Como pessoa cuja exploração do homem pelo homem lhe faz imensa espécie, alternei nos últimos anos entre fervoroso abolicionista e empático legalizador da prostituição. Quebrado o tabu de assumir que o pudor e moralismo com que olhava para a intimidade do corpo são construções sociais que empurram quem se prostitui para a total precariedade aceitei que lutar pela dignidade era a única solução. Maravilhoso texto e desconstrução de um falso moralismo que condena as classes pobres a uma sombra que não merecem.
Muito obrigada pelas tuas palavras, João :) Acho que disseste exactamente aquilo que é preciso: quando rasgamos o verniz moralista, percebemos que o “escândalo” nunca esteve no corpo, esteve sempre na desigualdade. A prostituição só é vista como indignidade porque insistimos em olhar para ela com a lente da culpa e não com a lente dos direitos. Enquanto houver vergonha, há silêncio; e onde há silêncio, há abuso.
Abolicionismo ou regulamentação, no fundo, a discussão devia ser sempre sobre dignidade, autonomia e protecção real, não sobre moral. É curioso como tantas pessoas preferem preservar a pureza das suas convicções do que a segurança de quem está na rua.
Obrigada por leres, por pensares o tema com honestidade e por não fugires do desconforto. Se todos já estivéssemos neste ponto, não havia tanta gente escondida na sombra.
Execelente texto que põem a problematizar o porquê das coisas serem como estão. Ora, o problema é moral. Dentro da neutralidade técnica em que vivemos não se assume (ou apenas com indicadores económico-financeiros) as escolhas. As drogas e o sexo são temas que devem ser moralmente desaconselháveis pela sociedade de bem que desemboca nos cidadãos de bem. Vazios, de plástico e (in)felizes, desde que não questionem está tudo bem. Resta-nos a dúvida e este empurrão para a resistência, o que ainda nos distingue humanos, Diana.
As drogas e o sexo tornaram-se, de facto, os últimos territórios onde a moral ainda acredita poder legislar o prazer, e talvez por isso persistam como sintomas - não do mal, mas do medo. Medo do corpo, do desejo, do desvio. A dúvida, como dizes, é o que ainda nos salva da automatização - o que nos mantém humanos, imperfeitos, desobedientes. É nesse espaço que começa a verdadeira ética, aquela que não se confunde com moral. Obrigada FMR :) (ainda estou em falta contigo, não me esqueci)
O Hedonismo, tão atual, nada gera de interessante, mas Epicuro tinha completa razão! (Até na vida em conjunto com os amigos). :) E a dicotomia da ética vs moral é muito vincada neste tema, mesmo que todos achem que são a mesma coisa. O ângulo de abordagem ao tema entrou pela porta certa.
Eu genuinamente gostava de ter esta visão mais progressista em relação à prostituição, mas, de facto, não consigo. E se for moralismo, que seja. Acho que, para se ter uma discussão honesta, da mesma forma que eu, enquanto pessoa pró-abolição, tenho de admitir o moralismo, quem está do lado da pró-regulamentação também tem de admitir que não, a prostituição não é "um trabalho como outro qualquer". Acho desonesto continuarmos com esta façanha, para dizer a verdade.
Posto isto, o que me chateia na prostituição é, também, a questão da classe. No caso, a forma como são maioritariamente as mulheres pobres que são empurradas para esta profissão. Como nos tiktoks que já vi onde aparecem sempre as imigrantes a falar das maravilhas de estar na montra de Amesterdão, e nunca uma holandesa. Se a estas mulheres fosse dado outro trabalho, com reais condições materiais, continuariam a ser prostitutas? Não saberemos.
Ainda assim, o meu foco nunca será penalizar a pessoa prostituída nem incorrer em burocracias legais que as criminalizem ou prejudiquem. A estas mulheres deverão ser dadas as protecções adequadas face à sua realidade, isto não indo para aquele que eu acho que deveria ser o objectivo social máximo: garantir pleno emprego, habitação, saúde, etc., para todos os cidadãos - e depois aí veríamos quem é que continuaria de livre vontade a prostituir-se.
