O Retrato Oval, Arthur Rackham
No outro dia, enquanto arrumava livros, parei no “O Retrato Oval”, de Edgar Allan Poe. Li-o por acaso novamente, numa pausa entre tarefas domésticas, e esperava regressar a ela sem grandes consequências, mas há textos cuja brevidade nos deixa poucas possibilidades de defesa: quando chegamos ao fim, alguma coisa já mudou de lugar. Fiquei a pensar na facilidade com que podemos amar a imagem de alguém e deixar de atender à pessoa, nessa devoção que conserva os traços de um rosto enquanto se torna progressivamente incapaz de perceber o que lhe acontece.
No conto, um pintor retrata a mulher ao longo de semanas, absorvido pela obra, enquanto ela enfraquece diante dele. O rosto ganha vida na tela à medida que a perde fora dela; quando o pintor termina e se volta para a mulher, encontra-a morta. O que me perturba é, claro, a proximidade em que tudo acontece: ela permanece ali, ao alcance dos seus olhos, submetida a uma atenção minuciosa que já não consegue reconhecê-la como alguém que sofre. Pode estudar-lhe a expressão, aperfeiçoar-lhe os lábios, dedicar-lhe dias inteiros, e falhar precisamente aquilo de que ela precisa para continuar viva.
Poe acrescenta um pormenor cruel: quem contempla o retrato vê na sua semelhança uma prova do amor do pintor. A obra funciona como testemunho de uma devoção cujo custo a admiração não contabiliza. A mulher, dócil e sem queixas, continua a sorrir enquanto definha; o sacrifício torna-se quase imperceptível porque se apresenta sob a forma reconhecível da entrega amorosa. Leio aqui uma pergunta sobre o que aprendemos a admirar: quantas vezes se chama amor à capacidade de alguém desaparecer dentro do projecto de outra pessoa, e quantas vezes a beleza do resultado dispensa a pergunta sobre quem pagou por ele?
É neste ponto que a ideia de iconofagia me interessa: a imagem alimenta-se da pessoa quando começa a consumir o tempo, a atenção e a liberdade que lhe seriam devidos. O retrato torna-se mais exigente do que o corpo que o tornou possível, e a pessoa passa a existir sob a obrigação de lhe corresponder. Pode acontecer diante de uma tela, de uma câmara ou apenas na intimidade de uma convicção. Um ideal amoroso também tem moldura, mesmo quando ninguém o pendura numa parede.
Construímos inevitavelmente imagens de quem amamos. Fazemo-las de gestos, de palavras, de coisas que nos foram prometidas e de outras que imaginámos sozinhos, com aquela confiança precipitada de quem encontra num rosto a resposta a uma pergunta antiga. O problema começa quando essa primeira composição se torna inalterável, quando tudo o que a pessoa faz depois é julgado pela fidelidade à personagem que lhe atribuímos. A mudança passa a parecer uma quebra de contrato; o cansaço, uma falha de encanto; a diferença, uma traição. Para continuar a ser amada, a pessoa teria de permanecer reconhecível na forma exacta em que primeiro nos comoveu.
As redes deram a esta tentação instrumentos quotidianos de montagem e circulação. Uma relação pode adquirir a sua estética, a sua sequência de imagens, a sua narrativa pública de felicidade, até que a necessidade de a manter reconhecível comece a interferir com a possibilidade de a viver. Um jantar transforma-se em cenário, uma viagem em prova, um gesto de ternura numa ocasião que convém registar. Fotografar pode prolongar a alegria; também pode introduzir nela um espectador permanente, perante o qual ensaiamos a vida enquanto ela decorre. A intimidade ganha então uma tarefa suplementar: além de existir, tem de produzir uma versão convincente de si mesma.
Recordo-me de uma conversa em que alguém me lembrava que hoje em dia se tornou possível ver centenas de corpos nus antes de conhecer a nudez de outra pessoa na proximidade de um encontro. Ficou-me essa precedência: o corpo chega acompanhado por um arquivo que não escolheu, por ângulos, comparações e expectativas que já estavam à sua espera. A sua pele tem temperatura, a sua respiração altera o ritmo, a sua hesitação pede uma resposta; tudo isso introduz no encontro uma imprevisibilidade que nenhuma imagem, por mais explícita, permite antecipar por inteiro. Conhecer visualmente a anatomia de muitos corpos não nos ensina, por si só, a estar com um.
