The Raft of the Medusa (1818–1819), de Théodore Géricault
O aquecimento global não é invisível, é difícil de sentir, não porque faltem dados, mas porque sobra normalidade. A crise climática não chega como ruptura, infiltra-se como hábito, uma sucessão de episódios que se recusam a formar um acontecimento. Chove mais, durante mais tempo. O vento chega fora de época. As cheias repetem-se. As tempestades acumulam-se como se fossem notas de rodapé de um relatório interminável. E tudo isto continua a ser tratado como contingência, como azar meteorológico, como uma perturbação incómoda que não obriga a repensar a estrutura do mundo que a produz.
O ser humano reage mal à lentidão. Evoluímos para o choque, não para a erosão. A ameaça súbita convoca o corpo, a ameaça progressiva convida à adaptação. E a adaptação, quando não é acompanhada de ruptura, transforma-se numa forma educada de cumplicidade. Aquilo que chega devagar demais é integrado como paisagem, como nova normalidade, como se a repetição fosse prova de inocência.
Impõe-se uma metáfora antiga, desconfortavelmente eficaz, a do sapo colocado numa panela de água fria que aquece lentamente. Se a água ferver de repente, o sapo salta. Se a temperatura subir devagar, adapta-se. Fica. Cozinha-se. Morre sem nunca reconhecer o momento exacto em que deveria ter fugido. A crise climática opera um tanto assim. Não nos atira para a ebulição, convida-nos à habituação. Cada cheia é “excepcional”. Cada tempestade é “atípica”. Cada Verão extremo é “o mais quente de sempre”, até deixar de o ser porque o superlativo perde efeito. A água sobe um grau de cada vez e chamamos-lhe normalidade. E enquanto discutimos se ainda está morna ou já começa a aquecer, o corpo colectivo ajusta-se, recalibra expectativas, baixa o limiar do intolerável. O problema não é não vermos a água aquecer. É termos aprendido a confundir adaptação com inteligência, a permanência com resiliência, a sobrevivência provisória com solução. Como o sapo, acreditamos que ainda há tempo para saltar, sem perceber que a lentidão foi precisamente o mecanismo que nos retirou a capacidade de decisão.
Há também um problema narrativo profundo. A crise climática não tem clímax. Não há um dia zero, não há um instante simbólico que se inscreva na memória colectiva. Há médias, probabilidades, cenários, curvas. A ciência diz-nos o que está a acontecer, mas fá-lo numa linguagem que o corpo não reconhece como urgência. Sabemos, mas não sentimos. Como escreveu Walter Benjamin, a modernidade acumulou informação enquanto empobrecia a experiência. O aquecimento global é uma das expressões dessa dissociação - plenamente conhecido, profundamente não vivido.
Durante anos tentou-se comunicá-lo como um problema técnico, um erro de cálculo à espera de melhor engenharia. Quando isso falhou, passou-se à moral individual: recicla, reduz, compensa, sente culpa. Transferiu-se a responsabilidade estrutural para o gesto doméstico, como se um sistema desenhado para a acumulação infinita pudesse ser corrigido por virtudes privadas. O efeito foi e é previsível: culpa sem poder não gera transformação, gera cansaço, e o cansaço é politicamente funcional.
Mas o impasse não é só comunicacional, é também ideológico. A crise climática não é compatível com o modelo económico que a produz. Reconhecê-la plenamente implicaria tocar no dogma do crescimento infinito, na ficção da eficiência neutra, na sacralização do lucro como métrica suprema de valor. Implicaria admitir que o sistema está avariado, apesar de estar a funcionar exactamente como foi concebido.