Gosto de pensar que, enquanto seres humanos e seres eróticos, temos a possibilidade de explorar livremente a nossa sexualidade, incluindo aqui outras formas de trabalho sexual relacionadas com a performance, seja ensaios fotográficos, filmes, espectáculos ao vivo, o que for, igualmente com as devidas regulamentações e compensações. Por alguma razão, ainda assim, considero que isto é diferente de se estar à mercê de um rol de clientes diários que usam de forma tão íntima o corpo de uma mulher - moralista me assumo.
Olá Rafaela, agradeço o teu comentário e, sobretudo, a franqueza com que anuncias o moralismo como ponto de partida. É sempre útil quando a discussão começa com a admissão explícita de que o critério adoptado não é empírico, nem político, mas visceral. Pelo menos assim percebemos de imediato de onde falamos e ajustam-se as expectativas.
Dizes que seria “desonesto” continuar esta “façanha”. A prostituição é um trabalho “como outro qualquer”? Não, não é. E é precisamente por não o ser que defendo regulação e protecção - não a abolição higiénica que lava a consciência mas agrava o risco. A verdadeira façanha, se quisermos usar a palavra, seria acreditar que apagar um fenómeno resolve as suas causas. Seria, de facto, uma façanha de desonestidade intelectual ou, na melhor das hipóteses, de ingenuidade política - mas não creio que seja isso que está em causa.
Quanto à questão de classe, é mais do que evidente que a prostituição emerge da desigualdade; e isso, ironicamente, é o argumento mais sólido para garantir direitos, não para os retirar. A precariedade não desaparece porque decretamos que a actividade deve deixar de existir - desaparece, quando muito, da vista. E já sabemos como corre a história sempre que a política confunde visibilidade com existência.
O facto de assumires o moralismo não torna a posição pró-abolição mais sólida; apenas a torna honesta no diagnóstico das tuas motivações. Mas políticas públicas não se fazem com desconforto pessoal - fazem-se com dados, com realidades concretas, com impacto social. A moral privada não é critério suficiente para eliminar um fenómeno da vida pública. Sempre que o moralismo foi critério legislativo, o resultado foi o mesmo: menos direitos, menos segurança, menos liberdade. As políticas públicas não existem para validar o que cada um de nós faria ou não faria, existem para proteger quem efectivamente vive estas realidades. E o pró-abolição continua a não explicar porque razão a sua moral pessoal deve prevalecer sobre a autonomia e a segurança das outras pessoas.
E já agora, há uma pergunta que nunca vejo respondida: para além do moralismo que dizes assumir, o que sustenta exactamente a abolição? Que evidência empírica legitima a proibição? De que forma é que proibir protege quem já vive desta realidade? Como justificas que uma convicção pessoal deva transformar-se em política pública?
Defender direitos não é fazer apologia. Não me vês a celebrar a prostituição como emancipação feminina ou como um spa transcendental do capitalismo tardio. É apenas não confundir juízo moral com eficácia política. Quando digo que é preciso regular, não estou a escrever poesia laudatória sobre vitrinas de Amesterdão; estou a constatar que a proibição nunca salvou ninguém e que a clandestinidade é sempre a pior política social que um país pode adoptar. Se isso soa “progressista”, talvez não seja pelo que digo, mas pela pouca disposição para encarar a realidade.
O que digo é simples: proibir não protege. Proibir esconde, desloca, empurra para zonas onde a violência agradece a ausência de testemunhas. Mas percebo que seja sempre mais confortável acreditar que um problema deixa de existir quando se deixa de ver. É uma fantasia recorrente em vários âmbitos da política. E, entretanto, ninguém está a obrigar ninguém a exercer prostituição - tal como ninguém é obrigado a recolher lixo, lavar pratos durante dez horas num restaurante ou carregar caixas a troco de salários mínimos. E pergunto: quem sonha com isso? Quem idealiza uma vida inteira num call center? E, ainda assim, não propomos abolir esses trabalhos - propomos protegê-los. Não são também estes trabalhos marcados pela desigualdade? A coerência só falha, curiosamente, quando o tema é sexo.
