplo pouco demonstra.
Os exemplos extremos têm um (d)efeito curioso: substituem a reflexão pela adrenalina. Não por acaso são uma ferramenta recorrente dos populismos contemporâneos, particularmente da extrema-direita, que prefere frequentemente cenários imaginários carregados de emoção a discussões mais complexas sobre princípios, contexto ou evidência. O que talvez seja mais surpreendente não é encontrarmos este tipo de construção argumentativa nesse universo político, mas vê-la surgir em espaços que supostamente existem para enriquecer o debate público. E talvez valha a pena perguntar como chegámos a este ponto, em que um argumento concebido para provocar uma reacção instantânea é frequentemente confundido com um argumento sólido, e em que a capacidade de gerar cliques, indignação ou identificação emocional parece, tantas vezes, sobrepor-se à exigência intelectual. Fica no ar a pergunta.
Mas avançamos. Primeiro, porque ninguém está verdadeiramente a defender que uma tartaruga deve ser salva antes de uma criança pequena. Segundo, porque a questão original nem é essa. A questão era se a pertença à espécie humana cria, por si só, uma superioridade moral absoluta sobre todas as outras formas de vida.
Se começarmos a construir cenários de emergência suficientemente dramáticos, conseguimos justificar praticamente qualquer conclusão. Porque não perguntar também onde estão os pais da criança? Porque é que não tentaram salvá-la? Porque é que o vizinho é a única pessoa disponível? Porque é que a escolha é entre uma criança e uma tartaruga e não entre a sua própria filha e dez desconhecidos? Porque é que usa a criança com três anos e não uma pessoa de oitenta? Porque é que o animal é uma tartaruga e não um cão-guia? Percebemos rapidamente o problema. Aliás, basta alterar ligeiramente as personagens para que a intuição moral se torne menos confortável. E se a escolha fosse entre um cão-guia e um pedófilo condenado com pena suspensa? Entre um gato de uma idosa que foi a companhia de uma vida, e uma pessoa acusada de violência doméstica ainda em liberdade? A maioria das pessoas começaria imediatamente a hesitar. Não porque tivesse deixado de acreditar no valor da vida humana, mas porque estes exercícios raramente demonstram aquilo que julgamos que demonstram. Limitam-se a empurrar-nos para a resposta emocional que a autora do cenário pretende obter.
Quanto mais específico e emocionalmente carregado se torna o cenário, menos estamos a discutir princípios e mais estamos a manipular intuições. Uma criança de três anos desperta em nós um impulso quase universal de protecção. E ainda bem. Mas daí não resulta automaticamente uma teoria moral completa sobre o valor relativo de todas as vidas. O facto de eu salvar uma criança antes de um animal num cenário extremo diz-nos sobretudo alguma coisa sobre vulnerabilidade, afecto e responsabilidade imediata. Diz muito menos sobre a existência de uma hierarquia ontológica universal onde os seres humanos ocupam, por decreto, o topo da criação.
Se a inteligência é o critério, encontramos animais mais inteligentes do que alguns seres humanos. Se é a linguagem, um recém-nascido perderia a corrida. Se é a consciência, nem sequer sabemos defini-la satisfatoriamente. Se é a capacidade de sofrer, muitos mamíferos possuem sistemas nervosos altamente desenvolvidos. A superioridade humana surge, portanto, não como conclusão, mas como premissa. É dada por adquirida. E esse é o problema e talvez o que mais me chateie.
Relembrando à autora, que parece ter esquecido, a esquerda, pelo menos a tradição intelectual da esquerda que me interessa, sempre desconfiou das hierarquias apresentadas como naturais. Desconfiou da ideia de que uns homens nasceram para governar e outros para obedecer. Desconfiou da ideia de que certas raças eram superiores a outras. Desconfiou da ideia de que algumas classes sociais tinham mais valor do que outras. Desconfiou da ideia de que a riqueza era uma prova de mérito. Desconfiou de todas as narrativas que transformavam relações de poder em leis da natureza. Por isso surpreende-me ver uma cronista que se apresenta como pessoa de esquerda defender uma hierarquia moral absoluta sem sentir necessidade de a justificar. A pergunta continua por responder. Mais valioso segundo quem? Mais valioso por que critério? Mais valioso para quê?