Portugal oferece hoje um exemplo quase didáctico dessa recusa. As cheias sucedem-se, as tempestades acumulam-se, os alertas tornam-se rotina administrativa. A resposta política permanece reactiva, sempre posterior ao dano. Limpa-se a lama, repara-se a estrada, promete-se resiliência, palavra confortável de um tempo que prefere adaptar-se à ferida em vez de retirar a lâmina. E no mesmo país onde a água entra pelas casas com uma regularidade cada vez menos excepcional, consegue-se discutir, com serenidade parlamentar, a eliminação do próprio conceito de emergência climática. Apaga-se a palavra como se o léxico fosse o problema. Reduzem-se metas, esvaziam-se direitos ambientais, reabre-se a porta à prospecção e exploração de petróleo e gás, como se o tempo tivesse parado algures num passado onde o planeta ainda aceitava adiamentos morais. A IL apresentou estas propostas sem embaraço, fiel à gramática neoliberal que confunde liberdade com desregulação e crescimento com virtude ontológica. Não é ignorância, é coerência. Coerência brutal, mas coerência. Nada de novo, portanto.
Existe mais recentemente, um momento de humor negro particularmente refinado nesta coreografia do desastre: o instante em que o Estado estende a mão para “ajudar” e, ao mesmo tempo, exige ficha limpa como condição de humanidade. Quem perdeu casa, oficina, armazém, arquivo, máquinas, tempo e margem de manobra, descobre que a catástrofe não suspende a moral fiscal. Se houver uma dívida, muitas vezes produto directo de um sistema que normaliza a asfixia financeira das pessoas e pequenas e médias estruturas, o apoio evapora-se. A lama é colectiva, a culpa é individual. Em paralelo, perdoam-se dívidas a multinacionais com a regularidade de um gesto técnico, renegociam-se impostos em nome da estabilidade, da competitividade, da confiança dos mercados, essa entidade metafísica que merece sempre mais empatia do que quem perdeu tudo numa noite de chuva. O critério é transparente: o capital recebe análise estrutural, o cidadão recebe sermão. Aos grandes reconhece-se contexto, aos pequenos exige-se virtude. A catástrofe torna-se assim um teste ético perverso, não sobre o que foi perdido, mas sobre quem merece ser ajudado. Não é incoerência nem falha do sistema; é a sua pedagogia mais pura. Uma pedagogia que ensina, com clareza cruel, que a solidariedade é condicional, que o perdão é proporcional ao volume de facturação e que, mesmo quando a água entra pelas casas, a lógica do castigo continua seca, intacta e exemplar.
Importa dizê-lo: isto não é uma crítica apenas a este governo, que fez e continua a fazer figura de idiota com particular criatividade, é uma crítica a todos os governos sucessivos. O padrão repete-se com uma precisão quase trágica. Muda-se o discurso, mantém-se a estrutura. Adia-se, mitiga-se, gere-se o dano. Planeamento de longo prazo nunca foi forte nesta latitude política portuguesa.
O paralelismo com a catástrofe do SNS é quase obsceno. Há décadas que se fala de crise de natalidade, de envelhecimento da população, de falta de profissionais, de ausência de visão estrutural. Sabemos tudo. Os relatórios existem. As projecções são claras. E, no entanto, nada de estrutural se faz, porque planear implica investir sem retorno imediato, implica pensar para lá do ciclo eleitoral, implica aceitar custos agora para evitar colapsos depois. E isso nunca foi politicamente sexy. Esperemos pela próxima depressão na saúde, então - oh wait.
Talvez haja aqui algo de cultural. Uma relação peculiar com o tempo. Uma tendência para o improviso, para o desenrascanço elevado a virtude, para a ideia de que “logo se vê”. Uma cultura de gambiarras, de mitigação em vez de transformação, de remendo em vez de arquitectura, como se o futuro fosse sempre um problema abstracto, suficientemente distante para não exigir escolhas difíceis no presente.
Hannah Arendt identificaria isto como irresponsabilidade diluída: quando ninguém decide plenamente, ninguém responde plenamente. O desastre torna-se administrativo, fragmentado, distribuído por ministérios, comissões, prazos. Perde urgência ao ganhar burocracia. Chamamos “crise” a algo que é estrutural. A palavra sugere excepção, quando o que vivemos é consequência. Talvez por isso custe tanto agir porque aceitar a crise climática como aquilo que ela é implicaria aceitar limites ao crescimento, ao consumo, à fantasia de progresso como expansão contínua e infinita. E limites continuam a ser o grande tabu da modernidade tardia.