A legalização do aborto não transformou o país numa população ansiosa por abortar; transformou um acto clandestino em acto seguro. O mesmo se aplica aqui: regulamentar não cria fenómenos - apenas impede que os existentes decorram sob violência e silêncio. O moralismo, esse sim, produz um efeito perverso: substitui protecção por punição disfarçada de virtude. E sim, é punição - se o Estado abole algo, torna a sua existência ilegal, e alguém terá de ser penalizado. E historicamente, sobra sempre para a mulher.
E a pornografia? O que é exactamente? Uma forma higienizada de prostituição, com filtros, edição e pós-produção. Uma espécie de Uber do desejo, consumida à distância, convenientemente desodorizada pela mediação tecnológica. Ninguém clama pela sua abolição. Pelo contrário: regulam-se contratos, impostos, direitos. A fronteira entre trabalho sexual performativo e prostituição é muito mais porosa do que o conforto moral admite - e tremendamente conveniente para certas posições abolicionistas.
Para concluir, porque isto já se tornou um ensaio, dizer que a prostituição não é um trabalho como outro qualquer não implica abolição; implica regulação robusta. Quanto maior o risco, maior a obrigação de proteger. A abolição não é protecção - é a manifestação mais refinada do moralismo político: a ilusão de que eliminar a forma elimina a causa.
E compreendo a tua intenção - ou melhor, compreendo que acredites nela. Mas proteger não é proibir. E abolir não é salvar. A abolição é apenas a versão moralista da política pública: muito convicta, muito sentida, muito virtuosa, e completamente ineficaz.
No fundo, parece-me que queremos o mesmo: que ninguém seja empurrado para nada pela precariedade. Divergimos no método. Tu propões proibir a porta; eu proponho reconstruir o edifício inteiro. Um de nós está a fazer urbanismo; o outro está a colar cartazes.
Obrigada pela fricção, é sempre relevante para o tema, e lembrou-me, como sempre, que o moralismo é excelente a produzir certezas, e péssimo a produzir soluções.
Obrigada pela tua resposta tão completa. Acho que não temos posições assim tão diferentes, tal como também apontas. E confesso que fiquei a pensar no teu texto nos dias que se seguiram a tê-lo lido e comentado, porque acabei me abrir a uma nova perspectiva para a qual, talvez, estivesse erroneamente reticente. Não sei se me fiz entender, porque neste tema quando os pontos de partida são opostos há tendência para se olhar com preconceito para o outro. O meu suposto moralismo não é de cariz púdico, religioso nem conservador - sou uma mulher de esquerda e considero-me igualmente progressista. É, talvez, mais uma revolta porque, do outro lado da discussão, costuma estar a tal posição neo-liberal de que a prostituição é uma escolha e inclusive emancipadora. E admito que talvez tenha lido o teu texto com estes olhos, daí ter sido importante ler agora a tua ressalva de que não é deste ponto que partes.
De resto, eu concordo contigo na sua essência: acho que não é a proibir que se resolvem as coisas (a comparação com o aborto é impecável). Ao mesmo tempo que se protege as pessoas prostituídas, gostava de houvesse mais políticas de fundo para melhorar a vida das populações, para que houvesse outros postos de trabalho a que possam recorrer antes do sexual, com vista a uma diminuição na prostituição - ou então, aí sim, estando as condições asseguradas, admitir que existem pessoas prostitutas por opção.
Outra forma que tenho de comprar a minha posição talvez seja pelo exemplo na forma como Portugal lidou com a crise da droga nos anos 90: fomos pioneiros e um exemplo mundial ao não criminalizar o consumo e, em vez disso, dar ferramentas aos toxicodependentes para que se pudessem reabilitar. Portanto é aqui que admito que, talvez, eu tenha até uma posição similar à tua - admito que é ao regulamentar que se protege. Embora, como em tudo, não é perfeito. Também os outros trabalhos dito "normais" são regulamentados e nem por isso os trabalhadores estão livres de abusos...