E o arquivo é seleccionado. Plataformas como o TikTok ordenam o que vemos através de sistemas que consideram as nossas interacções e o tempo de visualização; a demora diante de uma imagem participa na escolha das seguintes. Pergunto-me o que acontece quando a repetição assim produzida começa a adquirir a autoridade do evidente, quando certos corpos parecem naturalmente mais desejáveis porque são também aqueles que o ecrã insiste em devolver-nos. Um segundo de insegurança diante de uma imagem pode alimentar a oferta de imagens semelhantes. O sistema regista a atenção; as razões íntimas dessa atenção ficam por explicar.
Seria tentador fazer desta abundância a explicação para uma suposta desistência colectiva do corpo. Um estudo publicado em 2020, com dados norte-americanos de 2000 a 2018, encontrou um aumento da inactividade sexual entre homens dos 18 aos 24 anos e entre homens e mulheres dos 25 aos 34. Mas a frequência dos encontros não mede directamente a intensidade do desejo, e esses dados não demonstram que as imagens tenham causado a mudança. A inquietação que me interessa permanece uma pergunta: podemos tornar-nos exímios consumidores da aparência do desejo e continuar profundamente despreparados para a vulnerabilidade de o viver com alguém?
Bataille pensava o erotismo a partir da tentativa de exceder o isolamento de cada ser, de perturbar a separação em que existimos. Lido a partir dessa inquietação, o encontro exige que alguma coisa em nós possa perder a sua estabilidade. A outra pessoa tem desejos que não coincidem necessariamente com os nossos, um ritmo próprio, a capacidade de nos surpreender e de nos recusar. A imagem oferece outra relação com o controlo: podemos convocá-la, detê-la, abandoná-la sem ter de negociar o que acontece a seguir. Quando essa disponibilidade se torna a medida do desejável, a autonomia de um corpo começa a parecer um inconveniente.
Ainda assim, conheço demasiado bem a força de certas fotografias para as reduzir a presenças mortas. Barthes chamou punctum àquilo que, numa fotografia, nos atinge de forma singular, um pormenor que fere a distância com que julgávamos poder olhá-la. Pode ser a maneira de uma mão pousar num ombro, uma dobra da roupa, qualquer coisa aparentemente secundária que nos devolve a intimidade de uma pessoa. Uma imagem pode ensinar-nos a reparar, pode tornar visível o que a pressa deixara passar. Essa ferida não exige que abandonemos a fotografia; exige que saibamos reconhecer o que ela nos dá e aquilo que permanece irredutível à sua superfície.
A escrita conhece uma dificuldade semelhante. Na reflexão de Blanchot sobre a linguagem e a morte, nomear implica uma separação: a palavra torna presente no discurso aquilo cuja existência concreta não pode transportar, e continua disponível mesmo quando aquilo que nomeia está ausente. Penso nisso quando escrevo sobre alguém, quando escolho um gesto e lhe dou a continuidade que teve para mim, sabendo que a pessoa vive para lá dessa frase, noutros sentidos que desconheço. O perigo começa quando a beleza do que escrevi me torna menos disponível para ouvir aquilo que poderia obrigar-me a escrevê-lo de outra maneira.
Compreendo o desejo de guardar. O medo da perda pode tornar-nos meticulosos: conservamos mensagens, fotografias, pequenas provas de que um instante existiu, como se a quantidade de vestígios pudesse diminuir a nossa exposição ao desaparecimento. O arquivo pode acompanhar o luto, sustentar a memória, devolver-nos alguma coisa numa noite difícil. Torna-se mais inquietante quando começa a substituir uma relação ainda possível, quando pedimos à pessoa viva que confirme incessantemente o que já guardámos dela, ou quando continuamos a dirigir o nosso amor a uma versão que deixou de nos responder. A fidelidade a uma imagem pode coexistir com uma profunda desatenção ao presente.
Volto, por isso, à mulher de Poe, sentada diante do homem que a pinta, e penso no gesto que teria interrompido a obra: levantar os olhos a tempo, perceber o seu cansaço, aceitar que naquele dia o retrato ficaria por fazer. O amor teria de suportar essa interrupção, a perda de uma luz, de uma pose, da imagem que prometia conservar. Interessa-me essa capacidade de deixar que a vida desarrume a representação, que o corpo se mova, que a pessoa diga que já não quer estar ali. Se for preciso deixar o retrato por acabar para que ela se levante e vá à sua vida, que fique por acabar.
D.




Entre a proto-representacão típica de Magritte e a verdadeira caverna de Platão em que vivemos hoje, há aqui matéria para horas e horas de conversa. Fantástico, D.!