Como lembrava o “meu” querido José Saramago, a cegueira raramente é ausência de visão, é recusa de ver. O aquecimento global não nos pede que salvemos o planeta, isso é uma metáfora confortável. Pede-nos que aceitemos que a forma como organizámos a vida colectiva pode não ser compatível com a sua continuidade. Pede-nos luto. O luto de um imaginário que se quis infinito, de um sistema que confundiu expansão com sentido. Enquanto esse luto não for feito, continuaremos a tratar cada cheia como acidente, cada tempestade como azar, cada alerta como exagero. Continuaremos a amputar palavras em vez de amputar privilégios. Continuaremos a chamar adaptação àquilo que é, muitas vezes, simples rendição bem apresentada. E a água continuará a subir, com a paciência de quem sabe que o tempo, ao contrário da política, não negocia. Não porque não avisou. Mas porque foi avisando devagar demais para interromper a normalidade.
O erro está na expectativa do estrondo. Esperamos sempre que o fim anuncie a sua chegada, que faça barulho suficiente para nos obrigar a parar, a decidir, a agir. Mas o mundo raramente acaba assim. O que se desfaz prefere a continuidade, a gestão corrente, a linguagem polida. Prefere o adiamento, essa “normalidade”. Há um verso de T. S. Eliot para quando pensamos no fim das coisas: “not with a bang but with a whimper”. O mundo não acaba com explosão, acaba com um suspiro. Não com uma ruptura clara, mas com um esvaziamento progressivo de sentido, de decisão, de responsabilidade. Acaba quando tudo continua a funcionar, quando as instituições permanecem de pé, quando os relatórios se acumulam, quando a linguagem se afina para não dizer demasiado, quando a água sobe e ainda assim há agenda, debate, mitigação, prazos.
O aquecimento global é esse fim em modo administrativo. Não chega como catástrofe absoluta, chega como rotina. Não interrompe, prolonga. Não grita, desgasta. Fomos treinados para reconhecer o colapso apenas quando ele faz barulho suficiente para nos absolver da inércia. Aqui não há absolvição possível. Há apenas um mundo que se vai desfazendo enquanto insistimos em chamar normalidade ao que sobra, enquanto aprendemos a viver dentro da erosão como quem aprende a viver com dor crónica, sem nunca mais perguntar de onde veio.
Não será com um estrondo, mas com um murmúrio. Com um som baixo, quase educado, demasiado discreto para convocar pânico, demasiado contínuo para permitir silêncio. Um Si, talvez - nota instável, suspensa, à beira da resolução que nunca chega, tensão prolongada que se confunde com fundo sonoro da vida moderna.
E nós, atentos à gestão corrente dos desastres, aos prazos, aos relatórios, às excepções que já não o são, continuamos a não o ouvir. Não porque o som seja fraco, mas porque aprendemos a viver dentro dele.
D.




Um texto magnífico, sem dúvida! Parabéns pelo trabalho e obrigado pela divulgação.
Penso que será importante, apesar de tudo, ainda que culturalmente possamos ter as nossas idiossincrasias numa ideia de uma entidade coletiva que não existe de facto, será importante perceber como os impérios, que se manifestam através de estados - alguns considerados democráticos - e grandes corporações, nunca resolveram de facto os grandes males que, talvez eles próprios, os criaram, como a absoluta miséria de uma massa populacional enorme, as alterações climáticas são mais umas, e isto, tudo isto, merece reflexão e ação sobre a forma como nos organizamos coletivamente. Será possível, certamente, embora seja difícil, para mim, encontrar uma saída deste labirinto imperial.
Força e um abraço!
Espetacular bem escrito e com conteúdo assinalável à compreensão Humana? Talvez? Logo se verá!