Agradeço-te mais uma vez a franca troca de opiniões num tema tão polarizador e para o qual, apesar de talvez ter parecido no meu comentário inicial, eu não tenho soluções, nem admito tê-las. É um tema que mexe comigo, sem dúvida, mas perante o qual, além do "moralismo", tenho também posições contraditórias que não sei ainda como desconstruir ou encaixar.
Obrigada pela resposta tão honesta, e pela disponibilidade para repensar o ponto de partida. Num tema tão polarizador, é raro encontrar alguém que lê de novo, reconsidera e admite zonas de dúvida. Penso que isso vale mais do que qualquer concordância imediata.
Percebo perfeitamente o teu receio em relação à narrativa neo-liberal que romantiza a prostituição como emancipação; também me irrita profundamente essa ficção, especialmente como mulher de esquerda (conservadora no essencial, progressista no possível). É por isso mesmo que parto da desigualdade material: sem alternativas reais, não há escolha plena. Mas daí não decorre a abolição, decorre a necessidade de políticas públicas que reduzam essa desigualdade e protejam quem vive nela.
O paralelo com a descriminalização das drogas é exactamente o certo: não se salva ninguém através da punição, mas através da redução de danos, da segurança, da possibilidade de sair. E sabemos bem que nenhum modelo é perfeito, nem os trabalhos regulados, nem os que idealizamos. É por isso que regular não é celebrar: é simplesmente o caminho menos hipócrita e mais eficaz para reduzir riscos.
Acho bonito, e intelectualmente raro, assumires as tuas "contradições" - todos as temos, e este tema convoca-as quase inevitavelmente. O importante é, creio, reconhecer que a prostituição nasce da desigualdade o que nunca pode justificar retirar direitos; só os pode reforçar. E querer um mundo onde ninguém o faça por necessidade implica transformar as condições e não abolir a prática.
Obrigada pela troca. Conversas assim dão realmente esperança de que o "debate público" ainda pode ser um lugar de pensamento e não apenas de trincheiras. :)
Olá Rui :) Em parte, partilho essa ambivalência e acho importante nomeá-la. Concordo contigo num ponto essencial: a indignidade não está na pessoa, está nas condições. E creio que é aí que o moralismo costuma falhar, porque prefere indignar-se com o acto em abstracto e não com o sistema que empurra corpos para escolhas que não são livres.
A violência dessas realidades existe, sobretudo na prostituição de rua, nos contextos mais expostos e precários. Negá-la seria desonesto. O problema começa quando essa violência é usada como argumento para retirar agência a todas as outras experiências, ou para transformar o corpo da mulher num território permanentemente tutelado.
Falar de dignidade não pode ser um exercício selectivo. Não há dignidade no trabalho forçado, na pobreza estrutural, na falta de alternativas - mas essas violências atravessam muitas formas de trabalho que não recebem o mesmo julgamento moral.
E é aqui que, confesso, me chateia. Porque a dignidade só parece tornar-se um tema urgente quando se trata do corpo da mulher. A pornografia, por exemplo, raramente é pensada como prostituição, apesar de ser uma indústria estruturada em torno do mesmo princípio, e nela há também decisões livres, e outras não tanto, de serem penetradas várias vezes por vários estranhos, sem que isso convoque o mesmo juízo moral.
Essa assimetria diz muito menos sobre dignidade e muito mais sobre controlo, sobre quem pode dispor do corpo e em que condições o desconforto colectivo se activa. O ponto comum é, sem dúvida, a vontade de que ninguém tenha de vender o corpo por falta de alternativas. Acho que pensar dignidade a sério exige menos proibições, julgamentos rápidos e mais coragem para olhar para as condições materiais, sociais e simbólicas que moldam as escolhas. Não para silenciar a ambivalência, mas para manter o debate produtivo, honesto, humano - e obrigada por fazeres parte dele. :)
Como pessoa cuja exploração do homem pelo homem lhe faz imensa espécie, alternei nos últimos anos entre fervoroso abolicionista e empático legalizador da prostituição. Quebrado o tabu de assumir que o pudor e moralismo com que olhava para a intimidade do corpo são construções sociais que empurram quem se prostitui para a total precariedade aceitei que lutar pela dignidade era a única solução. Maravilhoso texto e desconstrução de um falso moralismo que condena as classes pobres a uma sombra que não merecem.