O texto cai depois numa segunda confusão: a confusão entre afecto e teoria moral. Quando alguém diz que salvaria o seu cão em vez de um desconhecido, não está necessariamente a afirmar que os cães são superiores aos humanos. Está a afirmar uma coisa muito diferente. Que os vínculos afectivos contam. E pasmemo-nos todos: fazemos isto todos os dias - e enquanto assim for, ainda bem.
Se um edifício estiver a arder e eu só puder salvar uma pessoa, escolherei o meu pai ou a minha mãe antes de um desconhecido. Escolherei a minha irmã. Escolherei um amigo. Escolherei alguém que amo. Não porque a vida deles valha objectivamente mais, mas porque o afecto faz parte da arquitectura moral humana.
O raciocínio da autora conduz a outra conclusão curiosa: qualquer preferência por familiares e amigos seria moralmente suspeita porque colocaria afectos privados acima de princípios universais. Mas não é exactamente assim que os seres humanos vivem? Não somos máquinas kantianas a calcular imperativos categóricos enquanto a casa arde. Somos criaturas relacionais. Vivemos através de laços e acho particularmente irónico que se acuse quem escolhe o cão em vez de um desconhecido de agir por afecto privado, para depois fundamentar a superioridade humana quase inteiramente em afectos privados: a família, os filhos, o luto, o amor paternal. Ou seja, o texto critica a moral baseada em vínculos emocionais enquanto simultaneamente utiliza vínculos emocionais para justificar a sua conclusão.
Depois surge uma acusação ainda mais curiosa, os defensores dos animais são descritos como egoístas. Mas será mesmo? A história humana não é exactamente um monumento ao amor universal pela humanidade. Temos guerras, genocídios, escravatura, campos de concentração, limpezas étnicas, violência doméstica, exploração laboral e uma lista quase infinita de atrocidades praticadas exclusivamente contra membros da nossa própria espécie. É difícil sustentar a ideia de que existe um amor especial pela humanidade enquanto categoria abstracta quando a evidência histórica sugere que somos extraordinariamente selectivos na distribuição desse amor.
Outro problema surge quando o texto reduz o amor pelos animais a uma compensação para a solidão moderna. É uma explicação psicologicamente pobre. Muitas pessoas que amam profundamente os seus animais também amam profundamente os seus parceiros, os seus filhos, os seus pais e os seus amigos. Uma relação não substitui necessariamente a outra. E nesta sequência de amor e relações, há ainda uma passagem que me parece particularmente infeliz. A autora escreve que "não há nada na natureza humana que se compare à força avassaladora que é amar uma criança" e conclui que "ninguém consegue imaginar a vida após um filho, e certamente que ninguém lhe sobrevive". A força retórica disto tropeça na realidade. Há mães e pais que sobrevivem todos os dias aos filhos que perderam. Sobrevivem não porque a dor seja pequena, mas porque é colossal. Sobrevivem porque a condição humana possui essa estranha e por vezes cruel capacidade de continuar a respirar depois do impensável. Transformar o amor parental numa experiência absoluta, universal e sem excepções é ignorar não apenas a diversidade das experiências humanas, mas também a existência daqueles que carregam precisamente essa ferida e ainda assim, vivem. Além disso, o argumento começa por apresentar o amor pelos filhos como um impulso biológico de preservação da espécie e termina por elevá-lo a uma espécie de prova metafísica da superioridade humana. Mas um impulso evolutivo não é um argumento moral, é uma explicação para um comportamento, não uma justificação para uma hierarquia. E mesmo nesse domínio a excepcionalidade humana vacila, porque o apego, o luto e a protecção das crias não são exclusivos da nossa espécie. Talvez a grandeza do amor parental não resida naquilo que nos separa dos restantes animais, mas precisamente naquilo que partilhamos com eles.
Dito isto, a parte mais interessante da crónica não é definitivamente aquilo que a autora pretende discutir, mas abre, involuntariamente, espaço para outras questões.
