O Retrato Oval, Arthur Rackham
No outro dia, em arrumações de livros, deparei-me com um dos contos de Edgar Allan Poe - O Retrato Oval. Li-o quase ao acaso, como quem abre uma ferida antiga sem prever a hemorragia, e a sua concisão enganadora devolveu-me uma interrogação que não se fecha: o que significa amar mais a imagem do que a carne, preferir a representação à presença, desejar o ícone imortal em vez do corpo que respira, falha e se degrada?
O conto de Poe não é apenas um exercício gótico, mas uma meditação antecipatória sobre a violência das imagens. A mulher converte-se em figura, a vida cede lugar ao ícone, e consuma-se o sacrifício: a obra vive porque o corpo amado morre. Toda a imagem, por mais sedutora que seja, é iconofágica: alimenta-se do real para existir, mas para persistir precisa de neutralizá-lo. O retrato não envelhece, mas também não pulsa; não definha, mas também não germina. É um cadáver excelentemente iluminado, um organismo inorgânico, suspenso na eternidade da ausência.
Amar a imagem em detrimento da pessoa é ceder ao fascínio do incorruptível, ainda que esse incorruptível seja apenas ausência travestida de plenitude. É amar o simulacro, a ficção luminosa que projectamos sobre a superfície inerte. Barthes chamaria isto de idolatria do punctum: detalhe inesperado que, numa fotografia, nos fere de modo íntimo, como uma seta que atravessa a pele. O punctum é aquilo que salta do retrato e nos toca pessoalmente - o brilho de um olhar, a dobra de uma mão, a sombra quase imperceptível de um gesto -, mas, ao ser arrancado do corpo vivo, transforma-se em objecto de culto desligado da sua origem. O que antes era fragmento vital converte-se em relíquia, e nessa relíquia já não pulsa sangue, apenas memória fixada. Amar o punctum sem o corpo que o produziu é venerar o vestígio e abandonar a fonte; é preferir a ferida luminosa à carne que a gerou, eternizar o instante à custa de matar a duração.
Maurice Blanchot, por seu lado, lembra que toda a literatura assassina o objecto amado para o perpetuar como sombra transmissível. Escrever é condenar à ausência aquilo que se deseja salvar, é transformar o vivo em espectro legível. No gesto de narrar ou descrever, a presença concreta dissolve-se e o que resta é apenas a sua duplicação espectral: um eco que nos chega intacto, mas que já não é corpo, já não é respiração. A literatura, como o retrato, sobrevive à custa da perda - dá-nos continuidade, mas nunca devolve o calor da presença.
E Georges Bataille acrescentaria que todo gesto erótico é vizinho da morte, porque o excesso, o transbordamento, consome aquilo que toca. O desejo não se limita a celebrar a vida: ele arrisca-a, desgasta-a, aproxima-a do seu limite. No erotismo, a carne não é apenas presença, mas também ruína iminente - cada prazer contém a sua própria sombra de dissolução. Assim, amar a imagem em detrimento da pessoa não é apenas idolatria: é também uma forma de erotismo invertido, em que o excesso de olhar e de representação devora o corpo até o extinguir.
No presente, o dilema não perdeu actualidade - ganhou escala. O amor contemporâneo já não se limita a idolatrar um retrato fixo: multiplica-o até à exaustão. Selfies, stories, posts transformam cada relação numa economia de imagens, onde o corpo é mediado e comparado antes mesmo de ser tocado. A intimidade já não se mede apenas em proximidade, mas também em circulação, em visibilidade, em representação.
A iconofagia torna-se ainda mais evidente: quanto mais o corpo é representado, menos ele é vivido. Li recentemente alguns estudos que assinalam que os mais jovens, apesar da sobre-exposição a imagens sexualizadas, relatam menos procura de contacto físico, menos desejo de entrega sexual. No presente, testemunhamos não apenas o retrato idealizado, mas também a deserção do toque: uma retracção silenciosa do corpo, onde o desejo se dissolve sob o peso das imagens. Amar, neste regime, é amar à distância: preferir a imagem que confirma à pele que contraria, a promessa virtual ao risco da imperfeição.
Recordo-me de uma conversa em que alguém me disse, e não sei já em que contexto, que nunca, em nenhuma outra época da vida humana, um homem ou uma mulher, antes de verem um corpo nu na realidade, tinham já visto centenas online. Essa antecipação iconográfica instala uma outra forma de violência: a do corpo real que chega sempre depois do corpo idealizado, medido contra padrões digitais de perfeição impossível, improvável. Quando o encontro com a nudez ocorre, já está contaminado por um arquivo silencioso de imagens - comparações invisíveis, espectros de corpos sem falha que pairam sobre a experiência.
E esse arquivo não é “neutro” - até porque nada é - há um toque do algoritmo que escolhe quais os corpos que vemos, que repete certas formas, certas curvas, certos traços, até que o olhar aprenda uma norma sem nunca lhe ter sido perguntado se a deseja. Nunca é apenas excesso - é excesso curado, dirigido, afinado para impor um modelo padrão. E assim, antes de tocarmos um corpo, já nos foi “ensinado” qual corpo devemos desejar, qual nudez merece atenção, qual corpo é reconhecido como corpo. Não será também esta precedência maquínica uma das razões pelas quais o desejo se retrai, esmagado pelo peso de uma perfeição que nunca se encontra?
A contradição maior: ao tentarmos eternizar a pessoa, o instante, o gesto – numa fotografia, numa obra, num arquivo digital –, perdemos inevitavelmente o momento que queríamos salvar. O desejo de fixar consome o que deveria apenas ser vivido, como se cada clique fosse já a antecipação da ausência. O instante morre no mesmo gesto em que é preservado.
O dilema de Poe reaparece assim, intensificado: o que é mais insuportável, a imperfeição do real ou a esterilidade da imagem? Quem escolhe o retrato escolhe a eternidade sem vida, a forma despida de substância. Quem escolhe a carne escolhe a degradação, mas também o acaso, o erro, a diferença incessante. Hoje, diante da abundância de imagens, quantos ainda escolhem verdadeiramente o corpo, as imperfeições?
Parece-me, por isso, que todo amor moderno esteja a ser atravessado por uma violência subterrânea. Amar é fabricar ídolos digitais, petrificar instantes em pixels, substituir o corpo pelo avatar. Todo amante é, inevitavelmente, um pintor de Poe com um telemóvel na mão: arranca vitalidade ao outro para erguê-lo como figura idealizada, sabendo – ainda que em silêncio – que esse gesto é já uma traição ontológica, um homicídio simbólico. O amor, na sua versão contemporânea, não se limita a tocar o corpo: devora-o para o eternizar, mas deixa atrás de si apenas imagens – belas, intactas e irremediavelmente mortas.
D.




Entre a proto-representacão típica de Magritte e a verdadeira caverna de Platão em que vivemos hoje, há aqui matéria para horas e horas de conversa. Fantástico, D.!