Muito obrigada pelas tuas palavras, João :) Acho que disseste exactamente aquilo que é preciso: quando rasgamos o verniz moralista, percebemos que o “escândalo” nunca esteve no corpo, esteve sempre na desigualdade. A prostituição só é vista como indignidade porque insistimos em olhar para ela com a lente da culpa e não com a lente dos direitos. Enquanto houver vergonha, há silêncio; e onde há silêncio, há abuso.
Abolicionismo ou regulamentação, no fundo, a discussão devia ser sempre sobre dignidade, autonomia e protecção real, não sobre moral. É curioso como tantas pessoas preferem preservar a pureza das suas convicções do que a segurança de quem está na rua.
Obrigada por leres, por pensares o tema com honestidade e por não fugires do desconforto. Se todos já estivéssemos neste ponto, não havia tanta gente escondida na sombra.
Execelente texto que põem a problematizar o porquê das coisas serem como estão. Ora, o problema é moral. Dentro da neutralidade técnica em que vivemos não se assume (ou apenas com indicadores económico-financeiros) as escolhas. As drogas e o sexo são temas que devem ser moralmente desaconselháveis pela sociedade de bem que desemboca nos cidadãos de bem. Vazios, de plástico e (in)felizes, desde que não questionem está tudo bem. Resta-nos a dúvida e este empurrão para a resistência, o que ainda nos distingue humanos, Diana.
As drogas e o sexo tornaram-se, de facto, os últimos territórios onde a moral ainda acredita poder legislar o prazer, e talvez por isso persistam como sintomas - não do mal, mas do medo. Medo do corpo, do desejo, do desvio. A dúvida, como dizes, é o que ainda nos salva da automatização - o que nos mantém humanos, imperfeitos, desobedientes. É nesse espaço que começa a verdadeira ética, aquela que não se confunde com moral. Obrigada FMR :) (ainda estou em falta contigo, não me esqueci)
O Hedonismo, tão atual, nada gera de interessante, mas Epicuro tinha completa razão! (Até na vida em conjunto com os amigos). :) E a dicotomia da ética vs moral é muito vincada neste tema, mesmo que todos achem que são a mesma coisa. O ângulo de abordagem ao tema entrou pela porta certa.
Obrigada, Luís :)
Eu genuinamente gostava de ter esta visão mais progressista em relação à prostituição, mas, de facto, não consigo. E se for moralismo, que seja. Acho que, para se ter uma discussão honesta, da mesma forma que eu, enquanto pessoa pró-abolição, tenho de admitir o moralismo, quem está do lado da pró-regulamentação também tem de admitir que não, a prostituição não é "um trabalho como outro qualquer". Acho desonesto continuarmos com esta façanha, para dizer a verdade.
Posto isto, o que me chateia na prostituição é, também, a questão da classe. No caso, a forma como são maioritariamente as mulheres pobres que são empurradas para esta profissão. Como nos tiktoks que já vi onde aparecem sempre as imigrantes a falar das maravilhas de estar na montra de Amesterdão, e nunca uma holandesa. Se a estas mulheres fosse dado outro trabalho, com reais condições materiais, continuariam a ser prostitutas? Não saberemos.
Ainda assim, o meu foco nunca será penalizar a pessoa prostituída nem incorrer em burocracias legais que as criminalizem ou prejudiquem. A estas mulheres deverão ser dadas as protecções adequadas face à sua realidade, isto não indo para aquele que eu acho que deveria ser o objectivo social máximo: garantir pleno emprego, habitação, saúde, etc., para todos os cidadãos - e depois aí veríamos quem é que continuaria de livre vontade a prostituir-se.