Confesso que como leitora, me surpreendeu encontrar um texto destes nas páginas do Expresso. Não porque discorde da conclusão, discordar é irrelevante, mas porque me parece um argumento demasiado rudimentar para o espaço que ocupa e talvez seja um dos aspectos mais interessante de toda esta discussão. Como é que sociedades cada vez mais escolarizadas, com acesso praticamente ilimitado à informação, parecem cada vez mais receptivas a argumentos simplistas, emocionalmente manipulativos e intelectualmente preguiçosos? Como é que chegámos a um ponto em que a capacidade de provocar uma reacção imediata é tantas vezes confundida com a capacidade de pensar? Porque isto é o tipo de raciocínio que espero encontrar numa caixa de comentários, numa publicação de Facebook ou até aqui no Substack, onde todos temos o direito de pensar em voz alta sem a obrigação de sustentar cada afirmação como se estivéssemos a construir um argumento, uma crónica, um ensaio. Quando aparece num jornal de referência, espera-se qualquer coisa mais robusta do que uma hierarquia moral apresentada sob a forma de evidência auto-explicativa.
Por isso, creio que valha a pena falar sobre ele, porque, por vezes, os argumentos mais fracos acabam por abrir as portas para discussões mais interessantes ou robustas do que aqueles que os produziram. E numa época em que parece existir uma escassez crescente de pensamento e uma abundância quase industrial de opiniões, qualquer oportunidade para acordar algumas sinapses adormecidas merece ser aproveitada.
Uma das questões não é apenas acreditar que os seres humanos são mais importantes do que os animais, a questão é perceber porque sentimos uma necessidade tão persistente de nos colocarmos no centro de todas as narrativas que construímos. O antropocentrismo é uma das expressões mais poderosas dessa tendência. Durante séculos habituámo-nos a olhar para a natureza como um inventário de recursos disponíveis para satisfazer necessidades humanas. As florestas são madeira potencial. Os rios são energia potencial. Os oceanos são proteína potencial. Os animais são trabalho, alimento, companhia ou entretenimento potencial. O mundo existe, acima de tudo, enquanto matéria-prima para o projecto humano.
É difícil não reconhecer aqui uma das lógicas fundadoras da modernidade. A ideia de que o valor das coisas reside fundamentalmente na sua utilidade. O que importa não é aquilo que uma coisa é, mas aquilo que pode produzir, gerar, render ou servir. Primeiro aplicámos essa lógica à natureza. Depois aplicámo-la a nós próprios. Não por acaso, a mesma civilização que transforma florestas em activos financeiros transforma frequentemente seres humanos em recursos humanos, produtividade, métricas, capital humano ou segmentos de mercado. A linguagem muda, o mecanismo permanece.
Talvez por isso me intrigue a facilidade com que certas pessoas transitam da crítica às desigualdades económicas, sociais ou políticas para a defesa entusiástica de uma supremacia moral da espécie humana. A pergunta continua a ser exactamente a mesma: quem decide o valor, segundo que critérios, e em benefício de quem?
A história humana está repleta de exemplos de grupos que se atribuíram a si próprios um estatuto especial. Reis acima de camponeses. Homens acima de mulheres. Brancos acima de negros. Aristocratas acima de trabalhadores. Civilizados acima de bárbaros. O antropocentrismo radical não altera a estrutura do raciocínio; apenas amplia a escala. Em vez de uma parte da humanidade reclamar privilégios ontológicos, é a humanidade inteira a fazê-lo perante o restante mundo vivo.
Talvez por isso o texto me pareça menos uma defesa da vida humana do que uma defesa da excepcionalidade humana. E a excepcionalidade humana tem uma história curiosa. Acreditámos que a Terra era o centro do universo, até descobrirmos que não era. Acreditámos que ocupávamos um lugar separado do resto da natureza, até Darwin nos lembrar das nossas origens. Acreditámos que a razão nos elevava acima dos restantes seres vivos, até o século XX demonstrar a nossa extraordinária capacidade para organizar o horror em escala industrial.
Em muitos aspectos, a história intelectual moderna pode ser lida como uma longa sucessão de golpes na vaidade humana. Ainda assim, continuamos à procura de um pedestal. O problema é que o universo nunca publicou classificações. A natureza nunca distribuiu medalhas. Tudo o que temos são seres humanos a atribuírem notas a si próprios, o que, convenhamos, dificilmente constitui um júri imparcial.
Somos a única espécie que construiu campos de concentração, armas nucleares, escravatura industrial e programas televisivos de comentários sobre programas televisivos. Por isso, antes de declarar que estamos entregues aos bichos, talvez valha a pena olhar com um pouco mais de atenção para aquilo que nós bichos efectivamente fazemos.
Parece-me que há dias em que um gato ao sol, um cão a dormir ou uma baleia a atravessar um oceano apresentam um currículo ético bastante mais impressionante do que o nosso.
D.
Outras notas:
O que esperamos de um jornal? Espero encontrar opiniões com que discordo. Espero encontrar argumentos que me irritem. Espero até encontrar ideias que considero profundamente erradas. Tudo isso faz parte de uma imprensa livre. Uma imprensa que só publica aquilo com que concordamos não nos desafia, apenas nos conforta. O que não espero encontrar é preguiça intelectual. Sobretudo quando essa preguiça se apresenta disfarçada de reflexão.
Considerem isto uma reclamação fora do livro de reclamações.
A minha irritação vem também do facto de ser assinante do Expresso. Não escrevo isto como alguém que observa de fora. Escrevo-o como alguém que paga para ler, que escolhe aquele espaço e que, por isso mesmo, espera mais dele. Não leio o Expresso para encontrar uma versão ligeiramente mais bem editada das discussões que já circulam nas redes sociais. Leio-o porque espero encontrar argumentos mais rigorosos, mais informados, mais interessantes e intelectualmente mais exigentes do que aqueles que encontro gratuitamente no resto da Internet.
Incomoda-me que isto seja uma tendência que não se limita a este texto nem a esta autora. Há demasiadas vezes em que o achómetro pessoal, uma experiência individual ou uma intuição transformam-se, quase por magia, numa teoria sobre a condição humana. Todos temos as nossas convicções, os nossos preconceitos, as nossas experiências e os nossos enviesamentos. Eu incluída. O problema começa quando deixamos de os tratar como pontos de partida para reflexão e passamos a apresentá-los como conclusões. Quando aquilo que sentimos passa a ser confundido com aquilo que sabemos. E quando uma opinião, só porque é sincera, começa a ser tratada como se fosse automaticamente profunda.
Vivemos numa época cansada, fragmentada e permanentemente distraída. Tudo certo - ou tudo errado. Todos estamos sujeitos à lógica da reacção instantânea. Mas não será precisamente por isso que os jornais deveriam exigir mais de si próprios? Não será essa uma das suas funções culturais? Não apenas informar, mas desafiar, complexificar, contrariar os impulsos mais imediatos e obrigar-nos a pensar um pouco melhor do que pensaríamos sozinhos.
Quando um jornal cujo lema é “Liberdade para Pensar” publica autores cujos argumentos de uma crónica são assentes em cenários emocionais cuidadosamente construídos para produzir uma resposta previsível, a questão deixa de ser se concordamos ou não com a conclusão. A questão passa a ser outra: que ideia de pensamento estamos a promover e alimentar?
Uma democracia não se alimenta apenas de liberdade de expressão. Alimenta-se também da qualidade das ideias que circulam no espaço público. E talvez uma das formas mais discretas de empobrecimento cultural seja começarmos a confundir emoção com argumento, intuição com raciocínio e identificação imediata com pensamento crítico.
Talvez isto possa dar início a uma discussão mais interessante para vocês que me lêem até ao fim. Não sobre animais, seres humanos ou prédios em chamas, mas sobre aquilo que passámos a aceitar como pensamento. Porque uma sociedade não empobrece apenas quando deixa de ler. Empobrece também quando deixa de exigir que as ideias façam mais do que confirmar os seus impulsos. E isso, confesso, preocupa-me bastante mais do que qualquer tartaruga.




Que belíssimo texto! Excelente!
Para mim faria parte de qualquer coluna editorial de grandes jornais.
Dou destaque a estas duas linhas, que, em minha opinião representam a cem por cento, tudo aquilo que ouvimos ou lemos nos vários canais.
"A ideia de que o valor das coisas reside fundamentalmente na sua utilidade. O que importa não é aquilo que uma coisa é, mas aquilo que pode produzir, gerar, render ou servir."
Pura, ideia neoliberal.
Este texto está INCRÍVEL! Acrescentaria apenas que o que nós achamos que fazemos e o que fazemos de facto, perante situações extremas, dão polos bastante distintos. Porque, no final do dia, somos animais a tentar sobreviver. A maioria das pessoas que ficam indignadas não tentariam salvar nem a criança nem o cão; iam-se pôr (passo a expressão) nas putas dali para fora para salvar a própria pele. Estão-se a ofender com cenários hipotéticos em que nem eles próprios conseguiriam prever as suas ações.