Gosto de pensar que, enquanto seres humanos e seres eróticos, temos a possibilidade de explorar livremente a nossa sexualidade, incluindo aqui outras formas de trabalho sexual relacionadas com a performance, seja ensaios fotográficos, filmes, espectáculos ao vivo, o que for, igualmente com as devidas regulamentações e compensações. Por alguma razão, ainda assim, considero que isto é diferente de se estar à mercê de um rol de clientes diários que usam de forma tão íntima o corpo de uma mulher - moralista me assumo.
Olá Rafaela, agradeço o teu comentário e, sobretudo, a franqueza com que anuncias o moralismo como ponto de partida. É sempre útil quando a discussão começa com a admissão explícita de que o critério adoptado não é empírico, nem político, mas visceral. Pelo menos assim percebemos de imediato de onde falamos e ajustam-se as expectativas.
Dizes que seria “desonesto” continuar esta “façanha”. A prostituição é um trabalho “como outro qualquer”? Não, não é. E é precisamente por não o ser que defendo regulação e protecção - não a abolição higiénica que lava a consciência mas agrava o risco. A verdadeira façanha, se quisermos usar a palavra, seria acreditar que apagar um fenómeno resolve as suas causas. Seria, de facto, uma façanha de desonestidade intelectual ou, na melhor das hipóteses, de ingenuidade política - mas não creio que seja isso que está em causa.
Quanto à questão de classe, é mais do que evidente que a prostituição emerge da desigualdade; e isso, ironicamente, é o argumento mais sólido para garantir direitos, não para os retirar. A precariedade não desaparece porque decretamos que a actividade deve deixar de existir - desaparece, quando muito, da vista. E já sabemos como corre a história sempre que a política confunde visibilidade com existência.
O facto de assumires o moralismo não torna a posição pró-abolição mais sólida; apenas a torna honesta no diagnóstico das tuas motivações. Mas políticas públicas não se fazem com desconforto pessoal - fazem-se com dados, com realidades concretas, com impacto social. A moral privada não é critério suficiente para eliminar um fenómeno da vida pública. Sempre que o moralismo foi critério legislativo, o resultado foi o mesmo: menos direitos, menos segurança, menos liberdade. As políticas públicas não existem para validar o que cada um de nós faria ou não faria, existem para proteger quem efectivamente vive estas realidades. E o pró-abolição continua a não explicar porque razão a sua moral pessoal deve prevalecer sobre a autonomia e a segurança das outras pessoas.
E já agora, há uma pergunta que nunca vejo respondida: para além do moralismo que dizes assumir, o que sustenta exactamente a abolição? Que evidência empírica legitima a proibição? De que forma é que proibir protege quem já vive desta realidade? Como justificas que uma convicção pessoal deva transformar-se em política pública?
Defender direitos não é fazer apologia. Não me vês a celebrar a prostituição como emancipação feminina ou como um spa transcendental do capitalismo tardio. É apenas não confundir juízo moral com eficácia política. Quando digo que é preciso regular, não estou a escrever poesia laudatória sobre vitrinas de Amesterdão; estou a constatar que a proibição nunca salvou ninguém e que a clandestinidade é sempre a pior política social que um país pode adoptar. Se isso soa “progressista”, talvez não seja pelo que digo, mas pela pouca disposição para encarar a realidade.
O que digo é simples: proibir não protege. Proibir esconde, desloca, empurra para zonas onde a violência agradece a ausência de testemunhas. Mas percebo que seja sempre mais confortável acreditar que um problema deixa de existir quando se deixa de ver. É uma fantasia recorrente em vários âmbitos da política. E, entretanto, ninguém está a obrigar ninguém a exercer prostituição - tal como ninguém é obrigado a recolher lixo, lavar pratos durante dez horas num restaurante ou carregar caixas a troco de salários mínimos. E pergunto: quem sonha com isso? Quem idealiza uma vida inteira num call center? E, ainda assim, não propomos abolir esses trabalhos - propomos protegê-los. Não são também estes trabalhos marcados pela desigualdade? A coerência só falha, curiosamente, quando o tema é sexo.
A legalização do aborto não transformou o país numa população ansiosa por abortar; transformou um acto clandestino em acto seguro. O mesmo se aplica aqui: regulamentar não cria fenómenos - apenas impede que os existentes decorram sob violência e silêncio. O moralismo, esse sim, produz um efeito perverso: substitui protecção por punição disfarçada de virtude. E sim, é punição - se o Estado abole algo, torna a sua existência ilegal, e alguém terá de ser penalizado. E historicamente, sobra sempre para a mulher.
E a pornografia? O que é exactamente? Uma forma higienizada de prostituição, com filtros, edição e pós-produção. Uma espécie de Uber do desejo, consumida à distância, convenientemente desodorizada pela mediação tecnológica. Ninguém clama pela sua abolição. Pelo contrário: regulam-se contratos, impostos, direitos. A fronteira entre trabalho sexual performativo e prostituição é muito mais porosa do que o conforto moral admite - e tremendamente conveniente para certas posições abolicionistas.
Para concluir, porque isto já se tornou um ensaio, dizer que a prostituição não é um trabalho como outro qualquer não implica abolição; implica regulação robusta. Quanto maior o risco, maior a obrigação de proteger. A abolição não é protecção - é a manifestação mais refinada do moralismo político: a ilusão de que eliminar a forma elimina a causa.
E compreendo a tua intenção - ou melhor, compreendo que acredites nela. Mas proteger não é proibir. E abolir não é salvar. A abolição é apenas a versão moralista da política pública: muito convicta, muito sentida, muito virtuosa, e completamente ineficaz.
No fundo, parece-me que queremos o mesmo: que ninguém seja empurrado para nada pela precariedade. Divergimos no método. Tu propões proibir a porta; eu proponho reconstruir o edifício inteiro. Um de nós está a fazer urbanismo; o outro está a colar cartazes.
Obrigada pela fricção, é sempre relevante para o tema, e lembrou-me, como sempre, que o moralismo é excelente a produzir certezas, e péssimo a produzir soluções.
Obrigada pela tua resposta tão completa. Acho que não temos posições assim tão diferentes, tal como também apontas. E confesso que fiquei a pensar no teu texto nos dias que se seguiram a tê-lo lido e comentado, porque acabei me abrir a uma nova perspectiva para a qual, talvez, estivesse erroneamente reticente. Não sei se me fiz entender, porque neste tema quando os pontos de partida são opostos há tendência para se olhar com preconceito para o outro. O meu suposto moralismo não é de cariz púdico, religioso nem conservador - sou uma mulher de esquerda e considero-me igualmente progressista. É, talvez, mais uma revolta porque, do outro lado da discussão, costuma estar a tal posição neo-liberal de que a prostituição é uma escolha e inclusive emancipadora. E admito que talvez tenha lido o teu texto com estes olhos, daí ter sido importante ler agora a tua ressalva de que não é deste ponto que partes.
De resto, eu concordo contigo na sua essência: acho que não é a proibir que se resolvem as coisas (a comparação com o aborto é impecável). Ao mesmo tempo que se protege as pessoas prostituídas, gostava de houvesse mais políticas de fundo para melhorar a vida das populações, para que houvesse outros postos de trabalho a que possam recorrer antes do sexual, com vista a uma diminuição na prostituição - ou então, aí sim, estando as condições asseguradas, admitir que existem pessoas prostitutas por opção.
Outra forma que tenho de comprar a minha posição talvez seja pelo exemplo na forma como Portugal lidou com a crise da droga nos anos 90: fomos pioneiros e um exemplo mundial ao não criminalizar o consumo e, em vez disso, dar ferramentas aos toxicodependentes para que se pudessem reabilitar. Portanto é aqui que admito que, talvez, eu tenha até uma posição similar à tua - admito que é ao regulamentar que se protege. Embora, como em tudo, não é perfeito. Também os outros trabalhos dito "normais" são regulamentados e nem por isso os trabalhadores estão livres de abusos...
Agradeço-te mais uma vez a franca troca de opiniões num tema tão polarizador e para o qual, apesar de talvez ter parecido no meu comentário inicial, eu não tenho soluções, nem admito tê-las. É um tema que mexe comigo, sem dúvida, mas perante o qual, além do "moralismo", tenho também posições contraditórias que não sei ainda como desconstruir ou encaixar.
Obrigada pela resposta tão honesta, e pela disponibilidade para repensar o ponto de partida. Num tema tão polarizador, é raro encontrar alguém que lê de novo, reconsidera e admite zonas de dúvida. Penso que isso vale mais do que qualquer concordância imediata.
Percebo perfeitamente o teu receio em relação à narrativa neo-liberal que romantiza a prostituição como emancipação; também me irrita profundamente essa ficção, especialmente como mulher de esquerda (conservadora no essencial, progressista no possível). É por isso mesmo que parto da desigualdade material: sem alternativas reais, não há escolha plena. Mas daí não decorre a abolição, decorre a necessidade de políticas públicas que reduzam essa desigualdade e protejam quem vive nela.
O paralelo com a descriminalização das drogas é exactamente o certo: não se salva ninguém através da punição, mas através da redução de danos, da segurança, da possibilidade de sair. E sabemos bem que nenhum modelo é perfeito, nem os trabalhos regulados, nem os que idealizamos. É por isso que regular não é celebrar: é simplesmente o caminho menos hipócrita e mais eficaz para reduzir riscos.
Acho bonito, e intelectualmente raro, assumires as tuas "contradições" - todos as temos, e este tema convoca-as quase inevitavelmente. O importante é, creio, reconhecer que a prostituição nasce da desigualdade o que nunca pode justificar retirar direitos; só os pode reforçar. E querer um mundo onde ninguém o faça por necessidade implica transformar as condições e não abolir a prática.
Obrigada pela troca. Conversas assim dão realmente esperança de que o "debate público" ainda pode ser um lugar de pensamento e não apenas de trincheiras. :)
Olá Rui :) Em parte, partilho essa ambivalência e acho importante nomeá-la. Concordo contigo num ponto essencial: a indignidade não está na pessoa, está nas condições. E creio que é aí que o moralismo costuma falhar, porque prefere indignar-se com o acto em abstracto e não com o sistema que empurra corpos para escolhas que não são livres.
A violência dessas realidades existe, sobretudo na prostituição de rua, nos contextos mais expostos e precários. Negá-la seria desonesto. O problema começa quando essa violência é usada como argumento para retirar agência a todas as outras experiências, ou para transformar o corpo da mulher num território permanentemente tutelado.
Falar de dignidade não pode ser um exercício selectivo. Não há dignidade no trabalho forçado, na pobreza estrutural, na falta de alternativas - mas essas violências atravessam muitas formas de trabalho que não recebem o mesmo julgamento moral.
E é aqui que, confesso, me chateia. Porque a dignidade só parece tornar-se um tema urgente quando se trata do corpo da mulher. A pornografia, por exemplo, raramente é pensada como prostituição, apesar de ser uma indústria estruturada em torno do mesmo princípio, e nela há também decisões livres, e outras não tanto, de serem penetradas várias vezes por vários estranhos, sem que isso convoque o mesmo juízo moral.
Essa assimetria diz muito menos sobre dignidade e muito mais sobre controlo, sobre quem pode dispor do corpo e em que condições o desconforto colectivo se activa. O ponto comum é, sem dúvida, a vontade de que ninguém tenha de vender o corpo por falta de alternativas. Acho que pensar dignidade a sério exige menos proibições, julgamentos rápidos e mais coragem para olhar para as condições materiais, sociais e simbólicas que moldam as escolhas. Não para silenciar a ambivalência, mas para manter o debate produtivo, honesto, humano - e obrigada por fazeres parte dele. :)